Que quero eu com a escrita, me
pergunta você, amiga exigente. Desabafar aflições? Relembrar
fatos interessantes? Esperar leitores que me teçam loas?
Aparecer em muitas vitrines? Ser convidada para a TV?
Acho que “tudo isso e o
céu também”, como dizia o título de um filme tão
vellho que esqueci.
Não creio que os escritores saibam direito as razões de passar
tanto tempo diante do computador, batendo nas teclas ou, os
mais conservadores, usando a caneta para ter um trabalhão de
passar a limpo depois. Horas e horas de atenção, de cuidados.
A não ser os mais afamados que, uma vez
best-sellers, não
páram mais de o ser.
Quanto a mim, penso primeiro na necessidade que me ataca de
escrever alguma coisa de que eu mesma goste. Junto idéia,
sentimento e teclas, cérebro, coração e mão, em batimento
frenético. Transformo em palavras o que me vem à cabeça, de um
jato. Depois, volto à leitura e vejo que necessidade sozinha
não faz um verão, nem a primavera gostosa de setembro, de
jeito nenhum. Há que ler e reler, achar a melhor palavra, o
que é sempre bem mais chato do que escrever de uma fincada só.
Deixo o texto em repouso quanto tempo aguento e a ele volto
sempre. Para apagar tudo ou parar no meio, algumas vezes, na
contastação de que não soube expressar tudo.
Mas, não posso reclamar. Sou uma leitora de muitos e muitos
anos e acho que posso distinguir um texto mal escrito, um que
me agrada, outro que não me diz nada. Assim, remoo pensamentos
ao teimar em ler certos escritores. E como dá trabalho,
sobretudo em língua estrangeira, no original. Haja vista um
Borges, um T. S. Eliot, danados de destrinchar. Como é,
então, que vou deixar minha mente em paz com o
que saiu dela?
Confesso que estou numa fase meio empacada. Depois que me
meti a ter aulas de espanhol, quero porque quero dominar a
língua, dei de escrever nela, para gáudio (ou seria
desespero?) de minha maestra argentina. E tome de ler
Cortázar, Benedetti, Sábato, e outros tantos, para aprimorar
minha linguagem, respeitar as diferenças do português.
Levei um tempo com pruridos de ler uma tradução que me deram.
Imagina! Quem sou eu para saber se o espanhol de um livro
traduzido é bom? Bestice pura. Estou atacando o livro e
gostando pra burro. Se não é bem escrito, azar. Deixo a
crítica para mais tarde.
Não publico em papel desde 2008, ainda que tenha um livro bem
cozido e esfriado, pronto para ser devorado por leitores
famintos. Ah! Tão bom que fossem famintos de mim! Poderiam
pegar meu livro de manhã para curtí-lo na praia ou na piscina
– os que podem ir a tais lugares de ficar à-toa, bem certo. E
nem precisam ler tudo de uma vez. Leriam uns três contos ou
crônicas, no máximo, parariam para um gole de refrigerante ou
cerveja, quiçá um sanduichinho, um mergulho ou uma soneca.
Depois, só retomariam a leitura à noite, antes de dormir. E eu
ficaria bem contente.
Vejo que pouca gente leva livro para a piscina que frequento.
Uma ou duas vizinhas, uma russa e uma brasileira. A russa
devora autores que não conheço, naquela bela língua que nem
sonho aprender; a brasileira se delicia com a literatura que
as livrarias expõem. As minhas obras em papel mesmo jamais
foram lidas por nenhuma das duas. Não me deram a honra de
pedir:
-
Pode me
emprestar um livro seu? Não acho nas livrarias.
-
Pois claro.
Com o maior prazer. Vou lá em cima apanhar os dois.
E tome correria para o meu apartamento, nervosa, contando os
andares, com risco de escorregar os pés molhados, porque o
elevador demora. Entraria, feixe de luz, em casa e, num
segundo, livros na mão das duas. Nem esperaria o “espaciba” da
russa, muito menos, o obrigada da brasileira.
Dias depois, sem coragem para cortar o silêncio, aguardaria o
comentário. Em vão, meu Deus! Tristeza, desânimo, vontade de
parar. Até que um texto, que mandei por email para a colega de
canto coral, agrada, tem resposta-delícia de ouvir:
- Que texto mais bonito você me mandou! Mande mais.
O liiiiiindo reboa sonoro em meu cérebro ávido. Agradeço e só
não mando mais um direto, para disfarçar um pouco a emoção.
Depois, mais um texto novo enviado para site da internet.
Aguardo a resposta por dias. Nada chega. Quando começo a me
desesperar, descubro que o meu outlookexpress está com defeito
e se recusa a enviar o que mando. Aliviada, mando por outra
via. Vai dar certo. Posso contar com, pelo menos, alguns
escritores e não-escritores fiéis, que me mandarão elogios. E
o publicarão, com certeza. Fico mais que feliz.
Acho que preciso perder a mania antiga de que livro é para se
pegar com as mãos. Tenho que me modernizar urgente!