Vem chegando o 7 de Setembro, o Dia da Pátria
brasileira. E eu, que cultivo a “pátria minha” como a orquídea
lilás de minha varanda, ainda me emociono. Aliás, a emoção vem
antes, no 21 de abril, na celebração de Tiradentes, o
único mártir verdadeiro de nossa história, delatado,
perseguido, preso, enforcado e esquartejado, em prol da
independência.
Sei que vocês vão pensar: - E os índios, os massacrados
índios?! Mas estes não se contam porque não tinham causa com C
maiúsculo a defender, a não ser a própria pele, o que é quase
nada para herói, convenhamos.
A mim, não importa que o tal Pedro I seja português e não
tenha tido boas intenções ao esbravejar, às margens dum
regatinho, o Ipiranga, Independência ou Morte.
O fato é que, sem guerras evidentes, conseguimos aquilo que
muitas nações tiveram de sangrar aos borbotões para obter.
Mesmo as que se libertaram em um passado bem mais recente, até
de colonizadores “patrícios” dos nossos, como Angola e
Moçambique.
Nos chamados Anos de Chumbo da ditadura, diziam-me que era
feio empunhar a bandeira verde e amarela e/ou cantar o hino
nacional: só os ditadores ferozes obrigavam a juventude a
decorar a letra e a melodia dos hinos pátrios e bandeira se
queimava em protesto.
No caso do Brasil, a decisão de mandar estudar a letra do
hino era pra leão mesmo. Só a muque se decoravam os versos
intrincados, em geral, sem saber o que significavam, de tantas
inversões poéticas e palavras difíceis para a nossa juventude:
brado, plácidas, retumbante,
fúlgidos e assim por diante doíam na língua,
embaralhavam-se nos dentes e nas cabeças.
Mas eu, até hoje, não contenho o aperto da garganta, quando
não o marejar (palavrinha difícil também) dos olhos, todas as
vezes que começam os acordes introdutórios: “ Laranja da
China, laranja da China, laranja da China// Abacate,
limão-doce e tangerina...” Ao mero ouvir o som cantante “Ouviram...”,
o arrepio de pele e o tremor de corpo se instalam, e o embargo
da voz é fatal, apesar dos treinos de impostação do coral em
que canto.
No meu tempo de menina, não se admitia entrada no colégio sem
cantar o hino nacional, custasse o que custasse de noites
insones aos alunos. E não parou em mim a moda do hino: meu
filho teve que o memorizar na escola pública de Copacabana,
sob pena de levar um redondo zero, não sei se em português ou
em história. Minha filha, privilegiada estudante de colégio
particular bastante Zen, não se deu ao trabalho de cantar hino
nenhum, o que lhe fez muita falta, eu acho, cá entre nós. Pois
o hino é a Pátria, em muitas ocasiões.
Que graça teriam os jogos esportivos no exterior se não se
entoassem os hinos de cada país logo de entrada, ainda que os
jogadores, brasileiros ou importados de outros lugares, nunca
tenham aprendido o nosso! Como se percebe, claramente, pelo
movimento labial que a televisão retrata e manda ver.
Alguns se esforçam para aparentar sabedoria patriótica, mas
não me conseguem tapear, não senhor. Porque EU SEI cantar as
duas partes do hino inteirinhas.
Participei de várias paradas do 7 de Setembro, primeiro,
quando estudante de colégio de freiras, mesmo que fossem
espanholas; depois, de bandeirinha na mão, ao lado de meus
pais. No colégio, a azáfama começava cedo, com os treinos para
o grande dia e com o preparo do uniforme de gala – saia de
pregas beije claro, blusa de seda branca, sapato tipo
sapatilha, de verniz preto e, pasmem, luvas brancas. Com que
orgulho empinava o peito, encolhia a barriga e marchava, em
fileira quase perfeita, em passos tão cadenciados quanto os
dos soldados de minha terra.
O Dia da Pátria, pois, me ajuda a sentir meu país. Não me
interessa praia, cinema, teatro ou qualquer outro
divertimento: quero estar pronta para o que der e vier.
Nós somos da pátria amada/fiéis soldados...