Maria Lindgren

 Do Favelão ao Valão

Cansada de ver a casa a se desmoronar aos poucos, ela toma a decisão difícil: juntariam uns caraminguás para refazer tudinho, de cabo a rabo.

E aí começa tudo. Primeiro, falar com o marido. Claro que o homem não via tanto defeito: viajava sem parar e pra ele, era chegar, dar um beijo gostoso de saudade e lançar-se ao leito, com ou sem ela. – os filhos estavam grandes, não precisavam mais de muito cuidado.

Consultar as amigas sobre questão de reformas é sempre aconselhável: algumas delas deviam ter passado pelo suplício e não moravam ainda no cemitério. Portanto, telefones e emails a postos, começa pela vizinha do andar de baixo:

- Carol, preciso dar uma geral no meu apartamento. Moro aqui há mais de vinte anos e não mexi em quase nada. Será que você me dá umas dicas?

- Menina, tenho pena de você. É um horror este negócio de obras. Se a gente não sai, morre sufocada de poeira, fica surda com os mais diversos barulhos – tom-tom-tom, tssssiii- tsssiii- tsssiii, ron- ronron de martelos, britadeiras e motores não se sabe pra quê, fica-se com dor de cabeça todo santo dia, daquelas que a gente tem vontade de arrancar a própria pelo pescoço, que nem desenho animado, aparece uma rinite que ataca espirros e coriza de cachoeira, a voz acaba de tanto esgoelar pra ser ouvida... Vou logo dizendo: Esquece o Coral. Nem te conto! Claro que conheço gente. Um verdadeiro exército de operários malandros, que passam um ano só destruindo pra depois começar a construir. E se você sair de casa, coitada... Não deixa nada exposto! sabe, tem ladrão por todo lado.

Meio desanimada, Anita toma nota do celular do chefe da gangue – todos têm celular e entendem mais dele que as pessoas de classe média, já se sabe. Só que moram longe e o danado dá sempre “fora da área de cobertura, tente mais tarde”.

Resolve ligar para a madrinha da filha, mulher sabida das coisas, que trabalha fora, mas não deixa cair a peteca em casa.

- Lucinda, querida. Você, que toma nota de tudo, lembra do telefone daquele marceneiro, chefe de outros operários, que faz a reforma toda, além de fabricar mobilia de todo tipo?

- Claro, Anita. Tenho meu caderninho mágico do qual não escapa nem manicure. Está grosso de endereços. Eu não curto muito esses eletrônicos. Ainda me atrapalho. E olhe que não me considero uma coroa. Pera aí que vou apanhar logo. Ah aqui no M de marceneiro, porque ele fala que não é carpinteiro nem operário de obras. É papa fina. Faz até pintura de móveis Provence, conhece? Aquela pintura que parece que o branco foi manchado, sabe qual é? Tem dois: o celular e o de casa. Um deles dá certo.

Depois de pedir mais uns dois ou três nomes, Anita respira. Tem que ver o orçamento de todos pra escolher o que faz menos caro. Afinal, o maridão não é dono do Santander e do Real, bancos que juntos são uma potência. Ganha bem, mas não dá pra facilitar. Moram no “Favelão”, isto é, na Selva de Pedra, chamada de favelão nos tempos de pouco interesse pelo Leblon. Agora, virou moradia de status. Estão pela hora da morte os apartamentos de três quartos. Os de quatro, então...

Chega a primeira trupe e pergunta: - Tem reforma de banheiro e cozinha? Porque se tiver temos que arrumar bombeiro e eletricista dos bons. A senhora tem a planta do apartamento? Se não, é fogo. Fura um cano e a gente tem que parar a água do prédio inteirinho. Dá um rolo!

Depois de fuxicar todos os papéis de cima da última prateleira e do armário das velharias, acham uma planta bem amarelada, mas que se  entende, graças a Deus.

Cem mil reais, no mínimo. Santo Deus, pensa Anita apavorada. E nós que juntamos sessenta. Quê que vamos fazer?

