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Caros descrentes
Escrevo, às vésperas de mais uma
Copa do Mundo, para não deixar travadas minhas palavras
nativas.
Até ontem, eu também era, como
vocês, descrente de meu país, zonza com as notícias de meu
micromundo do Rio de Janeiro. O assassinato cruel e sem sentido
do cantor que nem conheço, absorve-me a mente e os músculos
chiam, em conseqüência. Tonta, passo o dia entre noticiários
minuciosos de lágrimas e protestos desesperados. Desde as nove
da manhã, enquanto deixo rolar a esteira de perder peso, até bem
tarde da noite.
Nem a mortandade absurda de São
Paulo me atingira tanto. A carnificina longe assusta menos do
que sangue de um só homem, em rua na qual você costuma passar,
lépida e fagueira, para visitar amigos. Morro de medo.
Hoje, porém, estou calma. Apesar da
ameaça dos famosos e violentos Hooligans ingleses irem à Copa e
da mobilização da polícia, da Interpol e da Inteligência alemãs,
para garantir a paz na Copa, estou calma. As tragédias podem ter
o seu contrário, não é mesmo?
Antes da ginástica matinal, dou com
a cara feliz do prefeito, pronto a mostrar as contas de sua
gestão sem rasuras, no Rio e posso voltar, descansada, ao que
interessa: Copa do Mundo. E lá, no esforço abençoado, com fundo
musical de palavras porque imagens não dá pra ver sem despencar,
forço-me a virar a cabeça e assistir, calor no corpo e na alma,
o desenrolar de: bolhas ameaçadoras de Ronaldo, o Fenômeno,
secadas a muque; riso franco e dentuço do Ronaldinho,
comemoração dos 36 anos (e inteirão) de Cafu; declaração de amor
de Robinho a Roberto Carlos; grande nome da Copa anunciado como
Kaká (e eu que pensava no Ronaldinho Gaúcho!); pose do
Comandante Parreira, maior do que a de Lula, a esclarecer pontos
de extrema importância com os mil jornalistas da Copa; bondade,
simpatia, desprendimento dos outrora boches, numa Alemanha
realmente linda, de passado inglório apagado; endeusamento dos
brrrrrasileirrrros por criança-fã alemã a gritar um alto e
sonoro Brrrrrrasil!; croata , brasileiro de alma, que pode
perder guerra, mas não perde a novela das oito; frase “o
Brasil quer saber onde está você,” do marido Bonner
para a mulher Fátima, casal âncora mais-que-perfeito da família
brasileira; incentivo infalível do inesquecível Pelé e,
sobretudo empolgação dos brasileiros, pintados de verde e
amarelo de alto a baixo, que estão lá e nós aqui.
Isto, para não citar milhões de
outros pormenores noticiosos da TV. E vocês, meus descrentes,
ainda falam mal desse país!!!
Reflito, em tempos de não-reflexão:
serei a única a remar contra a maré? Mas, NUNCA!!! Assim que a
seleção canarinha ou pombinha ou periquitinha apontar no verde
exuberante do gramado gelado da Alemanha, entro na Copa. Direto.
Sem titubeio |