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Digo e repito que não gosto nada dessa mania de denominar Dia
disso, dia daquilo. Mas hoje não posso deixar de lado o Dia da
Consciência Negra.
Mal me levanto da cama e vou aos jornais, como de hábito.
Procuro no jornal mais importantes de nossa cidade referências
ao Dia da Consciência Negra que mereceu um feriado, início de
feriadão.
Com a velha melodia que minha mãe cantava “Trabaia, trabaia
nego...” na cabeça e no coração, corro várias páginas
para, finalmente, encontrar uma advogada, Roberta Fragoso
Menezes Kaufmann ( O Globo, 20/11/2009, pg Opinião 7), que
protesta contra o que chama de tribunal racial da UNB, definidor
de critérios para saber quem é branco, quem é negro no Brasil,
provavelmente devido ao problema das cotas para negros e índios
nas universidades.
Mais adiante, vejo uma mulata vestida de baiana e Ancelmo Góis,
eminente colunista, a falar da moça, que fará o papel de Carmem
Miranda em breve, O colunista repete palavras do poeta Carlos
Dimuro. Cito algumas, embora não tenha lido o poema inteiro: “Mulata
delícia, molejo malícia, Pele macia, chocolate, veludo...
Me espanto com uma comemoração tão fajuta de um dia tão
importante. E, ao que se sabe, Carmen Miranda era branca. Não
vejo mais nada.
Vou ao Jornal do Brasil fazer a mesma pesquisa e acho não as
palavras que queria encontrar, mas o artigo de um empresário e
educador, Antonio Marmo Trevisan, (JB de 20/11/2009 pag.9), que
cita dados do início desta década: 47% de negros analfabetos
contra 25% de brancos, com 60 anos ou mais. Além disso, quase ao
terminar o artigo, aconselha que se faça um substituição do Dia
da Consciência Negra para Dia da Consciência Brasileira, a fim
de se melhorar as condições educacionais do povo brasileiro, dia
em que “ todos nós, louros, ruivos, de olheos azuis ou
puxados, de cabelos lisos ou encaracolados, estaremos unidos em
torno de um só projeto: a construção de um país melhor” .
Desconsolada, penso nos escravos brasileiros, os últimos a serem
libertados da escravidão cruel, e me emociono. Penso no dia em
que fui visitar as fazendas de café do Vale do Café e vi
senzalas algumas vazias, outras transformadas em salões de chá
ou outros. Tudo muito lindo, salvo os gemidos que devem ser
ouvidos na calada da noite.
Sobretudo, penso na minha amiga negra, que ontem me telefonou,
contando da casa onde nasceu e mora com seus setenta anos, em
Benfica, mantida permanentemente de portas e janelas trancadas,
por causa das funestas balas de traficantes e policiais.
Reflito um pouco mais. Quantas amigas negras tenho eu que sou de
classe média, bem morena, de cabelos crespos que denunciam minha
ascendência negra? Uma ou duas, no máximo. E quantos negros
moram no meu prédio? Nenhum. Quantos doutores negros você
conhece? Eu conheço um e olhe lá. Nem garçons de restaurante
caro da Zona Sul é negro. No máximo, mulato disfarçado.
O que se faz neste dia de mais um feriadão prolongado? Uns gatos
pingados, politicamente engajados na luta por direitos iguais
para os negros, parece que se reúnem neste dia mais do que nos
outros. Certamente haverá algum tipo de homenagem, não
anunciada, diante da cabeça de nosso herói negro Zumbi dos
Palmares, na Avenida Presidente Vargas. É claro que, com o calor
de mais de quarenta graus, vai pouca gente. Talvez minha amiga
que foi Secretária nos tempos de Darcy Ribeiro e Brizola; talvez
os nossos negros mais proeminentes, professores e atores. Não
sei.
E os demais moradores desta cidade de Carnaval invadido pelos
brancos? Ora, vão à praia, tostarem-se para ficarem parecidos
com as sensuais mulatas, já em preparos para nossa festa máxima,
depois do Natal e do Reveillon.
E eu, fechada em meu escritório, com ventilador a todo vapor,
penso.
Maria Lindgren |