Maria Lindgren

 É O Mar Quem Me Navega

                     A praia estira-se diante de Alaíde e dos visitantes deslumbrados, até hoje. Promessa de delícias de um Rio de Janeiro paradoxal. Esquece-se dos inúmeros defeitos. Sob céu azul, sem nenhuma nuvem de tempo feio, Copacabana é única.  Beleza escancarada do Leme ao Posto Seis.

Que importam gente demais, moradias empilhadas nos morros e nas ruas, violência no trânsito, assaltos, roubos, tiroteio, piranhas, travestis...! Que importam as modernidades dos quiosques novos, dos megashows de música e esporte!

Para as senhoras de mais de 65 anos, sobretudo, nada muda em Copacabana. É o sonho de Alaíde e sua vida, em três etapas distintas, três jeitos de ver o mar.

 Primeiro, muito pequena ainda, levada pela mãe, junto com a irmã, de ônibus. Sacolejando do Engenho de Dentro até a praia do delírio. Para as crianças, o mar quase personagem de contos fantásticos. refúgio contra as maldades.

 João e Maria não se perdiam na floresta e, sim, em alto mar, para serem logo, logo resgatados por marinheiros corajosos. Bela Adormecida, depois do despertar romântico, não fugia na garupa do cavalo branco de um príncipe, mas numa caravela, comandada pelo intrépido rapaz. Chapeuzinho Vermelho deparava-se com o Lobo comilão numa ilha, quando levava, de barco, a comida da avó. E escapava do malfeitor a braçadas, mar adentro. Branca de Neve derretia-se – Branca de Mar. Velejava com os Sete Anões para nunca mais encontrar a Madrasta-feiticeira. E seu príncipe nadava léguas para a alcançar.

Água: sinônimo de felicidade. Água salgada do mais belo mar do Rio de Janeiro, saúde e alegria infinita para  os moradores retirantes da Zona Norte.

Imaginação incensada pela voz materna, para a menina Alaíde, nadar era aptidão natural: aprendia-se a boiar ainda no ventre aquoso da mãe.

Quando chegavam à Copacabana, dizia-lhes a mãe:

- Olha o Céu logo ali, pertinho de nós! Deus nos vê.

 O mar transformava-se no caminho mais seguro para o encontro abençoado. Como, pois, não querer enfrentar as ondas, furando-as e seguindo em frente?!

Os mergulhos da mãe, seguidos de braçadas fortes, provocavam nas duas irmãs a vontade de crescer e tratar de imitá-la, em seu privilégio de estar quase no Paraíso. A mãe lhe explicava, entre gotas salgadas:

- Ainda não chegou a hora de vocês nadarem, filhotas. Têm que crescer um pouco mais.  Este mar é como os homens: traiçoeiro!

E esse “pouco mais” nunca chegava. Alaíde cresceu, a mãe envelheceu. Sem a proteção materna permanente, cadê coragem de enfrentar as ondas bravias? Além do mais, em sua casa, tinham que ajudar à mãe resmungona, insatisfeita. O pai, coadjuvante cabisbaixo da mãe, desprovido do dom inato do prazer, não demonstrava nenhum tipo de fascínio por nada.

 Aos poucos, a praia dos devaneios infantis se esvaía em colégio, estudo, deveres caseiros... Depois, namoro e, por fim, casamento. Fora-se a poesia das canções praieiras, do “pequenino grão de areia”, do “mar quando quebra na praia é bonito, é bonito”. Restava a mulher pé no chão.

A pele morena de nascença amarelou-se por falta de sol, avermelhou-se de varrer quintal no verão, sol a pino.

Na segunda fase da vida de Alaíde, brigas constantes com marido obrigaram-na a refletir: “O que significa ser uma dona de casa e ponto final? Pra quê estudo, então? Meus filhos vão crescer e eu, como fico? Encafuada neste lugar, reclamando como mamãe?

Decidiu estudar de novo, tentar o vestibular de Administração, contra a vontade do marido retrógrado. Passou, cursou e graduou-se, com trabalho conseguido numa empresa de porte médio, por pistolão de um tio, cheio de conhecidos graúdos. Com quarenta anos, hora de mudar.

Divorciada, a paixão pelo mar voltou, quase concomitante com a moradia em apartamento, perto da praia tão desejada: Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Não mais o paraíso imaginado. A essa altura, o bairro acumulava moradores, turistas e problemas. A avenida fervia trânsito e loucuras. Sempre havia, no entanto, o Leme, o recanto mais sossegado do Leme. 

        Todas as manhãs de fim de semana, o caminho para a praia, barraca, cadeiras e filhos. Fora, todos os males!

Balde na mão, porque as ondas não davam trégua, o mar era fundo e somente os filhos nadavam, estirada na areia, “oh Sol, amado sol” ,de tantos poemas. Sorriso feliz, enquanto os filhos tratavam de se tornar adultos.

Muito depois, para Alaíde aposentada, a solidão barulhenta de trânsito, rádio e TV, filhos criados e quase desaparecidos. Selecionava as  alegrias possíveis: passeio pela orla de manhã e à tarde, bate-papos com vendedores de água de coco fresca, um picolé ou outro, e o mar... Azul ou cinza. Bem em frente aos seus olhos. Sempre

Maria Lindgren

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