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A democracia em nosso país
exige de seus cidadãos um empenho participativo muito grande,
com eleições obrigatórias. Diferente dos Estados Unidos e outros
países do Primeiro Mundo, temos que votar ou justificar muito
bem nossa ausência. Um mal ou um bem? Não sei, porque falta
educação para a cidadania.
Em um Rio de Janeiro de
problemas cruciais, a população parecia indiferente às eleições
municipais. Até à véspera do 5 de outubro, ouviam-se esparsos
comentários sobre candidatos, o que não é comum em época de
eleição. A não ser na televisão, logo desviada ou desligada, em
desprezo pela qualidade inferior, com freqüência, ridícula, da
propaganda eleitoral.
O domingo se apresentava,
pois, pouco animador. A televisão previa mau tempo para o fim de
semana. Com as imagens habituais de uma primavera singular de
rajadas de vento. Além do mais, nos enchia de temor pela
presença do exército nacional para garantir as eleições nas
favelas mais perigosas, o que jamais se havia presenciado em
nossa cidade, se a memória não me falha.
Que surpresa! Eu que pensava que,
em tempo quente de quase verão pela manhã e à tarde do domingo
do voto, nenhum habitante da orla marítima se importaria com o
momento cívico, a maioria rumando para a praia, fechada ao
trânsito nos feriados, para refrescar-se, pegar uma cor, bater
papo ou mesmo suar com as caminhadas.
Engano, ledo engano. Meu bairro
pouco afeito a manifestações políticas, muito crítico com os
políticos em geral, se fez patriótico, defendeu a democracia com
muita garra: ruas cheias de pedestres com título de leitor à
mão, até mesmo idosos isentos da obrigação, em vaivém
incessante. Bandeiras tremulavam os nomes dos candidatos a
prefeito ou vereador nas esquinas das ruas principais, não muito
longe das zonas eleitorais - mensagem de boa sorte para o regime
democrático. Apesar dos portadores de bandeiras serem militantes
pagos, já se sabe.
Sem dúvida, a palavra da vez era
esperança. Esperança de mudar a imagem de uma cidade
acossada por turbilhão de achaques sérios, como a má condição
geral das ruas, os mendigos abundantes e, sobretudo, a violência
e a guerra do tráfico com suas vítimas diárias.
Na sala de votação,
surpreendiam-nos a ordem e o progresso,
sensíveis ao momento único da manifestação da cidadania.. Jovens
mesários esqueciam a praia e o futebol e recebiam com solicitude
os votantes. Trajes simples, confortáveis mas decentes
confundiam as classes sociais e recordavam-nos a satisfação do
dever cumprido de boa-vontade.
Em meio aos eleitores de
distintas idades, um se destacava: um menino de uns três anos,
nada mais, de mãos dadas com a mãe jovem, muito satisfeita de o
ter levado como testemunha de que ela cumpria sua obrigação sem
queixumes. E o menino sorria tão lindo! O mais lindo menino,
para mim, velha professora, uma criança educada para ser um
cidadão verdadeiro da pátria, objetivo do magistério.
O quase silêncio, em cidade de
gargalhadas, palavrões e confusão de vozes, sempre muito altas
em locais cerrados, transpirava respeito. Fazia calor, mas todos
o suportavam sem os protestos habituais. Duas senhoras à minha
frente conversavam britanicamente. Homens e mulheres ensinavam
em qual fila entrar, com delicadeza pouco carioca.
A votação na urna
eletrônica mostrou rapidez e eficiência, o que garantiu o
resultado da eleição dos prefeitos e vereadores na mesma noite.
Em minha casa, dediquei a
oração dominical à melhoria de nossa cidade tão bela quanto
perigosa. Com todos os defeitos, viva a democracia, o melhor dos
regimes, no dizer famoso de Rui Barbosa. Votemos, pois, no
segundo turno!
Maria Lindgren
Out/2008 |