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Parece que uma
força inusitada, fora de meu normal, me impulsiona a escrever
sobre o Dia da Criança, logo eu que meto o pau nos Dias disso e
daquilo.
Andam dizendo por aí que este Dia são todos os dias. Mas parece
que muita gente não concorda. Pelo menos, os cariocas. Ontem
mesmo, vi um menino de seus dez, onze anos deitado com as pernas
encolhidas, embaixo de marquise de um banco de Ipanema, para se
proteger da chuva impiedosa, que cai na cidade do Rio de
Janeiro. Coberto quase a ponto de não se lhe adivinhar o rosto,
imóvel, parecia em sono profundo, não perturbado pelo barulhão
da rua Visconde de Pirajá repleta de trânsito.
E eu, o que fiz? Olhei para o garoto e segui em minhas
comprinhas, ritual de depois do dentista, que me ameniza o
padecer dentário. Leve, até entrei numa sorveteria e me deliciei
com o sorvete de pistache, qual minha mãe.
Assim como eu, que depois morro de culpa e continuo a não fazer
nada a não ser falar, todas as pessoas, que não eram poucas.
Passavam, pior do que eu, sem sequer olhar para o quadro
sombrio, e seguiam em passo de vai ou volta do trabalho, em
passo de artrose nos pés e joelhos, em passo de turma que vem da
praia, em passo de tomar suco ou comer assaí, em passo de
entrar no café expresso cheio de turistas, em passo de
atravessar rápido com o sinal verde...
Ipanema, a parte mais charmosa do Rio de Janeiro, conspurcada
pela mancha estendida de um corpo de menino de rua, “praga
maldita” de nossa cidade, a que ninguém mais presta atenção.
Em casa, confortavelmente instalada em meu sofá de estimação:
- Quê que se passa conosco, meu Deus!!!! Que Dia da Criança
vamos comemorar?
O próprio motorista de táxi, que me deixou bem na porta do
prédio, comentava e eu dizia amém:
- É, minha senhora. O governo pega esses meninos, joga no abrigo
para tomar banho e catar piolho, não faz mais nada. Eles caem na
rua de novo porque não tem nada pra fazer lá no abrigo, são
todos viciados, precisam de uma grana pra comprar a droga, e a
quantidade deles é demais. Hoje mesmo passei pela Cracolândia,
já ouvir falar? Aquele lugar de encontro debaixo do viaduto do
Jacarezinho, onde a garotada vai para se drogar com o tal de
crack, importado dos americanos, eu acho, pois só se ouviu falar
dele depois dos filmes de pretos marginais. E o Centro da
cidade?!!! A senhora tem ido lá? Não muda nada. Não adianta
“choque” do prefeito. Os meninos continuam cheirando cola e os
pivetes a nos levar relógios, carteiras... Uma vergonha!
Por isso estamos no 78º lugar no Índice de Desenvolvimento
Humano. O Brasil todo, sobretudo na região Norte, dizem os
estudiosos das estatísticas. Será que mediram o Rio?
Hoje recebo por email a alarmante notícia de que muçulmanos não
sei de onde têm direito pelo Alcorão de casar com meninas
menores de idade. Não sei se é verdade, mas mostram fotos de uma
fila de noivos homens (mal) criados, de mão dadas com as noivas
de dez anos, no máximo, pois nem peitinho têm, vestidas de
branco e maquiadas como adultas, talvez prostitutas. Vou me
abismar com isso? Claro que sim, mas lá neles não pode
ser pior do que cá entre nós.
Vejo a neta de minha vizinha chegar de visita, em seus sete
meses radiantes. Toda agasalhadinha, pois estamos numa primavera
invernal de 18 graus, bate com pernas e braços e me dá um
sorriso de Dia das Crianças antecipado. Respiro aliviada.
Valeu!!!!
Maria Lindgren |