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Levo o segundo semestre do ano
com medo dessa época de muitas recordações de tempos que a vida
engoliu; temo chorar mais que devo ou passar os dias com aquele
famoso nó nas entranhas.
Passou o Natal. Razoavelmente
bem, não fora o calor de rachar exatamente no dia 24 e a falta
de alguma gente da maior importância para mim. Ótima comida e
bebida, em companhia dos que puderam estar. Pior seria ficar só
em casa, sem celebrar como muitos a alegria do renascer de
Cristo ou o Papai-Noel repleto de presentes ou ainda apenas
seguindo autômatos a solidariedade de um dia, que ainda persiste
no mundo cristão. Pelo menos, é o que dizem cá no ocidente,
imitador eterno do que vem do Primeiro Mundo, de tradição
protestante, hoje, meio chué, mas ainda Primeiro, para nós
colonizados embasbacados.
A missa da manhã do dia 25 foi a
melhor parte. Não por minha crença absoluta, senão pela paz ao
cantar os cânticos a plenos pulmões, ao dizer A Paz de Cristo
aos companheiros de assentos, ao rezar o Padre-Nosso de mãos
dadas com desconhecidos, ao comungar a Hóstia Sagrada, mesmo sem
confessar, o que é um enorme progresso da igreja católica. E que
gosto bom tem a hóstia de hoje! Gosto do perdão aos pecadilhos,
de benção do Corpo de Cristo para nossas vidas, de esperança de
menos sofrimento para o mundo e para nós!
Minha igreja estava linda,
enfeitada de verde e branco, com seu presépio modesto e
acolhedor, o Menino numa mangedoura verde-bandeira, como a nos
mostrar que, sem o verde no planeta, não sobreviveremos. Verde
de esperança, por certo.
Logo em seguida, preparativos
para o Réveillon magno do Rio de Janeiro e mínimo para quem não
quer sair de casa, enfrentar multidões. As lojas mixurucas no
Natal, porque repletas de bugigangas natalinas e desejo
frenético de vender, às vésperas do Ano Novo ficam um póuco mais
elegantes. Nem de longe lembram as da Quinta Avenida, em Nova
York, ou as do Faubeaurg Saint-Honoré, de Paris. Em todo caso,
lojas e shoppings capricham no melhor de seu gosto, na Zona Sul
do Rio de Janeiro. Até mesmo exibem vestidos de noite, sempre em
branco ou amarelo ou em ambas as cores. Tudo com um certo brilho
de tecido e luzes.
Se têm comprador, não se
percebe, dado que o povo das ruas hoje, em nossa cidade, está
mais para a Classe C do que para a B e muito menos, a A, que
esta não se vê mais nem em revistas, depois que viraram
socialites e celebridades. Ah os tempos do Ibraim Sued, do
Jacinto de Thormes em que as grandes familias de banqueiros e
empresários não se escondiam, como agora, do mesmo modo que não
se exibia a corrupção com descaramento. Éramos enganados numa
boa, ficávamos babando de inveja, e concordávamos que dinheiro
grosso não era mesmo pra qualquer um, pobres de nós! E mais:
aristocracia não se comprava na esquina. Vinha de gente
privilegiada por Deus, eu acho. Até mesmo decorávamos os nomes
importantes, até que começaram a ruir ou apenas desaparecer em
nuvens nunca explicadas. Morte? Talvez. Ou mudança de feição
social. Entramos na era da banalização das fortunas – vide os
jogadores famosos de nosso futebol – da expansão do mau-gosto da
TV Globo, do dita-moda de qualquer um...
Daí que uma frustração menor nos
ataca nos preparativos do Réveillon: não admiramos N-I-N-G-U-É-M.
Podemos, pois, nos voltar para os que realmente merecem a fama
de extraordinários, como os artistas verdadeiros de todas as
artes, os que sempre mereceram, os que agora merecem e os que
virão a merecer no futuro. Menos mal.
Feliz e discreto Ano Novo, minha
gente! Que de explosões estamos fartos.
Maria Lindgren |