Maria Lindgren

 E Se Fossem Minhas Tias?

Icaraí, Niterói, década de 1920

Minha mãe, não. Não seria. Era bem mais nova. Note-se que o trio parece pouco à-vontade com a exposição de partes do corpo antes consideradas luxuriosas. Portanto, sempre bem escondidas.

 Talvez a jovem menos tímida seja a da direita - a de touca branca combinando com as listas do traje de banho. A da esquerda ensaia uma perna mais para frente da outra, um leve tombar da cabeça para um lado, as mãos nos quadris - pose mais desafiadora. A do meio se protege pela figura de boné de marinheiro: um guarda-vidas ou um primo? Dia nublado: sol de bronzear, nem se cogitava: moda brancura para moças “ de boa família”.

Divirto-me imaginando minhas tias, em jeito e maiôs de 1920 e poucos, na Praia de Icaraí, Niterói, mar bem-educado, contido, sem perigo. Mar de minha terra.

        O ar sem sofisticação das moçoilas de cabelo à la garçonne contrasta com o das banhistas de biquini e cabelos longos de Ipanema, de hoje e, sobretudo, dos anos 1960-1970 - época da liberação da mulher, da pílula anti-concepcional, dos direitos demandados pelas feministas e obedecidos pelas jovens mais ousadas.

 E olhe que a década de vinte foi chamada de avançada! Saias encurtadas até o joelho e  charleston a dominar os salões. Nesse tempo, talvez minha tia do meio ou uma prima, de idade semelhante, ousassem posar de roupa de banho. A irmã mais velha de minha mãe, nunca. Coxas de fora, que pecado! Somente as vedetes de teatro burlesco ou as prostitutas, chamadas “damas da noite” ou “mulheres da vida”.

Na foto nenhuma das três moças sorri escancarado. No máximo, uma cabeça meio desviada em pose antiga, as mãos nos quadris. E nada de músculos malhados. Nem a mais corajosa fazia ginástica, com certeza. No máximo, natação sem estilo, logo admoestada pela família:

- Vamos ter modéstia! Moça que muito se expõe, fica fácil demais!

        De certo que a foto é do tempo de solteiras: nenhuma delas ainda engordara com a vida de casada e a maternidade. Depois, era fatal: mais uns dez, quinze quilos. Na primeira gestação, a barriguinha proeminente, meio flácida. Nas outras, desleixo total. Dieta à base de mingaus para o bem amamentar. E empregadas para as ajudar em casa, se fossem de, no mínimo, classe média, é claro.

- Há mulher pra se olhar e mulher pra se pegar, dizia meu pai, entusiasmado com as gorduras de minha mãe.

Também ele, deixava a barriga crescer, sem problema de vaidade ou preocupação com o coração ou ainda, com males de coluna vertebral. Ingestão de alimentos balanceados para pessoas sadias, nem se cogitava. E tome de bacalhau nadando no azeite, carnes vermelhas, doces de tipos bem variados, vinho branco, tinto e do Porto...

E vivia-se. Não mais em número de anos; talvez melhor em qualidade de vida.

Ontem assisti um programa Saúde na TV. Nunca vi tamanha variedade de exercícios físicos, dietas frugais, conselhos para todas as idades. Até os oitenta anos.

E eu, que sempre fui de ginástica, sem vícios digestivos, com uma dor de coluna!!!

Maria Lindgren

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