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Muito se tem dito sobre o poder dos
meios de comunicação, sobretudo, da televisão, uma vez que
computador ainda é artigo de luxo para a população mais pobre do
nosso país. Pouco se tem comentado sobre o quanto estamos
indiferentes ao que se passa com nossos vizinhos todos os dias.
Morrem inocentes nas favelas dominadas pelos bandidos,
comenta-se de vez em quando sobre isso, e nada fazemos.
E eis que uma jovem, até pouco tempo
desconhecida, leva milhares de pessoas a seu velório e enterro,
depois de vários dias de sofrimento nas telas e nos corações.
O que se passa com nossa população que só
consegue sofrer e manifestar seu sofrimento em massa, se a
televisão explorar ad infinitum a tragédia? Onde ficou a
nossa garra contra o mal social expressada na ditadura? Será que
a democracia amorteceu a classe intelectual e média? Afora uma
ou outra passeata na orla marítima, mais assistida do que
vivida, o que se faz em protesto contra a violência diária a
cada dia mais injusta?
A moça em questão não era tão pobre a ponto de
ser chamada de classe popular, nem tão rica para ser de classe
alta ou mesmo média alta. Seu sofrimento, nas mãos de um doente
mental tão jovem quanto ela, terá sido muito diferente daquele
imposto às crianças, jovens e adultos do cotidiano das favelas
brasileiras, com as balas perdidas a lhes atravessar cabeça,
tronco e membros?
No entanto, quem
sai de casa para prestigiar o funeral dessa pobre gente? Meia
dúzia de parentes aparecem rapidamente na televisão chorando ou
reclamando de sua condição miserável de pais de filhos perdidos.
Um ou outro cidadão de classe média, em geral, peritos em
sociologia, psicologia, ciência política etc refletem sobre o
estado de violência em jornais impressos ou em debates
televisivos, fora das horas possíveis da gente trabalhadora
assistir. Muitas vezes, com linguagem sofisticada que não
esclarece a maioria do povo brasileiro. O governador, que
prometeu acabar com a bandidagem no Rio de Janeiro tão logo
eleito, arma – mal armada, diga-se de passagem – uma polícia que
ganha pouco e morre muito também. Inventam-se caveirões e
milícias funestas ou apela-se sazonalmente para o exército
nacional.
E as crianças, jovens e adultos continuam a ser
feridos ou mortos quando menos esperam, à imitação infeliz do
que acontece com os civis das guerras do Bush pelo mundo afora.
Mas a televisão apenas menciona os fatos mais gritantes , sem se
deter por dias e dias no sofrimento da população, como o fez à
saturação com o caso do psicopata assassino.
Penso em mim mesma, pessoa de classe média que
sofre pouco com o sofrimento freqüente dos favelados decentes.
Passo meus dias pensando em meu próprio umbigo, ou nos umbigos
familiares e amigos. No máximo, escrevo sobre o assunto e rezo
pela paz na minha igreja. Acostumei-me à violência que invade
nossos lares sem incentivo à nossa ação contra. O que é do dia a
dia passa a ser banal.
Faço pregações
pelos táxis, em tentativa de mostrar aos motoristas a
importância do voto, porque tenho esperança que a violência
carioca melhore. Mas, nos encontros com amigas, tento rir e
esquecer. Em casa à noite, procuro filmes que não me toquem
muito para não perder o sono, depois de ver impassível as
barbaridades, em um ou outro jornal falado, e de ter lido o
mesmo na mídia impressa. Discuto com minha filha desiludida com
o Rio, e defendo a cidade, para não sofrer com a possível
mudança dela para outra cidade.
Enquanto isso, um tarado qualquer, que poderia
estar sendo filmado nos Estados Unidos, na Noruega ou na Nova
Zelândia, consegue a publicidade gratuita dos heróis, às custas
do sofrimento das duas mocinhas, que culminou com morte de uma e
ferimento sério de outra. E a brava gente da maior cidade
brasileira, São Paulo, se comove. Eu me pergunto, será o
problema da indiferença um caso regional do Rio de Janeiro?
Enquanto isso também, a tevê nos mostra o absurdo
das duas polícias paulistas, a civil e a militar, digladiando-se
em cenas inusitadas entre polícias. Salvou-se a imagem do Rio de
Janeiro, dessa vez, preocupação dos que nos vão governar daqui
para frente.
Mas, será que conseguiremos salvar nossas
crianças, jovens e adultos das classes condenadas, até agora, da
sociedade desigual em que vivemos mergulhados?
Maria Lindgren |