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Comparar um conto e um filme é sempre uma tarefa
difícil: cada um tem sua linguagem própria. No caso do
conto O Alienista (in Papéis Avulsos), de
Machado de Assis, de 1882, que reli semana passada, e do
filme Meu amigo Harvey, de 1950, de Henry Koster, que vi
em DVD ante-ontem, parece-me que a única aproximação
possível vem da escolha do tema da loucura. Importa
dizer que, embora ambos pretendam uma crítica social, o
filme faz parte de uma leva de filmes naive,
muito em voga nos anos 40-50, na Hollywood das
idealizações, época do pós-guerra, de glorificação do
American Way of Life, com suas falsidades ideológicas. O
conto, ao contrário, não tem nada de ingênuo: é de um
autor sagaz e irônico, reconhecido como um dos melhores
escritores brasileiros de todos os tempos.
Machado de Assis vai muito além da discussão da loucura
e dos meios para identificá-la ou remediá-la. Ele usa o
tema como pretexto para uma crítica ao cientificismo, à
valorização exagerada da Ciência, própria do século XIX,
exemplificada na frase claramente irônica “a ciência
tem o poder de curar todas as mágoas”.
O filme de Koster, além de não ser um texto original
porque baseado em peça teatral homônima cujo autoria não
gravei, restringe-se às perguntas que nos fascinam até
hoje: - Afinal, quem é realmente louco? Que fazer para
tratar o louco diagnosticado? Internar ou não, eis a
questão...
Sem dúvida, tanto o conto quanto o filme não têm
resposta pronta. Cada qual a seu modo, faz a crítica das
instituições psiquátricas, a Casa Verde, de Machado e a
casa branca ou sem cor do filme em preto e branco. A
crítica asilar sempre nos traz à baila a discussão
encontrada em Vigiar e Punir, de 1975, do sociólogo
Michel Foucault - história de violência nas prisões –
estendida aos hospícios. No caso de conto e filme,
nenhum tem a profundidade do sociólogo e nem se propõe a
tanto. Vale lembrar que Machado de Assis é do século
XIX, portanto, vem antes de Foucault.
Outra aproximação possível entre as obras supracitadas
se dá nos personagens. A personagem principal de
Machado é Simão Bacamarte, um “louco” de “loucura
mansa como Dom Quixote”, da mesma forma que
Elwood, o personagem-chave do filme Meu amigo Harvey.
Em torno de ambos, et pour cause, circulam os
demais personagens, todos indecisos, variando de
posições quanto à questão da loucura, ora querendo a
segregação do “louco”, ora desistindo da idéia por não
saberem mais quem é verdadeiramente louco.
Com a diferença de que, em Machado, a indecisão
contamina toda a vila de Itaguaí, e no filme, somente
atinge um pequeno grupo. Em Machado, um único psiquiatra
mobiliza toda uma sociedade. E quem afinal decide, para
bem ou para mal, é o protagonista, o Dr. Simão
Bacamarte, ao asilar-se sozinho na Casa Verde. No filme,
obviamente cômico, o papel do psiquiatra não deixa de
ser questionado, mas sem sutilezas.
No conto O Alienista, destaca-se, desde o início, como
personagem com voz e vez, D.Evarista, mulher do Dr.
Bacamarte, escolhida pelo marido não pela beleza, mas
por aparentar ser “apta a lhe dar filhos robustos”
– escolha malograda, pois a mulher “mentiu às
esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos
robustos, nem mofinos”. Há ainda o Boticário, o
Vereador, o Padre, entre outros - figuras importantes
da sociedade da vila de Itaguaí, focos de crítica do
autor. Todos, sem exceção, passam de sadios a loucos e
de loucos a sadios, conforme as teorias de Simão
Bacamarte, o poderoso “cientista”, foco central da
crítica machadiana.
No filme, pode-se dizer que são dois os protagonistas:
Elwood, impecavelmente interpretado pelo ator veterano
James Stewart, e Harvey, o coelho gigante, seu
companheiro “invisível”, fonte de muitos problemas
familiares e sociais para Elwood e família.
Vale mencionar a Tia de Elwood, personagem de peso,
interpretada por Josephine Hull, atriz cômica consagrada
nos meios hollywoodianos, vencedora do Oscar de 1951,
como melhor atriz coadjuvante, junto com o excelente
James Stewart , como melhor ator.
Interessante notar que os questionamentos implícitos no
conto e no filme perduram e perturbam os psiquiatras
atuais, em pleno século XXI, provocando uma contínua
revisão de conceitos, o que também demonstra, ainda hoje
a precariedade da ciência médico-psiquiátrica. |