Maria Lindgren

 Coceira Da Juventude


A sala de estar da casa da mãe de Daniela parecia mais ampla ainda, duplicada pelo espelho que tomava toda a parede. Não havia como fugir às imagens nele refletidas. Muita vez, visitantes se remiravam ao falar, para saber dos trejeitos apropriados ao ar de inteligência ou à vivacidade.

Desde muito cedo, Daniela se acostumara a olhar no espelhão. E se regozijava: era positivamente bonitinha, digna de elogios.

Nos trajes sumários que o pundonor lhe permitia, examinava-se dos pés à cabeça, de frente e bem de lado, puxava a calcinha a ponto de lhe exibir as bochechas de baixo quase inteiras. E gostava do que via.

Isso, até seus doze, treze anos. Aí se iniciou a preocupação, ainda pouco aguda, com o corpo esbelto das modelos das revistas Vogue, Elle e similares, francesas legítimas,  apreciadas apenas nas bancas de jornais, devido ao alto preço. E com a silhueta das estrelas do cinema americano, busto grande e quadril pequeno, muito pouco brasileiros, por sinal, que começavam sua longa carreira de sucesso entre as garotas, imitadoras descaradas das “desbundadas” atrizes. O oposto do manequim de Daniela, de quadris largos, bunda abundante e seio mirrado. Que chateação!

O rosto não lhe causava grandes complexos: nariz pequeno, não mínimo, olhos amendoados, pele sem espinhas e manchas, lábios de médias carnes. Nem fartas, como as da Angelina Jolie de hoje, nem escassas, como as de Greta Garbo de outrora. E o sorriso de dentes sadios, com uma ou outra minúscula falha na correção da fileira, compensava ligeiros tons amarelados de antes dos branqueadores infalíveis.

            Daniela crescia e adelgaçava-se, graças à força de vontade para fazer exercícios físicos. A ginástica de variados tipos continuou, desde a de pesos leves até à rítmica, em academias de preços concordantes com o seu bolso.

Depois de um tempo, o resultado não era mau para quem casou, esticou a pança com dois filhos e não tinha lá essas economias - classe dessa que economiza na comida para poder comprar uma blusinha da moda, cavoucada nos cestões de liquidação de lojas pouco afamadas.

Aos quarenta anos, filhos encaminhados, o corpo de Daniela seguia bem. Nem gorda, nem magra. Cintura delineada às custas de cinto apertado de toda a vida, seios pequenos e firmes pelo uso contínuo de sutiãs. “Deus me livre de ter corpo de índia!”.

Ainda recebia olhares na rua, sobretudo à distância de dois ou três corpos humanos. E algumas cantadas disfarçadas dos médicos, que não conseguiam esconder-lhe os olhares lascivos e um tanto de demora ao contato com sua pele nos exames do abdome.

No espelhinho de perto, daqueles de lente de aumento, que exacerbam os defeitos do rosto e servem para facilitar a maquiagem ou extrair pelos excedentes das sobrancelhas, podia ver pequenas rugas nos cantos dos olhos e uma certa flacidez na papada quase garantida.

 Aos cinqüenta, praticamente o mesmo: bom corpo, ainda que com mais uns seis quilos no máximo, embora os famigerados pés de galinha se fizessem visíveis agora a olho nu ou a óculos de grau de qualquer pessoa.

 A vida estava mais folgada, marido transformado em taxista autônomo, portanto, com melhor poder aquisitivo, apesar da profissão árdua, perigosa, em cidade grande. Secretária de muitos anos, em firma de razoável conceito, Daniela tinha um salário pequeno e estável, justo para contribuir no sustento da casa.

 E os filhos cursaram escolas técnicas. Nada de universidades de longo prazo para o trabalho. Um deles, então, tirava seus mais de dois mil reais mensais com os atendimentos a computadores domiciliares, moda inevitável. Cada visita, sessenta reais; nada mal para um solteiro renitente. 

Os crediários espalhavam-se pela cidade, em turbilhão de ofertas. Até carro particular o filho mais velho comprara, para pagar em doze ou mais prestações. O apartamento da família ainda era de aluguel, mas logo, logo um empréstimo, de algum lado, por certo lhes garantiria a casa própria. Ademais, os filhos casariam...

