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Cansada de ver a
casa a se desmoronar aos poucos, ela toma a decisão difícil:
juntariam uns caraminguás para refazer
tudinho, de cabo a rabo.
E aí começa
tudo. Primeiro, falar com o marido.
Claro que o homem não via tanto defeito: viajava sem parar e pra
ele, era chegar, dar um beijo gostoso de saudade e lançar-se ao
leito, com ou sem ela. – os filhos estavam grandes, não
precisavam mais de muito cuidado.
Consultar as
amigas sobre questão de reformas é sempre aconselhável: algumas
delas deviam ter passado pelo suplício e não moravam ainda no
cemitério. Portanto, telefones e
emails
a postos, começa pela vizinha do andar de baixo:
-
Carol,
preciso dar uma geral no meu apartamento. Moro aqui há
mais de vinte anos e não mexi em quase nada. Será que você me dá
umas dicas?
-
Menina, tenho pena de você. É um
horror este negócio de obras. Se a gente não sai, morre sufocada
de poeira, fica surda com os mais diversos
barulhos – tom-tom-tom, tssssiii-
tsssiii-
tsssiii, ron-
ron – ron
de martelos, britadeiras e motores não se sabe pra quê, fica-se
com dor de cabeça todo santo dia, daquelas que a gente tem
vontade de arrancar a própria pelo pescoço, que nem desenho
animado, aparece uma rinite que ataca espirros e coriza de
cachoeira, a voz acaba de tanto esgoelar pra ser ouvida... Vou
logo dizendo: Esquece o Coral. Nem te conto! Claro que conheço
gente. Um verdadeiro exército de operários malandros, que passam
um ano só destruindo pra depois começar a construir. E se você
sair de casa, coitada... Não deixa nada exposto!
Cê sabe, tem ladrão por todo lado.
Meio
desanimada, Anita toma nota do
celular do chefe da gangue – todos têm celular e entendem mais
dele que as pessoas de classe média, já se sabe. Só
que moram longe e o danado dá sempre
“fora da área de cobertura, tente mais tarde”.
Resolve ligar
para a madrinha da filha, mulher sabida das
coisas, que trabalha fora, mas não deixa cair a peteca em
casa.
- Lucinda,
querida. Você, que toma nota de tudo, lembra do telefone daquele
marceneiro, chefe de outros operários, que faz a reforma toda,
além de fabricar mobilia de todo
tipo?
-
Claro, Anita. Tenho meu caderninho
mágico do qual não escapa nem manicure.
Está grosso de endereços. Eu não curto muito
esses eletrônicos. Ainda me atrapalho. E olhe que não me
considero uma coroa. Pera aí que vou
apanhar logo. Ah”
tá aqui no M de marceneiro, porque
ele fala que não é carpinteiro nem operário de obras. É papa
fina. Faz até pintura de móveis
Provence,
conhece? Aquela pintura que parece que o branco foi manchado,
sabe qual é? Tem dois: o celular e o de casa. Um deles dá certo.
Depois de pedir
mais uns dois ou três nomes, Anita respira. Tem que ver o
orçamento de todos pra escolher o que faz menos caro. Afinal, o
maridão não é dono do
Santander e do Real, bancos que
juntos são uma potência. Ganha bem, mas não dá pra facilitar.
Moram no “Favelão”, isto é, na Selva
de Pedra, chamada de favelão nos
tempos de pouco interesse pelo Leblon. Agora, virou moradia de
status. Estão pela hora da morte os apartamentos de três
quartos. Os de quatro, então...
Chega
a primeira trupe e pergunta: - Tem
reforma de banheiro e cozinha? Porque se tiver temos que arrumar
bombeiro e eletricista dos bons. A senhora tem a planta do
apartamento? Se não, é fogo. Fura um cano e a gente tem que
parar a água do prédio inteirinho. Dá um rolo!
Depois de
fuxicar todos os papéis de cima da última prateleira e do
armário das velharias, acham uma planta bem amarelada, mas que
se entende, graças a Deus.
Cem mil reais, no mínimo.
Santo Deus, pensa Anita apavorada. E
nós que juntamos sessenta. Quê que vamos fazer?
