Maria Lindgren

Carta Aos Descrentes

Caros descrentes

Escrevo, às vésperas de mais uma Copa do Mundo, para não deixar travadas  minhas palavras nativas. 

Até ontem, eu também era, como vocês, descrente de meu país, zonza com as notícias de meu micromundo do Rio de Janeiro. O assassinato cruel e sem sentido do cantor que nem conheço, absorve-me a mente e os músculos chiam, em conseqüência. Tonta, passo o dia entre noticiários minuciosos de lágrimas  e protestos desesperados. Desde as nove da manhã, enquanto deixo rolar a esteira de perder peso, até bem tarde da noite.

Nem a mortandade absurda de São Paulo me atingira tanto. A carnificina longe assusta menos do que sangue de um só homem, em rua na qual você costuma passar, lépida e fagueira,  para visitar amigos. Morro de medo.

Hoje, porém, estou calma. Apesar da ameaça dos famosos e violentos Hooligans ingleses irem à Copa e da mobilização da polícia, da Interpol e da Inteligência alemãs, para garantir a paz na Copa, estou calma. As tragédias podem ter o seu contrário, não é mesmo?

Antes da ginástica matinal, dou com a cara feliz do prefeito, pronto a mostrar as contas de sua gestão sem rasuras, no Rio e posso voltar, descansada, ao que interessa: Copa do Mundo. E lá, no esforço abençoado, com fundo musical de palavras porque imagens não dá pra ver sem despencar, forço-me a virar a cabeça e assistir, calor no corpo e na alma, o desenrolar de: bolhas ameaçadoras de Ronaldo, o Fenômeno, secadas a muque; riso franco e dentuço do Ronaldinho, comemoração dos 36 anos (e inteirão) de Cafu; declaração de amor de Robinho a Roberto Carlos; grande nome da Copa anunciado como Kaká (e eu que pensava no Ronaldinho Gaúcho!); pose do Comandante Parreira, maior do que a de Lula, a esclarecer pontos de extrema importância com os mil jornalistas da Copa; bondade, simpatia, desprendimento dos outrora boches, numa Alemanha realmente linda, de passado inglório apagado; endeusamento dos brrrrrasileirrrros por criança-fã alemã a gritar um alto e sonoro Brrrrrrasil!; croata , brasileiro de alma, que pode perder guerra, mas não perde a novela das oito;  frase “o Brasil quer saber onde está você, do marido Bonner para a mulher Fátima, casal âncora mais-que-perfeito da família brasileira; incentivo infalível do inesquecível  Pelé e, sobretudo empolgação dos brasileiros, pintados  de verde e amarelo de alto a baixo, que estão lá e nós aqui.

Isto, para não citar milhões de outros pormenores noticiosos da TV. E vocês, meus descrentes, ainda falam mal desse país!!!

Reflito, em tempos de não-reflexão: serei a única a remar contra a maré? Mas, NUNCA!!! Assim que a seleção canarinha ou pombinha ou periquitinha apontar no verde exuberante do gramado gelado da Alemanha, entro na Copa. Direto. Sem titubeio

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