Maria Lindgren

Assim É Se Lhe Parece

            Em meio à balbúrdia de hotel reservado para congressistas, a mulher maníaca por registros escritos do que vê e sente, vai à praia e deixa escorregarem as imagens mais recentes.

Figuras há pouco desconhecidas, tomam forma. Desfilam, a pouco e pouco pela tela da mente. Nenhum passante calcula, de antemão, poder entrar na filmagem mental a qualquer momento. Ficam à vontade, expõem-se. Melhor para a moça, sequiosa de pessoas-personagens, de lhes delinear traços exclusivos, de enfocar e reproduzir imagens, para ela, verdadeiras. Tarefa difícil naqueles dias de agitação.

A praia é sempre o locus predileto de suas meditações. Não qualquer uma:  praia deserta ou semi, de meio-de-semana de inverno, no Rio de Janeiro, ou areias de outros lugares longínquos, mal descobertos. Como aquela, do congresso.

Corpo acomodado na espreguiçadeira de praia destinada ao lazer, o desejo do registro cresce mais que a modorra, culpa do sol a pino, ainda que fora do verão - terra que tem uma única estação: quente ou menos quente, como dizem os habitantes mais sabidos.

 Envolvida em brisa e mar de pequenas ondas, pouca roupa no corpo e nenhuma companhia, as idéias afluem e fluem. Maldosas ou não, convenhamos. Perceber o caráter de pessoas quase desconhecidas, por uma palavra ou um gesto superficiais, pode ser erro fatal, injustiça mesmo. Ela se excita ao arriscar.

Mas a quem agrada ser personagem de filme ou texto, sem autorização prévia, se não ao autor? Há casos de rompimento de relações para o resto da vida. Se a obra for de memórias, os protestos aparecem rápidos. Não importa se nomes são inventados, assim como características individuais. Vale o que se recria.:

- Eu não sou nada assim! Fiquei p... da vida quando percebi que era eu. Esta mulher do conto é um horror!

- Quem disse que eu estava lá naquele dia? Você me confundiu com outra pessoa. É bom ter mais cuidado. Detesto ser confundida.

A autora pensa que sempre vale o risco de levar mais passa-foras. Daí que insiste na observação e no registro, seguida de possíveis pequenas distorções: a criação o exige.

Por isso, naquela praia de repouso físico, a mente repleta de figuras em ação, ela toma nota de mais uma impressão, retirada do olhar perscrutador.

Começam a viver os protagonistas do assim é, se lhe parece, não da peça de  Pirandello: exclusivamente dela. São poucos, mas expressivos.

Não atina com a razão de focalizar o deputado. Nem na praia ele está. Talvez porque seja o único deputado presente ao encontro. Pela fama,  pela fala, pela maciez, a gente jura que é um aliado. Simpático sessentão, com cara de avô complacente, desses que vivem para a família. Em fim de carreira, amigão de todos, conforme as várias campanhas.

 De repente, voz acusativa vomita sério palavrório: revela-se opositor convicto de uma facção antes aliada. Durante o dia, porque à noite, o homem retorna ao mesmo ar doce, maridão orgulhoso da elegância da mulher ao lado, de mãos dadas com ela.

A doce criatura de cabelo mechado, liso e preso, deixa ver na praia, sem querer, várias celulites no traseiro, apesar do maiô apertado e preto. Puxa um papo legal com os mais próximos, enquanto acaricia o braço do marido bem grisalho. Aparenta cinqüenta e tantos anos.

Isso, de manhã, pois à noite, ninguém a reconhece: transforma-se em elegante jovem senhora, nos poucos cinqüentas, maquiagem de profissional, cabelos soltos de anúncio de shampoo. E pernocas ligeiramente bronzeadas, meio-expostas estrategicamente num short quase bermuda, de linho branco. Sem dúvida, a presença feminina mais chamativa do restaurante lotado.

À tarde e à noitinha, o juiz severo, de fala elaborada de toque irônico que lhe cai bem, faz inclementes acusações a um senhor de oratória vulgar, desajeitado por natureza e tendências políticas. Sucesso enorme do magistrado, é claro, discussão ganha de longe.

 Pela manhã, mal reconhecido pelos pouco íntimos, solta-se, deixa aparecer o desportista boa-praça, desses que concorrem pelo simples prazer da brincadeira, à borda da piscina e dentro dela. Perde elegância, ganha simpatia e torcida.

Dentro do restaurante apinhado de pessoas de todos os tipos e faixas etárias - salvo crianças - o guapo rapaz chama a atenção da observadora de gente. Também, um cara desses não pode escapar à observação feminina. Moço alto, queimadão, bonitão de cara e corpo, espicha o pescoço à procura de sua mulher e oblitera quaisquer intenções femininas ou feministas. Todas as fêmeas presentes invejam a causa de tão grande interesse. Raros são os maridos atrás  das mulheres, com afinco similar.

Mas o objeto de desejo dele é muito outro: não, a bela mulher perdida nas muitas mesas de conversa: busca a chave do quarto que a esposa carregara, confessa.

A cabeça observadora volta ao congresso. Concentra-se nos discursos e comentários dos poucos presentes que têm direito à palavra: não todos, é certo. Conclui: tudo o que parece crítica se derrete com facilidade.

Os sindicatos de empregados saíram de moda. Não se questiona, como outrora, a ação dos patrões. É inteiramente out a reivindicação dos tempos da sindicância operante, exposta ainda, em último esforço, pela sindicalista de perfil e trajes condizentes.  Mal vestida, como toda trabalhadora sindicalizada e empenhada, contrasta com os blazers e ternos bem talhados dos mais endinheirados.

Os inimigos de ontem revelam-se excelentes oradores e vencem as discussões, por convencimento geral.  A observadora, coitada, está por fora. O mundo gira.

Em casa, de novo sozinha, procura entender um pouco mais da miscelânea apreciada. Começa pelo macro. “ Os tempos mudam e a gente vai com eles, sem querer. Palavras e imagens entram pelos “sete buracos da minha cabeça. Não posso escapar”.

Em conclusão, duas opções bem distintas: ou permanece imóvel em seu micromundo de conforto, pondo de lado as questões mais importantes da ordem mundial e nacional, ou tenta explicações e coerência em um ou outro autor, que tenta explicar o mundo atual.  Quem sabe, pelo menos, segue o que faz o antropólogo que lera no último domingo: procura, na história antiga, exemplos de que pouco mudam as grandes questões da humanidade.

Se a escolha cair em seu mundinho medíocre, vamos parar de querer descobrir verdades, nas aparências. Vício maldito!

Maria Lindgren

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