O maridão chega de viagem e vai logo dizendo: - Não dá. Temos que achar outro mais em conta. Essa gente depois que o Lula subiu está impossível. Pensam que vão ser presidentes do país às nossas custas.

Anita quase desiste, mas quando vê uma buraco no teto bem em cima do sofá, prestes a abrir mais por causa da infiltração já corrigida do andar de cima, resolve meter a cara na busca infernal.

Depois de uma semana de aflição, de súplicas aos donos da bola reformadora, consegue uma equipe, que lhe cobra 50 mil mais ou menos.

Alívio geral. Até sinteco fazem. Só que pro sinteco tem que ter a casa vazia, sem nenhum móvel de chão. E pros encanamentos, nem se fala.

Nova procura, desta vez de apartamento quebra-galho para mudança imediata, de aluguel barato, claro. O menos absurdo no Leblon fica em dois mil reais por mês, fora as taxas, de dois quartos apenas, prédio velho, e por seis meses. Se o seu apart  não ficar pronto, azar: têm que se mandar, de qualquer jeito. Inda mais na Visconde, pertinho da praia. Todo o mundo quer.

A mudança famigerada leva pelo menos um mês de seleção de arrumação de cacarecos. No final, os movimentos exagerados, a força de carrega pra cá e pra lá acabam com as costas de Anita e do marido. Os filhos, não, graças a Deus, porque não podem fazer nada, tão cheios estâo de afazeres na escola e na faculdade. Resultado: médico ortopedista caríssimo porque os do Plano Saúde são uma m....... Mandam sempre a mesma coisa: raio X, um pouco de massagem, saco de água quente e infra-vermelho ou ultra-violeta. Bem ali perto, mas sem nenhuma melhora.

O douto doutor de granfinos, indicado pelos amigos mais abastados, cobra preço de banqueiros, empresários de multinacionais ou donos da Globo: quase mil reais cada consulta.

- Doutor, a gente não é de família da alta sociedade nem nada. Nosso sobrenome não é de italiano milionário. Não dá pra fazer um abatimento? Vamos ter que voltar algumas vezes.

- Minha senhora, seu marido pagou a consulta dele sem chiar. Por que a senhora não faz o mesmo?

No apart alugado, graças à hidro de seu clube predileto, Anita melhora bastante. Resolve até passear pela Visconde, debaixo da sombra das árvores vetustas, apesar do trânsito pesado e dos morcegos à noite. Para até para ouvir os passarinhos sem-vergonha. Vê os que ficam bem regalados nos baita fios ou cabos de eletricidade, vejam . Curte o céu entre as árvores e pensa no mar logo adiante. Que maravilha!

Ao sair pelo jardim minúsculo, de roupa esporte toda caprichada e ótimos tênis comprados pelo marido em Nova York, porque está NO LEBLON do Jardim Pernambuco, se depara com um bicho em correria desenfreada: é uma baita ratazana que repete o trajeto todos os dias, para espanto da família apenas, pois a vizinhança está acostumada e nem fala no assunto. Ainda bem que o bicho tem família também e se instala num buracão do prédio, perto da garagem. Acho que as pessoas até alimentam a bicha com restos de queijo e outras iguarias de que ratazana gosta.

Dois passos depois do susto e a bela avenida à sua frente exala um cheirinho esquisito. Anita procura, procura e nem se dá conta que a avenida mais bonita do Leblon tem no meio uma quase-rio que corre para o mar. Decide atravessar no sinal, tremendo de medo para não ser atropelada por um ônibus daqueles velhos, que passam vazios e fazem um barulhão danado com o freio enferrujado. Consegue equilibrar-se numa enorme raiz de árvore, linda árvore. Olha, então, para baixo e dá de cara com a água amarronzada. Quase desmaia. Recolhidos por uma espécie de gradeado, para não deixar passar grandes sujeiras, percebe acumulados uns bons quilos de lixo de variadas espécies e, pasmem, um bicho morto em carne viva bem vermelha.

-Como é que pode-, pensa aflita, doida para contar de noite à família. – A gente mudou do FAVELÃO para um VALÂO? É dose!!!!!!

Maria Lindgren

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