Maria Lindgren

Coisa Boa De Se Ver
( em contraponto à amiga Ridamar Batista)

       O dia das eleições passou. Vai haver um segundo turno para presidente. Nem todos os votantes estão satisfeitos, há falhas e indecisões no ar. Mas eu, fico contente pelo mero fato de poder votar, não importa que me digam que não tenho mais obrigação porque passei da idade da obrigatoriedade.

Lembro-me, com aflição, dos tempos cinzentos da ditadura, em que tínhamos que aceitar qualquer imposição, sem reclamar, embora os palavrões brotassem nos cantos de nossas bocas esquerdistas. Baixávamos as cabeças, sob desculpa de não ter como combater os inimigos ditatoriais porque tínhamos dependentes familiares para cuidar. Enxugávamos uma ou outra lágrima por amigo perseguido, até mesmo, torturado, e seguíamos em frente em nossa vidinha de burgueses esquerdistas, mais no nome do que na ação. Muito mais.

Agora, em 2010, vejo as ruas de meu bairro cheias de passantes, carros e pessoas, em direção aos locais de votação, homens, mulheres e algumas crianças, mesmo que embaixo de chuva fina e algum frio desta primavera friorenta do Rio de Janeiro. Bem trajados todos, parecíamos estar em país europeu, ou mesmo, latinoamericano, em que o inverno aparece em seu devido tempo. Ou parecia, antes de tomarmos conhecimento dos ataques à natureza, bagunceiros da atmosfera que somos os humanos.

- Das outras vezes, um calorão danado. Vinha gente até de short, lembra?, comentava uma senhora na fila.

Fora escassos cidadãos que preferiram justificar a ausência ou pagar multa, a grande maioria do povo de minha terra foi às urnas. E olhe que eram eletrônicas, meio complicadas para cidadãos não habituados ao teclado que ainda existem na era do computador, pasmem! E tinham que acionar as teclas um montão de vezes. Daí que a xingada cola passou a ser bem aceita.

        Em minha seção eleitoral, muitas pessoas votaram rápido. Só me lembro de uma dama à minha frente, de quase sessenta anos bem disfarçados, que interrompia a votação para abrir o jornal com nome, número e partido dos candidatos, ou saía da fila para falar com uma amiga, descoberta ao olhar para trás:

-         Oi, amor, que bom te encontrar! Em quem você vai votar, querida? Me dê uma ajuda. Estou totalmente por fora. Não sei nome de ninguém. Fala aqui no meu ouvido.

Trajada com capa comprida dessas que se compra na Europa, botas até o joelho, de   cabelos ruivos longos e bem escovados, parecia rica de dinheiro, não de modos. Duvido que uma lady de verdade se comporte assim.

Posso ser a única, mas não me incomodo com alguns candidatos ridículos nos cansativos programas eleitorais, ou com o que ainda resta a fazer na Lei das Mãos Limpas.  Louvo, simplesmente o ato de votar, o que me parece essencial num governo democrático. Pena, é certo, que ainda tivessem votação os mais inacreditáveis,  por conta da ignorância. Valeu a vontade do povo, com todos os defeitos que possa ter um povo cheio de deficiências educacionais.

Em casa, acompanhei passo a passo a votação, os comentários, selecionando os mais inteligentes, na minha opinião, até altas horas da noite. Sem nenhum cansaço.

Houve problemas de falta de urnas em região distante da minha, alguns atropelos na hora de votar, filas grandes em determinadas zonas eleitorais, poucos incidentes e acidentes, dada a magnitude da votação em país-gigante.

No segundo turno, quero poder dizer a quem for escolhido para comandar o país, não importa quem seja: O Brasil merece o melhor de você. Mãos à obra!

Maria Lindgren 


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