Maria Lindgren

Dia Da Criança E coisa E Tal


           Parece que uma força inusitada, fora de meu normal, me impulsiona a escrever sobre o Dia da Criança, logo eu que meto o pau nos Dias disso e daquilo.

 Andam dizendo por aí que este Dia são todos os dias. Mas parece que muita gente não concorda. Pelo menos, os cariocas. Ontem mesmo, vi um menino de seus dez, onze anos deitado com as pernas encolhidas, embaixo de marquise de um banco de Ipanema, para se proteger da chuva impiedosa, que cai na cidade do Rio de Janeiro. Coberto quase a ponto de não se lhe adivinhar o rosto, imóvel, parecia em sono profundo, não perturbado pelo barulhão da rua Visconde de Pirajá repleta de trânsito.

E eu, o que fiz? Olhei para o garoto e segui em minhas comprinhas, ritual de depois do dentista, que me ameniza o padecer dentário. Leve, até entrei numa sorveteria e me deliciei com o sorvete de pistache, qual minha mãe.

Assim como eu, que depois morro de culpa e continuo a não fazer nada a não ser falar, todas as pessoas, que não eram poucas. Passavam, pior do que eu, sem sequer olhar para o quadro sombrio, e seguiam em passo de vai ou volta do trabalho, em passo de artrose nos pés e joelhos, em passo de turma que vem da praia, em passo de tomar suco ou comer assaí,  em passo de entrar no café expresso cheio de turistas, em passo de atravessar rápido com o sinal verde...

Ipanema, a parte mais charmosa do Rio de Janeiro, conspurcada pela mancha estendida de um corpo de menino de rua, “praga maldita” de nossa cidade, a que ninguém mais presta atenção.

Em casa, confortavelmente instalada em meu sofá de estimação:

- Quê que se passa conosco, meu Deus!!!! Que Dia da Criança vamos comemorar?

O próprio motorista de táxi, que me deixou bem na porta do prédio, comentava e eu dizia amém:

- É, minha senhora. O governo pega esses meninos, joga no abrigo para tomar banho e catar piolho, não faz mais nada. Eles caem na rua de novo porque não tem nada pra fazer lá no abrigo, são todos viciados, precisam de uma grana pra comprar a droga, e a quantidade deles é demais. Hoje mesmo passei pela Cracolândia, já ouvir falar? Aquele lugar de encontro debaixo do viaduto do Jacarezinho, onde a garotada vai para se drogar com o tal de crack, importado dos americanos, eu acho, pois só se ouviu falar dele depois dos filmes de pretos marginais. E o Centro da cidade?!!! A senhora tem ido lá? Não muda nada. Não adianta “choque” do prefeito.  Os meninos continuam cheirando cola e os pivetes a nos levar relógios, carteiras... Uma vergonha!

Por isso estamos no 78º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano. O Brasil todo, sobretudo na região Norte, dizem os estudiosos das estatísticas. Será que mediram o Rio?

Hoje recebo por email a alarmante notícia de que muçulmanos não sei de onde têm direito pelo Alcorão de casar com meninas menores de idade. Não sei se é verdade, mas mostram fotos de uma fila de noivos homens (mal) criados, de mão dadas com as noivas de dez anos, no máximo, pois nem peitinho têm, vestidas de branco e maquiadas como adultas, talvez prostitutas. Vou me abismar com isso? Claro que sim, mas lá neles não pode ser pior do que cá entre nós.

Vejo a neta de minha vizinha chegar de visita, em seus sete meses radiantes. Toda agasalhadinha, pois estamos numa primavera invernal de 18 graus, bate com pernas e braços e me dá um sorriso de Dia das Crianças antecipado. Respiro aliviada. Valeu!!!!

Maria Lindgren

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