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Em meio à balbúrdia de hotel
reservado para congressistas, a mulher maníaca por registros
escritos do que vê e sente, vai à praia e deixa escorregarem as
imagens mais recentes.
Figuras há pouco desconhecidas,
tomam forma. Desfilam, a pouco e pouco pela tela da mente.
Nenhum passante calcula, de antemão, poder entrar na filmagem
mental a qualquer momento. Ficam à vontade, expõem-se. Melhor
para a moça, sequiosa de pessoas-personagens, de lhes delinear
traços exclusivos, de enfocar e reproduzir imagens, para ela,
verdadeiras. Tarefa difícil naqueles dias de agitação.
A praia é sempre o locus
predileto de suas meditações. Não qualquer uma: praia deserta
ou semi, de meio-de-semana de inverno, no Rio de Janeiro, ou
areias de outros lugares longínquos, mal descobertos. Como
aquela, do congresso.
Corpo acomodado na
espreguiçadeira de praia destinada ao lazer, o desejo do
registro cresce mais que a modorra, culpa do sol a pino, ainda
que fora do verão - terra que tem uma única estação: quente ou
menos quente, como dizem os habitantes mais sabidos.
Envolvida em brisa e mar de
pequenas ondas, pouca roupa no corpo e nenhuma companhia, as
idéias afluem e fluem. Maldosas ou não, convenhamos. Perceber o
caráter de pessoas quase desconhecidas, por uma palavra ou um
gesto superficiais, pode ser erro fatal, injustiça mesmo. Ela se
excita ao arriscar.
Mas a quem agrada ser personagem
de filme ou texto, sem autorização prévia, se não ao autor? Há
casos de rompimento de relações para o resto da vida. Se a obra
for de memórias, os protestos aparecem rápidos. Não importa se
nomes são inventados, assim como características individuais.
Vale o que se recria.:
- Eu não sou nada assim! Fiquei
p... da vida quando percebi que era eu. Esta mulher do conto é
um horror!
- Quem disse que eu estava lá
naquele dia? Você me confundiu com outra pessoa. É bom ter mais
cuidado. Detesto ser confundida.
A autora pensa que sempre vale o
risco de levar mais passa-foras. Daí que insiste na observação e
no registro, seguida de possíveis pequenas distorções: a criação
o exige.
Por isso, naquela praia de
repouso físico, a mente repleta de figuras em ação, ela toma
nota de mais uma impressão, retirada do olhar perscrutador.
Começam a viver os protagonistas
do assim é, se lhe parece, não da peça de Pirandello:
exclusivamente dela. São poucos, mas expressivos.
Não atina com a razão de
focalizar o deputado. Nem na praia ele está. Talvez porque seja
o único deputado presente ao encontro. Pela fama, pela fala,
pela maciez, a gente jura que é um aliado. Simpático sessentão,
com cara de avô complacente, desses que vivem para a família. Em
fim de carreira, amigão de todos, conforme as várias campanhas.
De repente, voz acusativa
vomita sério palavrório: revela-se opositor convicto de uma
facção antes aliada. Durante o dia, porque à noite, o homem
retorna ao mesmo ar doce, maridão orgulhoso da elegância da
mulher ao lado, de mãos dadas com ela.
A doce criatura de cabelo
mechado, liso e preso, deixa ver na praia, sem querer, várias
celulites no traseiro, apesar do maiô apertado e preto. Puxa um
papo legal com os mais próximos, enquanto acaricia o braço do
marido bem grisalho. Aparenta cinqüenta e tantos anos.
Isso, de manhã, pois à noite,
ninguém a reconhece: transforma-se em elegante jovem senhora,
nos poucos cinqüentas, maquiagem de profissional, cabelos soltos
de anúncio de shampoo. E pernocas ligeiramente bronzeadas,
meio-expostas estrategicamente num short quase bermuda, de linho
branco. Sem dúvida, a presença feminina mais chamativa do
restaurante lotado.
À tarde e à noitinha, o juiz
severo, de fala elaborada de toque irônico que lhe cai bem, faz
inclementes acusações a um senhor de oratória vulgar,
desajeitado por natureza e tendências políticas. Sucesso enorme
do magistrado, é claro, discussão ganha de longe.
Pela manhã, mal reconhecido
pelos pouco íntimos, solta-se, deixa aparecer o desportista
boa-praça, desses que concorrem pelo simples prazer da
brincadeira, à borda da piscina e dentro dela. Perde elegância,
ganha simpatia e torcida.
Dentro do restaurante apinhado
de pessoas de todos os tipos e faixas etárias - salvo crianças -
o guapo rapaz chama a atenção da observadora de gente. Também,
um cara desses não pode escapar à observação feminina. Moço
alto, queimadão, bonitão de cara e corpo, espicha o pescoço à
procura de sua mulher e oblitera quaisquer intenções femininas
ou feministas. Todas as fêmeas presentes invejam a causa de tão
grande interesse. Raros são os maridos atrás das mulheres, com
afinco similar.
Mas o objeto de desejo dele é
muito outro: não, a bela mulher perdida nas muitas mesas de
conversa: busca a chave do quarto que a esposa carregara,
confessa.
A cabeça observadora volta ao
congresso. Concentra-se nos discursos e comentários dos poucos
presentes que têm direito à palavra: não todos, é certo.
Conclui: tudo o que parece crítica se derrete com facilidade.
Os sindicatos de empregados
saíram de moda. Não se questiona, como outrora, a ação dos
patrões. É inteiramente out a reivindicação dos tempos da
sindicância operante, exposta ainda, em último esforço, pela
sindicalista de perfil e trajes condizentes. Mal vestida, como
toda trabalhadora sindicalizada e empenhada, contrasta com os
blazers e ternos bem talhados dos mais endinheirados.
Os inimigos de ontem revelam-se
excelentes oradores e vencem as discussões, por convencimento
geral. A observadora, coitada, está por fora. O mundo gira.
Em casa, de novo sozinha,
procura entender um pouco mais da miscelânea apreciada. Começa
pelo macro. “ Os tempos mudam e a gente vai com eles, sem
querer. Palavras e imagens entram pelos “sete buracos da
minha cabeça. Não posso escapar”.
Em conclusão, duas opções bem
distintas: ou permanece imóvel em seu micromundo de conforto,
pondo de lado as questões mais importantes da ordem mundial e
nacional, ou tenta explicações e coerência em um ou outro autor,
que tenta explicar o mundo atual. Quem sabe, pelo menos, segue
o que faz o antropólogo que lera no último domingo: procura, na
história antiga, exemplos de que pouco mudam as grandes questões
da humanidade.
Se a escolha cair em seu
mundinho medíocre, vamos parar de querer descobrir verdades, nas
aparências. Vício maldito!
Maria Lindgren |