Um outro boom estourava na cidade: o da cirurgia estético-plástica. O que era restrito às senhoras da alta sociedade, dessas cujo caixão chega antes das rugas da velhice de mais de oitenta, passou a se tornar comum entre as mulheres da faixa dos cinquenta, sessenta anos...

 Isso em relação ao  rosto, pois as plásticas de barriga, os botox, os fios russos e as lipoaspirações haviam reformado as jovens bem jovens, por qualquer vestígio de ruga ou montículo de gordura. Pior sob vestidos de malha ou nas calças de cós baixo e blusa arrochada bem curta.

- Como é que pode você não ter barriga nenhuma, depois de três filhos? - Daniela perguntou à filha mais nova da vizinha.

- Fiz lipo. Ninguém mais fica barriguda. É só dieta na gravidez e uma lipo na banha, na pósgravidez. Sai tudinho. Paguei em dez vezes. Beleza. Acho até que vou me animar a aumentar o seio também. Tá se usando seião e o meu anda meio chupado.

A idéia da plástica se fez onipresente em Daniela. Ao se ver refletida numa vitrine,  pensava no olho cada vez mais caído dos lados, na pintura sempre meio borrada.,  nas olheiras que se encovavam escuras, quase pretas, incólumes a boas noites de sono ou a cosméticos de disfarce, no fácies de desânimo, quase depressão, mesmo sem os problemas de outrora. Depois, a raiva mal escondida, jogada num olhar que fosse, em cima dos vendedores de roupa jovem, ao tentarem lhe impingir trajes inapropriados para uma SENHORA.

A televisão adorava mostrar os riscos e as vantagens da cirurgia plástica. Deixava-a estonteada. Em determinado programa, testemunhavam-se arrancos de pele com as mãos, se duvidar, de orelhas e tudo o mais, sangreira para todo lado. Em outro - e este era de exibição diária - a juventude imperecível das atrizes e atores de novela, que capricharam na puxação do rosto e pareciam vinte anos mais novos. Se a esbeltez ajudasse, maravilha total!

Daniela animava-se, corria a ver os preços das plásticas faciais, chegava a marcar consulta e... desistia. Caro demais. Além disso, medo de encarar amigos não plastificados e contra-corrente. Levou bem uns cinco anos na dúvida.

Mas foi. A uma casa de saúde de preços módicos, atendimento a todo tipo de pessoa. Estava salva, mesmo que não tivesse aparecido o pagamento em suaves prestações ou a liquidação e os saldos da estação.

Nesse dia, nem tentou o disfarce da maquiagem: deixou rolarem rosto afora as rugas, as olheiras, a papada...Enfiou um par de óculos gigantescos do camelô, vestiu um traje típico de  Zona Sul do Rio de Janeiro, isto é, bermuda, camisa de malha e tênis, e adentrou o consultório de sala de espera mais cheio que já tinha visto. Entupido mesmo.

“ Gente. A mania pegou mesmo. Ninguém está contente com a natureza: ou a agride ou tenta consertar o que ela inevitavelmente traz de desgaste.”

 A casa de saúde estava lotada. Era nariz remendado, seios e ranhuras preenchidos, orelhas de abano grudadas à cabeça como deveriam ser, abdomens tornados tábua...

 A face era o local mais procurado pelas velhotas, sem dúvida. Passavam por Daniela rostos plissados a caminho do rolo de pastel da pele.

O cirurgião recebeu-a com grande animação. Tirou da gaveta dois retratos de uma senhora no ANTES e no DEPOIS. “Que coisa a transformação que uma esticada pode dar”.

- Vinte anos mais nova, não é mesmo? Então, vamos marcar a data? Não dói nada.

Na saída, com data marcada para dois meses depois, por falta de hora, Daniela dá de cara com um rosto levemente conhecido. Só que todo escarafunchado, com bolas e bolões de inchação e depressões mais fundas que as rugas comuns. O pescoço sacudia todo ao caminhar pela sala. Pelanca pura.

Era uma ex-colega de trabalho, um ou dois anos mais velha do que ela, fissurada numa plástica desde a primeira ruga de expressão.

Sem se dirigir à senhora para não embaraçá-la Daniela correu para a rua até resfolegar de cansaço. “Plástica, eu ein?”

Maria Lindgren

Agosto/2008

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