Maria Lindgren

 Democracia Em Festa


          

A democracia em nosso país exige de seus cidadãos um empenho participativo muito grande, com eleições obrigatórias. Diferente dos Estados Unidos e outros países do Primeiro Mundo, temos que votar ou justificar muito bem nossa ausência. Um mal ou um bem? Não sei, porque falta educação para a cidadania.

Em um Rio de Janeiro de problemas cruciais, a população parecia indiferente às eleições municipais. Até à véspera do 5 de outubro, ouviam-se esparsos comentários sobre candidatos, o que não é comum em época de eleição. A não ser na televisão, logo desviada ou desligada, em desprezo pela qualidade inferior, com freqüência, ridícula, da propaganda eleitoral.

O domingo se apresentava, pois, pouco animador. A televisão previa mau tempo para o fim de semana. Com as imagens habituais de uma primavera singular de rajadas de vento. Além do mais, nos enchia de temor pela presença do exército nacional para garantir as eleições nas favelas mais perigosas, o que jamais se havia presenciado em nossa cidade, se a memória não me falha.

Que surpresa! Eu que pensava que, em tempo quente de quase verão pela manhã e à tarde do domingo do voto, nenhum habitante da orla marítima se importaria com o momento cívico, a maioria rumando para a praia, fechada ao trânsito nos feriados, para refrescar-se, pegar uma cor, bater papo  ou mesmo suar com as caminhadas.

 Engano, ledo engano. Meu bairro pouco afeito a manifestações políticas, muito crítico com os políticos em geral, se fez patriótico, defendeu a democracia com muita garra: ruas cheias de pedestres com título de leitor à mão, até mesmo idosos isentos da obrigação, em vaivém incessante. Bandeiras tremulavam os nomes dos candidatos a prefeito ou vereador nas esquinas das ruas principais, não muito longe das zonas eleitorais - mensagem de boa sorte para o regime democrático. Apesar dos portadores de bandeiras serem militantes pagos, já se sabe.

Sem dúvida, a palavra da vez era esperança. Esperança  de mudar a imagem de uma cidade acossada por turbilhão de achaques sérios, como a má condição geral das ruas, os mendigos abundantes e, sobretudo, a violência e a guerra do tráfico com suas vítimas diárias.

Na sala de votação, surpreendiam-nos a ordem e o progresso, sensíveis ao momento único da manifestação da cidadania.. Jovens mesários esqueciam a praia e o futebol e recebiam com solicitude os votantes. Trajes simples, confortáveis mas decentes confundiam as classes sociais e recordavam-nos a satisfação do dever cumprido de boa-vontade.

Em meio aos eleitores de distintas idades, um se destacava: um menino de uns três anos, nada mais, de mãos dadas com a mãe jovem, muito satisfeita de o ter levado como testemunha de que ela cumpria sua obrigação sem queixumes. E o menino sorria tão lindo! O mais lindo menino, para mim, velha professora, uma criança educada para ser um cidadão verdadeiro da pátria, objetivo do magistério.

O quase silêncio, em cidade de gargalhadas, palavrões e confusão de vozes, sempre muito altas em locais cerrados, transpirava respeito. Fazia calor, mas todos o suportavam sem os protestos habituais. Duas senhoras à minha frente conversavam britanicamente. Homens e mulheres  ensinavam em qual fila entrar, com delicadeza pouco carioca.

A votação na urna eletrônica mostrou rapidez e eficiência, o que garantiu o resultado da eleição dos prefeitos e vereadores na mesma noite.

Em minha casa, dediquei a oração dominical à melhoria de nossa cidade tão bela quanto perigosa. Com todos os defeitos, viva a democracia, o melhor dos regimes, no dizer famoso de Rui Barbosa. Votemos, pois, no segundo turno!

Maria Lindgren

Out/2008

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