Naquele dia enfumaçado e
quente de uma primavera que não pintava verão de jeito nenhum,
só me restava torcer por dias mais bonitos de céu imaculado e
bons ventos. Não as rajadas que chegavam à tarde, traiçoeiras,
fortíssimas, de quebrar vetustas árvores de minha cidade e
amedrontar minha plantinha, tão delicada que se fecha à toa,
Não, os pingões de chuva a bater ploc-ploc, na grade
cilíndrica de metal de minha varandinha. Não os raios que
realmente têm partido pessoas ao meio, nos arredores da
cidade, como aviso prévio de que um dia nos partirão a nós,
urbanos pouco interessados nas grande causas do Planeta.
De fato, sonhei. Recostada
qual Maya Desnuda em meu sofá vermelhão-sangue, vieram à minha
cabeça os quadros de Natais passados, bem passados. Estávamos
na semana que antecede a grande data. Grande? Para mim, que
sou católica sem questionar o que me incomoda na religião. E
para alguns outros que vão à missa perto de nossas casas para
evitar a preguiça.
Pensei no baú vermelho,
decorado de preto, pintado por mim mesma, repleto de
brinquedos dos meus filhos pequenos, doados aos pobres, na
certeza de serem substituídos por outros, de tias, pais, mães
e avós.
“ Que fiz eu do baú, Santo
Deus? Sumiu por descaso, vontade de me ver livre da lembrança
da infância de meus filhotes, que se acabara de chofre, me
deixara com xarope de fel na língua para sempre.”
Sem cronologia, foi a vez dos
presentes de ouro de meu pai ainda rico, obrigação imposta a
sí mesmo, à época mais bonita e alegre da igreja católica.
Hoje, contento-me com as imitações anti-ladrão. Mas, no fundo,
protesto.
Mil lembranças e o cansaço me
pesaram as pálpebras, em sono fora de hora. Deus sabe o que
faz: se tivesse insistido no devaneio, viriam os cheiro da
comida de minha mãe, a voracidade de meu primo imigrante ao
comer, o gosto do vinho do Algarve, contrário à terra nortista
de meu pai, presente mal bolado por um amigo...
Acordei duas horas depois, com
meu marido recém-chegado do trabalho. Às mãos, discreto, um
embrulho pequeno e caprichado. Abro o pacote com cuidado,
sinto o odor de meu perfume predileto, sorrio ao homem gentil
e, pronto, estou feliz no Natal, de novo.
Maria
Lindgren