O dia das eleições
passou. Vai haver um segundo turno para presidente. Nem todos
os votantes estão satisfeitos, há falhas e indecisões no ar.
Mas eu, fico contente pelo mero fato de poder votar, não
importa que me digam que não tenho mais obrigação porque
passei da idade da obrigatoriedade.
Lembro-me, com aflição, dos tempos cinzentos da ditadura, em
que tínhamos que aceitar qualquer imposição, sem reclamar,
embora os palavrões brotassem nos cantos de nossas bocas
esquerdistas. Baixávamos as cabeças, sob desculpa de não ter
como combater os inimigos ditatoriais porque tínhamos
dependentes familiares para cuidar. Enxugávamos uma ou outra
lágrima por amigo perseguido, até mesmo, torturado, e
seguíamos em frente em nossa vidinha de burgueses
esquerdistas, mais no nome do que na ação. Muito mais.
Agora, em 2010, vejo as ruas de meu bairro cheias de
passantes, carros e pessoas, em direção aos locais de votação,
homens, mulheres e algumas crianças, mesmo que embaixo de
chuva fina e algum frio desta primavera friorenta do Rio de
Janeiro. Bem trajados todos, parecíamos estar em país europeu,
ou mesmo, latinoamericano, em que o inverno aparece em seu
devido tempo. Ou parecia, antes de tomarmos conhecimento dos
ataques à natureza, bagunceiros da atmosfera que somos os
humanos.
- Das outras vezes, um calorão danado. Vinha gente até de
short, lembra?, comentava uma senhora na fila.
Fora escassos cidadãos que preferiram justificar a ausência ou
pagar multa, a grande maioria do povo de minha terra foi às
urnas. E olhe que eram eletrônicas, meio complicadas para
cidadãos não habituados ao teclado que ainda existem na era do
computador, pasmem! E tinham que acionar as teclas um montão
de vezes. Daí que a xingada cola passou a ser bem aceita.
Em minha seção eleitoral, muitas pessoas votaram
rápido. Só me lembro de uma dama à minha frente, de quase
sessenta anos bem disfarçados, que interrompia a votação para
abrir o jornal com nome, número e partido dos candidatos, ou
saía da fila para falar com uma amiga, descoberta ao olhar
para trás:
-
Oi, amor, que bom te encontrar! Em quem você vai votar,
querida? Me dê uma ajuda. Estou totalmente por fora. Não sei
nome de ninguém. Fala aqui no meu ouvido.
Trajada com capa comprida dessas que se compra na Europa,
botas até o joelho, de cabelos ruivos longos e bem
escovados, parecia rica de dinheiro, não de modos. Duvido que
uma lady de verdade se comporte assim.
Posso ser a única, mas não me incomodo com alguns candidatos
ridículos nos cansativos programas eleitorais, ou com o que
ainda resta a fazer na Lei das Mãos Limpas. Louvo,
simplesmente o ato de
votar, o que me parece essencial num governo
democrático. Pena, é certo, que ainda tivessem votação os mais
inacreditáveis, por conta da ignorância. Valeu a vontade do
povo, com todos os defeitos que possa ter um povo cheio de
deficiências educacionais.
Em casa, acompanhei passo a passo a votação, os comentários,
selecionando os mais inteligentes, na minha opinião, até altas
horas da noite. Sem nenhum cansaço.
Houve problemas de falta de urnas em região distante da minha,
alguns atropelos na hora de votar, filas grandes em
determinadas zonas eleitorais, poucos incidentes e acidentes,
dada a magnitude da votação em país-gigante.
No segundo turno, quero poder dizer a quem for escolhido para
comandar o país, não importa quem seja: O Brasil merece o
melhor de você. Mãos à obra!
Maria
Lindgren