Maria Lindgren

 Anotações De Uma Viagem De Sonho

        Começo pelo meio da viagem. Praga, vetusta e bela Praga da Ponte de Carlos, da praça velha com o famoso relógio astronômico de signos do Zodíaco, das torres da igreja de N. Sra. de Týn, que parecem visão atrás dos edifícios (vide foto acima); da Mala Strana com suas ruas uniformes, do Castelo e suas vielas onde Kafka se escondia, do rio Vltava, que pronunciamos Vóltava, da Catedral de São Vito, do Menino Jesus de Praga e... dos turistas.

Ah! Os turistas! Montes de alemães, franceses, americanos, ingleses... Descobriram Praga, para nunca mais a largarem. Conseguiram estragar a ponte mais artística do mundo, hoje coberta de camelôs, de ponta a ponta, a exporem sua mercadoria para os de fora, atraente porque de baixo preço ou de artistas fajutos a executar sua “obra de arte” aqui e acolá, desenhando  moçoilos e quase velhos, todos no afã de se exibirem aos amigos na volta: - O desenhista tcheco não resistiu e me desenhou assim igualzinho. Veja que beleza!.

No silêncio respeitoso da praça mais famosa do centro histórico, rapazes ingleses, similares aos brasileiros que saem das baladas do Leblon, ou ainda piores, berram em coral desafinado, unidos no desejo selvagem de chamar atenção ou pôr para fora o que, na Inglaterra normal e formal, lhes é, certamente, proibido.

São jovens, branquelas, altíssimos, uns magros, outros nem tanto. Empunham canecas de chope à moda alemã, sentam-se em círculos, conspurcam o chão sagrado de pedra muito antiga e preservada.

Alguns mais idiotas pensam que estão no Carnaval do Rio e desfilam em trajes de mulher. Não são travestis e sim, desengonçados homens, como em Arraial do Cabo de anos atrás. Ninguém os olha, a não ser meus companheiros de viagem e eu. Os da terra e os demais europeus parecem acostumados à baboseira dos ingleses.

Meu irmão nos explica:

- Eles vêm passar o fim de semana em Praga, tentar pegar mulheres de fama de beleza internacional, a maioria não consegue. Então, entopem-se de bebida, gritam seus cânticos alucinados e... vomitam pelas esquinas das ruas. É mais barato vir pra Praga, pagar o fim de semana em coroas, do que ficar em Londres. Londres é a cidade mais cara do mundo.

Fico atônita. Sempre fui uma curtidora da Inglaterra, mesmo sabendo de seus enormes defeitos de conquistadora de mares e povos. Para mim, os ingleses eram, até então, finíssimos gentlemen, apesar das extravagâncias engraçadas dos tempos dos Beatles, da Mary Quant da minissaia – coisas que mais me atraíam do que repugnavam. O Berço de Shakespeare! Não se precisava dizer mais nada. Enquanto a terra brasilis surgia primitiva para os portugueses, a terra britânica produzia literatura da melhor qualidade.

 Como eram requintados os ingleses de minha juventude, com sua rainha ainda não avacalhada por ninguém, seus Primeiro-Ministros de postura impecável! Como eram bem educados os ingleses de minha primeira visita a Londres: fala sussurrada, a ponto de quase não se fazerem entender. Apelidei de Land of the whispersLondon, London de Caetano Veloso, cuja letra refletia a absoluta verdade. “ I´m lonely in London, London, it´s lovely so/ I cross the streets  without fear...E a polícia gentil da Scotlad Yard, sem armas de fogo, impunha-se ao mundo, servia de exemplo à não-violência.

            Que papelão, Santo Deus! Nenhum outro grupo de turistas fazia mais do que arrastar os pés cansados do périplo do dia, acompanhando e escutando o guia. Até mesmo os espanhóis, de sangue quente latino, comportavam-se bem mais britanicamente do que os ingleses. Que baita desilusão! Meus ego-modelos de acento esnobe, substituídos pela gentalha sem acento, nem cortesia.

Queria chegar perto dos “engraçadinhos”, dar-lhes umas boas palmadas, mas me contive, com medo de que fossem imitar os Hoolligans, torcedores ferozes do futebol britânico, ou os soldados da guerra contra a independência da Irlanda, de longa data, que resultou em terrorismo de explodir inocentes. Lembrei-me também da adesão total da Inglaterra de Tony Blair à política feroz do Bush, contra o Iraque. Quase chorei. Desviei o corpo e os olhos, embora nos ouvidos zoasse um barulho fininho, incomodativo, ainda por bom tempo.

Salvou-me o jantar tranqüilo, de comida gostosa e bom papo. Daí em diante, só maravilhas


Maria Lindgren
11-07-2007

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