Carnaval
" Tanto riso, oh quanta alegria..."
Não
posso. Tenho que falar de Carnaval. É meu sangue de
brasileira amulatada que ainda fervilha. Herança dos ritmos
da África, ainda que escravizada, mesclada, por que não
dizer, à língua portuguesa abrasileirada, sem os fados
melancólicos.
Falam
mal, dizem que acabou, vivem a nostalgia do tempo do
"aquilo, sim era Carnaval", mas eu... eu não posso deixar
passar em branco o que sinto nos " três dias de
folia e brincadeira" de minha terra, hoje transformados
em quatro, cinco ou seis, sei lá eu.
É como
se Deus soprasse a tristeza pra bem longe do Brasil e desse
licença pro povo tornar a brincar como criança e como gente
grande " sem medo de ser feliz". Acho, pois, muito
bom que insistam, não desistam.
Esta
cambada animada esquece das mazelas cotidianas, das lágrimas
derramadas nas novelas, nos programas de auditório e nos
noticiários da TV, dos graves males do mundo - agora mais
macros ainda, com a ameaça da extinção do próprio planeta -
enfim, do que significa coisa ruim. E cai na folia, com ou
sem Rei Momo, com ou sem dinheiro, com ou sem companhia, com
ou sem bebida...
Há os que
simplesmente assistem, divertindo-se com o gozo alheio. Há
os que brincam sozinhos, mesmo sem esperança de arranjar
companhia. Há os que brincam em grupo de todas as idades,
cores e sexos. Há os que brincam de fantasia improvisada -
às vezes, só uma flor nos cabelos, uma coroa de princesa ou
estranhas orelhinhas de um bicho qualquer. Há o que nem se
fantasiam. Mas riem, cantam, pulam, brincam.
No Rio, o
choque de ordem do prefeito vai tentando organizar o "inorganizável":
o xixi, que sai mais abundante e freqüente por causa da
cerveja e do pula-pula e não tem mictório que dele dê conta;
o lixo, que não tem jeito de diminuir em meio à multidão
avassaladora dos blocos de rua, cada vez mais vigorosos numa
cidade tão maltratada. Atarefados mini-prefeitos arrastam
caixotes repletos de cocos a serem consumidos na praia,
escarafuncham cada canto dos quiosques para retirar as
caixas de isopor cheias de latas de cerveja. Fazem uma força
danada pra no dia seguinte voltar tudo à vaca fria.
Duvido
que reine a mais perfeita ordem britânica em terras de
republicanos marotos! Sempre vai haver o jeitinho carioca de
driblar, se não as pernas dos jogadores de antanho, as
algemas da polícia.
Falar em
polícia, li e vi que na Bahia fabricaram de emergência
prisões gradeadas ambulantes para prender os malfeitores do
meio dos blocos, empilhando-os qual cocos. Logo onde, Santo
Deus, em Salvador, sinônimo tradicional matusalênico de
farra carnavalesca, mesmo que fora do Carnaval.
Enquanto
isso, São Paulo, a cidade que mais trabalha no país,
prepara-se para um Carnaval menos delirante, mas sempre
Carnaval. As moças vão aos brechós improvisarem fantasias
originais e baratas; os artistas fabricam máscaras perfeitas
para bonecos gigantes à imitação de Olinda; as Escolas se
Samba, igual que as nossas do Rio, usam a força de sua
criatividade para não ficarem atrás dos cariocas.
E Recife,
ah, bela Recife do Capiberibe e do Beberibe, em junção
miraculosa, exercita pernas e joelhos para não fazer fiasco
no frevo, que não pode acabar. Isto sem falar em OH linda, a
que merece o nome e a exclamação dos portugueses
embasbacados, que anima as senhoras de idade bem avançada a
subir e descer as ladeiras da alegria, enquanto Alceu
Valença sacode a cabeleira e rege a festança do alto de seu
palácio.
Mais não
vi e mais não preciso ver. Basta para me deixar orgulhosa e
oriçada
E o
melhor de tudo, a notícia da convocação para o bloco das
criancinhas num dos shoppings mais sofisticados do Leblon, o
Rio Design, sábado ao meio-dia.
Preciso
dizer mais?
Maria Lindgren