Maria Lindgren

 Considerações |De Uma Leiga


       
Muito se tem dito sobre o poder dos meios de comunicação, sobretudo, da televisão, uma vez que computador ainda é artigo de luxo para a população mais pobre do nosso país. Pouco se tem comentado sobre o quanto estamos indiferentes ao que se passa com nossos vizinhos todos os dias. Morrem inocentes nas favelas dominadas pelos bandidos, comenta-se de vez em quando sobre isso, e nada fazemos.

E eis que uma jovem, até pouco tempo desconhecida, leva milhares de pessoas a seu velório e enterro, depois de vários dias de sofrimento nas telas e nos corações.

 O que se passa com nossa população que só consegue sofrer e manifestar seu sofrimento em massa, se a televisão explorar ad infinitum a tragédia? Onde ficou a nossa garra contra o mal social expressada na ditadura? Será que a democracia amorteceu a classe intelectual e média? Afora uma ou outra passeata na orla marítima, mais assistida do que vivida, o que se faz em protesto contra a violência diária a cada dia mais injusta?

A moça em questão não era tão pobre a ponto de ser chamada de classe popular, nem tão rica para ser de classe alta ou mesmo média alta. Seu sofrimento, nas mãos de um doente mental tão jovem quanto ela, terá sido muito diferente daquele imposto às crianças, jovens e adultos do cotidiano das favelas brasileiras, com as balas perdidas a lhes atravessar cabeça, tronco e membros?

 No entanto, quem sai de casa para prestigiar o funeral dessa pobre gente? Meia dúzia de parentes aparecem rapidamente na televisão chorando ou reclamando de sua condição miserável de pais de filhos perdidos. Um ou outro cidadão de classe média, em geral, peritos em sociologia, psicologia, ciência política etc refletem sobre o estado de violência em jornais impressos ou em debates televisivos, fora das horas possíveis da gente trabalhadora assistir. Muitas vezes, com linguagem sofisticada que não esclarece a maioria do povo brasileiro. O governador, que prometeu acabar com a bandidagem no Rio de Janeiro tão logo eleito, arma – mal armada, diga-se de passagem – uma polícia que ganha pouco e morre muito também. Inventam-se caveirões e milícias funestas ou apela-se sazonalmente para o exército nacional.

E as crianças, jovens e adultos continuam a ser feridos ou mortos quando menos esperam, à imitação infeliz do que acontece com os civis das guerras do Bush pelo mundo afora. Mas a televisão apenas menciona os fatos mais gritantes , sem se deter por dias e dias no sofrimento da população, como o fez à saturação com o caso do psicopata assassino.

Penso em mim mesma, pessoa de classe média que sofre pouco com o sofrimento freqüente dos favelados decentes. Passo meus dias pensando em meu próprio umbigo, ou nos umbigos familiares e amigos. No máximo, escrevo sobre o assunto e rezo pela paz na minha igreja. Acostumei-me à violência que invade nossos lares sem incentivo à nossa ação contra. O que é do dia a dia passa a ser banal.

 Faço pregações pelos táxis, em tentativa de mostrar aos motoristas a importância do voto, porque tenho esperança que a violência carioca melhore. Mas, nos encontros com amigas, tento rir e esquecer. Em casa à noite, procuro filmes que não me toquem muito para não perder o sono, depois de ver impassível as barbaridades, em um ou outro jornal falado, e de ter lido o mesmo na mídia impressa. Discuto com minha filha desiludida com o Rio, e defendo a cidade, para não sofrer com a possível mudança dela para outra cidade.

Enquanto isso, um tarado qualquer, que poderia estar sendo filmado nos Estados Unidos, na Noruega ou na Nova Zelândia, consegue a publicidade gratuita dos heróis, às custas do sofrimento das duas mocinhas, que culminou com morte de uma e ferimento sério de outra. E a brava gente da maior cidade brasileira, São Paulo, se comove. Eu me pergunto, será o problema da indiferença um caso regional do Rio de Janeiro?

Enquanto isso também, a tevê nos mostra o absurdo das duas polícias paulistas, a civil e a militar, digladiando-se em cenas inusitadas entre polícias. Salvou-se a imagem do Rio de Janeiro, dessa vez, preocupação dos que nos vão governar daqui para frente.

 Mas, será que conseguiremos salvar nossas crianças, jovens e adultos das classes condenadas, até agora, da sociedade desigual em que vivemos mergulhados?

 

Maria Lindgren

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