Maria Lindgren

 Belo Casal

Tinham o mesmo nome, com variação de gênero apenas: Almerindo e Almerinda. Ambos da Paraíba, dum canto tão canto que nem com lente se acha no mapa.

Almerindo cresceu no capinar, semear, plantar, colher... da roça com o pai, explorados ambos por patrão rigoroso. Paga suficiente para não morrerem de inanição. A mãe, de três filhos apenas, abortava tudo o que veio depois. Talvez de tanta lida.

Almerinda, vida similar. Só que, com uma porrada de irmãos e menos dinheiro.

Longe, muito longe, a única escola. Meninos e meninas, ao sol não desejado, andavam quilômetros para a classe multisseriada, típica da roça. Bancos sem encosto fincados na terra e um quadro de giz, quase sempre sem o próprio.

Aula dada de orelha, para alunos de 1ª a 4ª série todos misturados, cartilhas obsoletas, de Ivo viu a uva  e semelhantes, deixavam pouca coisa na cabeça da criança. Daí que Almerindo mal aprendeu a soletrar as palavras, sem nunca perguntar o que era  Ivo, nem ter visto uva. Na casa dele só milho, da plantação, e leite, de uma vaca depauperada,  cota conseguida, a custo, do patrão. Futuro, nenhum.

Na escola, deram-se de cara e coração: Almerinda, mais inteligente do que ele, pelo menos, lia e contava um pouco melhor. Ambos sabiam escrever seus respectivos nomes, o que era um progresso e tanto. Olharam-se e sentaram juntos o menino mal ajeitado e a menina bonitinha.  Depois, cada qual para suas tarefas, até dezoito, dezenove anos.

Quando a seca veio feroz, lá pelo início dos 80, do século XX, Almerindo, de saco cheio e dor nas costas, deu no pé, animado pelo colega Zeca. Vamos porque vamos pro Rio de Janeiro!

Almerinda chorou. Conformou-se quando o namorado garantiu, também em lágrimas:

- Assim que eu arrumar trebalho, mando chamar você.

Na casa de João, primo do Zeca, no subúrbio de Campo Grande/RJ, sempre cabia mais uma rede. No caso, duas. Casa de dois cômodos para seis pessoas, inclusive o casal João e a mulher, era trombada, sem privacidade: não durou muito a hospedagem.

Almerindo e Zeca conseguiram trabalho com moradia, em portaria de prédios da Tijuca. Naquele tempo, grande perigo nem se falava na Tijuca. Os bandidos não dominavam a praça e a Praça Saenz Pena, como depois.

Serviço bem menos braçal que o do plantio e da colheita do milho. Almerindo lavava o prédio de quatro andares, tocava a bomba d´água, trocava lâmpadas queimadas, distribuía a correspondência, atendia os chamados de pequenos socorros dos moradores, vestido de uniforme caqui, calças arregaçadas, roupa de dar duro.

Assobio permanente, de melodia indefinida, ajudavam-no a tocar a vida durante o dia. Depois, na portaria, banho tomado, novo uniforme, sem resquício de cheiro ruim  entranhado no corpo. A conversa e a risada com os porteiros  dos outros prédios, o jeito bonachão de aceitar a vida atraía amizades. Ele era de boa prosa.

Na folga de domingo, uns tragos no boteco e lembranças de seu amor encafuado na Paraíba. Num dia de saudade aguda, dois anos após sua chegada ao Rio, conseguido o dinheiro da passagem de ônibus, Almerinda, meu amor!

Moraram juntos uns dez anos, no quartinho que dava para uma pequena área, bem embaixo do primeiro andar do prédio.  Moça jeitosa, sensualidade a lhe explodir pelos poros, Almerinda era a rainha da rua: todos a cobiçavam. 

 Ágil, a mocinha logo arranjou serviço de faxineira e passadeira, em casa de duas famílias do prédio. Simpática, incansável, cozinhava, lavava, passava, para o marido e tinha tempo para a faxina das madames.

De vez em quando, botequim com o marido, para papo e tentativa de estancar o porre do companheiro, com sorriso chegado à alcova.

Com seu toque caprichoso, Almerinda transformou a casa minúscula: espalhou verde pela área, ganhou  mesa de jantar e quatro cadeiras, um sofá e um máquina de costura de pé. Heranças das moradoras do edifício.

Grávida do primeiro filho, grávida do segundo, nada interrompia o capricho e a disposição para o trabalho da paraibana. Não os deixava chorar alto: cantava-lhes as cantigas típicas do Nordeste, mais as que vinham pelo rádio.

Quando a mulher decidiu levar os filhos para os avós conhecerem, lá no Sapé, o marido murchou, deixou de assobiar e arrumava briga nos botecos. Na segunda-feira, já sabe, olho roxo e muita azia.

Assim que os filhos cresceram a ponto de ir para a escola, o simpático casal dos Almerindos pediram aos moradores colégio de boa qualidade. Sempre Almerinda a falar.

- Será que a senhora não me arrumava uma bolsa na escola da Catarina?

- É claro, Almerinda. Vou falar com a diretora.

Ensinada pela mulher do Zeca, Almerinda costurava pequenos consertos, antes da proliferação de lojas no bairro. Depois, tarefas maiores, até confeccionar a roupa das empregadas dos prédios à volta. Um dinheirinho a mais. E tinha gosto. Copiava vestidos das revistas de atrizes da TV, e usava, ela também, uma imitação de tecido bem mais  barato. Como China Town, de Nova York.

Cada vez mais sensual, com trinta e poucos anos, Almerinda passou a fazer carne de sol com feijão de corda, presentes dos amigos da Feira de São Cristóvão. Pediram licença ao condomínio e, ao som dos chotes, baiões, chachados e sambinhas, alguns porteiros e as mulheres mais chegadas, improvisavam um baile-forró no quintal minúsculo. O som vinha de rádio e fita, mas som.

E Almerinda rebolava feliz, agarrada ao irmão mais novo do Zeca, um belo pé de valsa, recém-chegado da Paraíba. Restos da noitada, ela acordava cantarolando, na manhã seguinte.

Todos percebiam o encantamento do rapaz bonitinho e perfumado pela cintura ainda fina de Almerinda. Ninguém dizia nada: gostavam demais do casal.

Assim, passou-se mais de um ano. De repente, Almerinda e o irmão do Zeca sumiram da casa e da vida do pobre marido. A paixão a obrigara a deixar os  filhos.

O amor pelos meninos, mais o carinho dos amigos ajudaram Almerindo a não se tornar um alcoólatra. Criou, e bem criados, seus filhotes queridos, até uns doze anos, sem brigas, nem discussões.

Certo dia, o nordestino apareceu mais triste: Almerinda tinha pedido os filhos e eles preferiram a mãe.

Sozinho, Almerindo desandou a beber e a chorar.

- Seus filhos mandaram notícia? Tão morando com a mãe sozinha ou acompanhada?

- Nem sei.

 Não ficou magro porque a bebida o inchava, criando-lhe  uma pança e tanto. E lágrimas lhe escorriam pelo rosto mal limpo.

- Calma, Seu Almerindo. Ela há de voltar. O senhor é um cara ótimo. Ela vai ver.

Viu, efetivamente. Almerinda e os filhos adentraram a casa, sem uma palavra. Retomaram a vida. Almerindo voltou a assobiar.

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