O dia pinta nublado e
quente, sem promessa de azul e brisa mais tarde. A vontade de
ir à terra natal não é essas coisas em meu coração. Sinto
mescla de gosto bom do Ai que saudades que eu tenho...e
desprazer das recordações melancólicas, de sempre que lá vou.
Quem mora muitos anos num lugar e vai de visita anos depois,
sofre os embaraços do recordar o passado. Para quem tem cuca
fresca, predominam as boas memórias. Para mim, que sofro de
problemas crônicos jamais curados em psicanálise, sempre
machuca.
O telefonema do irmão, tira-me do programa de todas as
noites: ver um filme na sessão das dez, esperar o sono e...
cama.
- Que tal una bela passegiata,
em nossa terra natal no domingo? Minha filha está uma moça e
não conhece a terra do pai. Acho que nunca pisou o solo
niteroiense. Vamos lá pela onze horas e voltamos quando Deus
quiser. Dá tempo de ver muito.
Ok dito com certa relutância, convido o marido
que, para meu espanto, aceita, pois com jogo do Flu prometido
pela televisão, o homem não arreda pé de casa.
Primeiro, a missa: não gosto de rever passado sem
a benção do Senhor e da Virgem Maria. Perdi muita gente ao
longo do caminho Niterói-Rio e quero pedir por todos os que me
fazem uma falta danada.
A missa das dez horas não é a minha preferida. Não
vejo caras conhecidas e me incomoda o padre, que não sabe como
explicar o sermão a pessoas de uma certa cultura. Por exemplo,
passa meia hora a justificar porque se tem que acreditar nas
verdades da Bíblia, sempre tirando o corpo da igreja fora,
pois fica difícil não ressaltar as falhas do clero, é claro.
Bobagem, vai-se à igreja, reza-se, porque se sente um impulso
religioso incontrolável. Não se reflete tanto assim. Há
pessoas que nem ouvem o que o padre diz, nota-se logo.
Depois da comunhão que me apazigua, saio que nem
flecha ao encontro com meu maridão. Incrível, ele chega à hora
marcada.
Carrão novo a postos, direto à Copacabana e aos
sorrisos fartos do encontro com o trio familiar: meu irmão,
minha cunhada e minha sobrinha.. Lembro-me da viagem turística
à Praga, com enorme saudade.
Quem vai dirigir, quem não vai, Ponte Rio-Niterói, vista
cinzenta, ainda assim, bem bonita e, num piscar, a torre da
Matriz de São Lourenço, de minha infância hipercatólica.
Entrada errada, entrada certa, afinal a rua em que nascemos.
Pequena, bem tratada, árvores verdes apesar do verão tórrido,
nenhuma casa estonteante e a surpresa: a casa paterna, que
horror, virou capela funerária de uma casa de saúde maldita,
tão maldita que parece bem decadente hoje. Praga que não nego.
Disfarce geral do choque, rápido marejar de meus
olhos, diluído por comentários do grupo a que faço coro: -
Mas, que coisa, meu Deus!!!!!
Meu desejo de voar de lá interrompe-se com as
fotos e fatos sorridentes da rua e de algumas outras casas,
contando-se aos parceiros as histórias: da Dona
Minervina, bêbada para não pensar na vida infeliz de feia
solitária, do Seu Milton, o Major Milton que comia
criancinhas; dos amigos de fé de meu irmão e família exagerada
no tamanho; do colégio enorme, ainda bem grande, no fim da
rua; do triste fim do riacho cheio de mato que, olha só,
desapareceu, gente, do meu Colégio das Mercês cheio de graça,
de freiras daquelas clássicas de manto branco, nos dias
comuns, e preto, nas saídas à rua...
O MAC – Museu de Arte Contemporânea -, obra-prima
do Niemeyer, programa acertado antes, surge garboso na ponta
da subida que liga a Praia das Flechas à Praia de Boa Viagem.
Lembro-me dos protestos absurdos dos ecologistas moradores,
por causa do disco-voador pousado na paisagem.
Elogios aos borbotões aliviam-me o desprazer de certos
aspectos de minha ida ao Fonseca, sobretudo a morte prematura
de uma de amigas do peito, moradora de uma das vilas ao lado
da saída da Ponte.
Icaraí aparece e ainda é encanto. – Chiii! A Pedra
de Itapuca encolheu – comenta o irmão. Icaraí es
um quadro pintado por Deus... Pequenina, de ruas
estreitas e muitos prédios elegantes de classe média, sem a
imponência de uma Copacabana, mas organizada, acolhedora,
amiga.
Não falo de meu passado doido e doído, para não
atrapalhar o clima otimista do carro, ajudado por ar
condicionado perfeito. Mas é claro que, lá no fundo, meu irmão
sabe.
São Francisco, Saco retirado do nome antigo por
conta de ser nome de santo e que Santo, que não merece piadas
de mau gosto. Pulula de restaurantes e pessoas esfaimadas,
cujo programa de domingo é empanturrar-se, conforme os
corpos rechonchudos que presencio à entrada do Porcão.
Mesmo as carnes de sangue a escorrer do ferro
fincado em nossos pratos o tempo todo, que me dão arrepios, em
geral, e uma pena danada dos bois, vacas, carneiros e frangos,
nem a demora absurda dos garçons, ao tentarem sobreviver aos
inúmeros pedidos e aos berros constantes de euforia dos
glutões carnívoros, nem o bobó de camarão meio ralo e os
sushis e sashimis meio chué abalaram o prazer de ainda ter uma
família.
A volta, como sempre muito rápida, ainda nos
mostrou o Centro da cidade feioso, cheio de gente feiosa, sem
dar tempo de ir ao Portugal Pequeno e ao Mercado de Peixes
saborear um peixe à portuguesa ou uma sardinha frita, ao
menos, que muitos niteroienses afirmam ainda existir e
ma-ra-vi-lho-so.
Em casa, um tanto nauseada e estonteada pelo
trajeto de carro, como de costume, deito em minha cama de
casal, ventilador e pensamentos a todo vapor: a imagem da casa
de papai, tão querida por ele e por sua neta mais velha que lá
celebrava os primeiros aniversários, não pára de me atazanar
Onde puseram as colunas dóricas e os móveis de ferro pintados
de branco da varanda cheia de plantas? Que fim levou a sala de
visitas e a de jantar, os quartos grandes de dormir e o menor,
de meu irmão? E o quintal com a mangueira repleta de manda
espada ou manga de quintal, nem sei, mais deliciosas que
qualquer fruta gigantesca de nossos dias?
Uma barreira de cerâmica cerrada, em lugar da varanda em que
nos regalávamos no colo de nossa mãe, sentada nos degraus que
davam para a entrada cheia de trepadeiras em flor, continua a
me roer as entranhas. Hoje, também.
Maria
Lindgren