Maria Lindgren

          Carnaval

" Tanto riso, oh quanta alegria..."

Não posso. Tenho que falar de Carnaval. É meu sangue de brasileira amulatada que ainda fervilha. Herança dos ritmos da África, ainda que escravizada, mesclada, por que não dizer, à língua portuguesa abrasileirada, sem os fados melancólicos.

 Falam mal, dizem que acabou, vivem a nostalgia do tempo do "aquilo, sim era Carnaval", mas eu... eu não posso deixar passar em branco o que sinto nos " três dias de folia e brincadeira" de minha terra, hoje transformados em quatro, cinco ou seis, sei lá eu.

 É como se Deus soprasse a tristeza pra bem longe do Brasil e desse licença pro povo tornar a brincar como criança e como gente grande " sem medo de ser feliz". Acho, pois, muito bom que insistam, não desistam.

 Esta cambada animada esquece das mazelas cotidianas, das lágrimas derramadas nas novelas, nos programas de auditório e nos noticiários da TV, dos graves males do mundo - agora mais macros ainda, com a ameaça da extinção do próprio planeta - enfim, do que significa coisa ruim. E cai na folia, com ou sem Rei Momo, com ou sem dinheiro, com ou sem companhia, com ou sem bebida...

Há os que simplesmente assistem, divertindo-se com o gozo alheio. Há os que brincam sozinhos, mesmo sem esperança de arranjar companhia. Há os que brincam em grupo de todas as idades, cores e sexos. Há os que brincam de fantasia improvisada - às vezes, só uma flor nos cabelos, uma coroa de princesa ou estranhas orelhinhas de um bicho qualquer. Há o que nem se fantasiam. Mas riem, cantam, pulam, brincam.

No Rio, o choque de ordem do prefeito vai tentando organizar o "inorganizável": o xixi, que sai mais abundante e freqüente por causa da cerveja e do pula-pula e não tem mictório que dele dê conta; o lixo, que não tem jeito de diminuir em meio à multidão avassaladora dos blocos de rua, cada vez mais vigorosos numa cidade tão maltratada. Atarefados mini-prefeitos arrastam caixotes repletos de cocos a serem consumidos na praia, escarafuncham cada canto dos quiosques para retirar as caixas de isopor cheias de latas de cerveja. Fazem uma força danada pra no dia seguinte voltar tudo à vaca fria.

 Duvido que reine a mais perfeita ordem britânica em terras de republicanos marotos! Sempre vai haver o jeitinho carioca de driblar, se não as pernas dos jogadores de antanho, as algemas da polícia.

Falar em polícia, li e vi que na Bahia fabricaram de emergência prisões gradeadas ambulantes para prender os malfeitores do meio dos blocos, empilhando-os qual cocos. Logo onde, Santo Deus, em Salvador, sinônimo tradicional matusalênico de farra carnavalesca, mesmo que fora do Carnaval.

Enquanto isso, São Paulo, a cidade que mais trabalha no país, prepara-se para um Carnaval menos delirante, mas sempre Carnaval. As moças vão aos brechós improvisarem fantasias originais e baratas; os artistas fabricam máscaras perfeitas para bonecos gigantes à imitação de Olinda; as Escolas se Samba, igual que as nossas do Rio, usam a força de sua criatividade para não ficarem atrás dos cariocas.

E Recife, ah, bela Recife do Capiberibe e do Beberibe, em junção miraculosa, exercita pernas e joelhos para não fazer fiasco no frevo, que não pode acabar. Isto sem falar em OH linda, a que merece o nome e a exclamação dos portugueses embasbacados, que anima as senhoras de idade bem avançada a subir e descer as ladeiras da alegria, enquanto Alceu Valença sacode a cabeleira e rege a festança do alto de seu palácio.

Mais não vi e mais não preciso ver. Basta para me deixar orgulhosa e oriçada

E o melhor de tudo, a notícia da convocação para o bloco das criancinhas num dos shoppings mais sofisticados do Leblon, o Rio Design, sábado ao meio-dia.

Preciso dizer mais?

Maria Lindgren

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