O
maridão chega de viagem e vai logo
dizendo: - Não dá. Temos que achar outro mais em conta. Essa
gente depois que o Lula subiu está
impossível. Pensam que vão ser presidentes do país às nossas
custas.
Anita quase
desiste, mas quando vê uma buraco no
teto bem em cima do sofá, prestes a abrir mais por causa da
infiltração já corrigida do andar de cima, resolve meter a cara
na busca infernal.
Depois de uma
semana de aflição, de súplicas aos donos da bola reformadora,
consegue uma equipe, que lhe cobra 50 mil mais ou menos.
Alívio geral.
Até sinteco fazem. Só que pro sinteco tem que ter a casa vazia,
sem nenhum móvel de chão. E pros encanamentos, nem se fala.
Nova procura,
desta vez de apartamento quebra-galho para mudança imediata, de
aluguel barato, claro. O menos
absurdo no Leblon fica em dois mil reais por
mês, fora as taxas, de dois quartos apenas, prédio velho,
e por seis meses. Se o seu apart
não ficar pronto, azar: têm que se mandar, de qualquer
jeito. Inda mais na Visconde,
pertinho da praia. Todo o mundo quer.
A mudança
famigerada leva pelo menos um mês de seleção de arrumação de
cacarecos. No final, os movimentos exagerados, a força de
carrega pra cá e pra lá acabam com as costas de Anita e do
marido. Os filhos, não, graças a Deus, porque não podem fazer
nada, tão cheios estâo de afazeres
na escola e na faculdade. Resultado: médico ortopedista
caríssimo porque os do Plano Saúde são uma m.......
Mandam sempre a mesma coisa: raio X,
um pouco de massagem, saco de água quente e infra-vermelho ou
ultra-violeta. Bem ali perto, mas sem nenhuma melhora.
O douto doutor
de granfinos, indicado pelos amigos
mais abastados, cobra preço de banqueiros, empresários de
multinacionais ou donos da Globo:
quase mil reais cada consulta.
- Doutor, a
gente não é de família da alta sociedade nem nada. Nosso
sobrenome não é de italiano milionário. Não dá pra fazer um
abatimento? Vamos ter que voltar algumas vezes.
- Minha senhora,
seu marido pagou a consulta dele sem chiar. Por que a senhora
não faz o mesmo?
No
apart alugado, graças
à hidro
de seu clube predileto, Anita melhora bastante. Resolve até
passear pela Visconde, debaixo da
sombra das árvores vetustas, apesar do trânsito pesado e dos
morcegos à noite. Para até para ouvir os passarinhos
sem-vergonha. Vê os que ficam bem regalados nos baita fios ou
cabos de eletricidade, vejam só.
Curte o céu entre as árvores e pensa no mar logo adiante. Que
maravilha!
Ao sair pelo
jardim minúsculo, de roupa esporte toda
caprichada e ótimos tênis comprados pelo marido em Nova
York, porque está NO LEBLON do Jardim Pernambuco, se depara com
um bicho em correria desenfreada: é uma baita ratazana que
repete o trajeto todos os dias, para espanto da família apenas,
pois a vizinhança está acostumada e nem fala no assunto. Ainda
bem que o bicho tem família também e se instala num buracão do
prédio, perto da garagem. Acho que as pessoas até alimentam a
bicha com restos de queijo e outras iguarias de que ratazana
gosta.
Dois passos
depois do susto e a bela avenida à sua frente exala um cheirinho
esquisito. Anita procura, procura e nem se dá conta que a
avenida mais bonita do Leblon tem no meio
uma quase-rio que corre para o mar. Decide atravessar no
sinal, tremendo de medo para não ser atropelada por um ônibus
daqueles velhos, que passam vazios e fazem um
barulhão danado com o freio
enferrujado. Consegue equilibrar-se numa enorme raiz de árvore,
linda árvore. Olha, então, para baixo e dá de cara com a água
amarronzada. Quase desmaia. Recolhidos por uma espécie de
gradeado, para não deixar passar grandes sujeiras, percebe
acumulados uns bons quilos de lixo de variadas espécies e,
pasmem, um bicho morto em carne viva bem vermelha.
-Como é que
pode-, pensa aflita, doida para contar de noite à família. – A
gente mudou do FAVELÃO para um VALÂO? É dose!!!!!!
Maria Lindgren
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