Maria Lindgren

Ataque De Nostalgia


          O dia pinta nublado e quente, sem promessa de azul e brisa mais tarde. A vontade de ir à terra natal não é essas coisas em meu coração. Sinto mescla de gosto bom do Ai que saudades que eu tenho...e desprazer das recordações melancólicas, de sempre que lá vou.

 Quem mora muitos anos num lugar e vai de visita anos depois, sofre os embaraços do recordar o passado. Para quem tem cuca fresca, predominam as boas memórias. Para mim, que sofro de problemas crônicos jamais curados em psicanálise, sempre machuca.

 O telefonema do irmão, tira-me do programa de todas as noites: ver um filme na sessão das dez, esperar o sono e... cama.

            - Que tal una bela passegiata, em nossa terra natal no domingo? Minha filha está uma moça e não conhece a terra do pai. Acho que nunca pisou o solo niteroiense. Vamos lá pela onze horas e voltamos quando Deus quiser. Dá tempo de ver muito.

            Ok dito com certa relutância, convido o marido que, para meu espanto, aceita, pois com jogo do Flu prometido pela televisão, o homem não arreda pé de casa.

            Primeiro, a missa: não gosto de rever passado sem a benção do Senhor e da Virgem Maria. Perdi muita gente ao longo do caminho Niterói-Rio e quero pedir por todos os que me fazem uma falta danada.

            A missa das dez horas não é a minha preferida. Não vejo caras conhecidas e me incomoda o padre, que não sabe como explicar o sermão a pessoas de uma certa cultura. Por exemplo, passa meia hora a justificar porque se tem que acreditar nas verdades da Bíblia, sempre tirando o corpo da igreja fora, pois fica difícil não ressaltar as falhas do clero, é claro. Bobagem, vai-se à igreja, reza-se, porque se sente um impulso religioso incontrolável. Não se reflete tanto assim. Há pessoas que nem ouvem o que o padre diz, nota-se logo.

            Depois da comunhão que me apazigua, saio que nem flecha ao encontro com meu maridão. Incrível, ele chega à hora marcada.

            Carrão novo a postos, direto à Copacabana e aos sorrisos fartos do encontro com o trio familiar: meu irmão, minha cunhada e minha sobrinha.. Lembro-me da viagem turística à Praga, com enorme saudade.

 Quem vai dirigir, quem não vai, Ponte Rio-Niterói, vista cinzenta, ainda assim, bem bonita e, num piscar, a torre da Matriz de São Lourenço, de minha infância hipercatólica.

 Entrada errada, entrada certa, afinal a rua em que nascemos. Pequena, bem tratada, árvores verdes apesar do verão tórrido, nenhuma casa estonteante e a surpresa: a casa paterna, que horror, virou capela funerária de uma casa de saúde maldita, tão maldita que parece bem decadente hoje. Praga que não nego.

            Disfarce geral do choque, rápido marejar de meus olhos, diluído por comentários do grupo a que faço coro: - Mas, que coisa, meu Deus!!!!!

            Meu desejo de voar de lá interrompe-se com as fotos e fatos sorridentes da rua e de algumas outras casas, contando-se aos parceiros as histórias:  da Dona Minervina, bêbada para não pensar na vida infeliz de feia solitária, do Seu Milton, o Major Milton que comia criancinhas; dos amigos de fé de meu irmão e família exagerada no tamanho; do colégio enorme, ainda bem grande, no fim da rua; do triste fim do riacho cheio de mato que, olha só, desapareceu, gente, do meu Colégio das Mercês cheio de graça, de freiras daquelas clássicas de manto branco, nos dias comuns, e preto, nas saídas à rua...

            O MAC – Museu de Arte Contemporânea -, obra-prima do Niemeyer, programa acertado antes, surge garboso na ponta da subida que liga a Praia das Flechas à Praia de Boa Viagem. Lembro-me dos protestos absurdos dos ecologistas moradores, por causa do disco-voador pousado na paisagem. Elogios aos borbotões aliviam-me o desprazer de certos aspectos de minha ida ao Fonseca, sobretudo a morte prematura de uma de amigas do peito, moradora de uma das vilas  ao lado da saída da Ponte.

            Icaraí aparece e ainda é encanto. – Chiii! A Pedra de Itapuca encolheu – comenta o irmão. Icaraí es um quadro pintado por Deus... Pequenina, de ruas estreitas e muitos prédios elegantes de classe média, sem a imponência de uma Copacabana, mas organizada, acolhedora, amiga.

           Não falo de meu passado doido e doído, para não atrapalhar o clima otimista do carro, ajudado por ar condicionado perfeito. Mas é claro que, lá no fundo, meu irmão sabe.

            São Francisco, Saco retirado do nome antigo por conta de ser nome de santo e que Santo, que não merece piadas de mau gosto. Pulula de restaurantes e pessoas esfaimadas, cujo programa de domingo é empanturrar-se, conforme os corpos rechonchudos que presencio à entrada do Porcão.

            Mesmo as carnes de sangue a escorrer do ferro fincado em nossos pratos o tempo todo, que me dão arrepios, em geral, e uma pena danada dos bois, vacas, carneiros e frangos, nem a demora absurda dos garçons, ao tentarem sobreviver aos inúmeros pedidos e aos berros constantes de euforia dos glutões carnívoros, nem o bobó de camarão meio ralo e os sushis e sashimis meio chué abalaram o prazer de ainda ter uma família.

            A volta, como sempre muito rápida, ainda nos mostrou o Centro da cidade feioso, cheio de gente feiosa, sem dar tempo de ir ao Portugal Pequeno e ao Mercado de Peixes saborear um peixe à portuguesa ou uma sardinha frita, ao menos, que muitos niteroienses afirmam ainda existir e ma-ra-vi-lho-so.

            Em casa, um tanto nauseada e estonteada pelo trajeto de carro, como de costume, deito em minha cama de casal, ventilador e pensamentos a todo vapor: a imagem da casa de papai, tão querida por ele e por sua neta mais velha que lá celebrava os primeiros aniversários, não pára de me atazanar Onde puseram as colunas dóricas e os móveis de ferro pintados de branco da varanda cheia de plantas? Que fim levou a sala de visitas e a de jantar, os quartos grandes de dormir e o menor, de meu irmão? E o quintal com a mangueira repleta de manda espada ou manga de quintal, nem sei, mais deliciosas que qualquer fruta gigantesca de nossos dias?

Uma barreira de cerâmica cerrada, em lugar da varanda em que nos regalávamos no colo de nossa mãe, sentada nos degraus que davam para a entrada cheia de trepadeiras em flor, continua a me roer as entranhas. Hoje, também.

Maria Lindgren


[1] Vá, minha canção, para os solitários e descontentes/ Vá para os escravos das convenções/ Carrega por eles meu desprezo por seus opressores (tradução livre da autora)

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