Maria Lindgren

Dia Do Professor 

             Mais um feriado, comemorado, com alívio do cansaço de dar aulas, pelos sacrificados professores de meu país. No seu Dia, o professor é lembrado e decantado como fazedor de cabeças pensantes, como educador,  ao longo dos tempos. A TV enfoca os mais abnegados do interior, os mais criativos de sala de aula, e tome de exaltar os mestres e mestras. Nada de mostrar ao público índices altos de analfabetismo, reprovação, repetência, evasão...  Só se vê criança lendo, escrevendo, criando...

            Mas e o dia-a-dia da vida de professor? De que jeito se comportam diante da violência que assola o Rio de Janeiro e outras grandes cidades, ali bem perto de sua escola? O que fazem para se virar com o aluno das favelas, cercado de tiros por todo lado? Como convencem os alunos a estudar, se o desemprego os espera ao final do curso?  Como se alimentam, moram, movimentam-se, criam filhos, com  salário sempre muito baixo?

“ Professor é um pobre coitado que trabalha a vida toda pra morar de aluguel, e, no máximo,  ter um Fusca de segunda mão”. Eis a melancólica definição de um colega meu, nos anos de 1980. Após ler notícias semana passada sobre as mesmas reivindicações de sempre dos professores do Rio Grande do Sul Maravilha, eu me pergunto: mudou alguma coisa para melhor, na profissão que foi minha?

Sem dúvida, acabou a Era do Fusca, bolado na Alemanha para o povo de menos dinheiro. Apesar da tentativa meio louca do Itamar Franco, no início dos anos 1990, de ressuscitá-lo por ser mais barato. E agora? Qual será o carro típico do professor? Certamente novo não é, pois o problema do salário minguado persiste. E casa própria, com os juros absurdos dos empréstimos, duvido que algum mestre possa adquiri-la.

Tive um colega que chegou a trabalhar em cinco escolas para poder sustentar a família. Morreu de infarto fulminante no meio de uma aula, numa das escolas privadas em que lecionava. Outro foi surpreendido por um AVC, também na escola, e parou de lecionar com cinqüenta anos. A mulher professora triplicou esforços: a aposentadoria do marido no serviço público era ridícula e o que ele recebeu da escola particular foi-se rápido.

 Há muito que não ouço falar de mérito do professor. Acho que desde os tempos do Colégio Pedro II no auge da glória, repleto de alunos e professores da elite intelectual brasileira - la créme de la créme. Fala-se, sim, e muito, do quanto os alunos não aprendem, de quanto os professores fingem que ensinam. Sobretudo,na escola pública.

Mas eu, não. Não caio nessa! Fui, sou e serei sempre uma admiradora veemente do magistério sofrido, vilipendiado de minha terra.

Quero poder gritar a plenos pulmões, todos os dias: - Tenho orgulho de ter sido professora ______________________________________________________________

Maria Lindgren

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