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Minha
mãe, não. Não seria. Era bem mais nova. Note-se que o trio
parece pouco à-vontade com a exposição de partes do corpo antes
consideradas luxuriosas. Portanto, sempre bem escondidas.
Talvez a jovem menos tímida seja a da direita - a de touca
branca combinando com as listas do traje de banho. A da esquerda
ensaia uma perna mais para frente da outra, um leve tombar da
cabeça para um lado, as mãos nos quadris - pose mais
desafiadora. A do meio se protege pela figura de boné de
marinheiro: um guarda-vidas ou um primo? Dia nublado: sol de
bronzear, nem se cogitava: moda brancura para moças “ de boa
família”.
Divirto-me imaginando minhas tias, em jeito e maiôs de 1920 e
poucos, na Praia de Icaraí, Niterói, mar bem-educado, contido,
sem perigo. Mar de minha terra.
O ar sem sofisticação das moçoilas de cabelo à la
garçonne contrasta com o das banhistas de biquini e cabelos
longos de Ipanema, de hoje e, sobretudo, dos anos 1960-1970 -
época da liberação da mulher, da pílula anti-concepcional, dos
direitos demandados pelas feministas e obedecidos pelas jovens
mais ousadas.
E
olhe que a década de vinte foi chamada de avançada! Saias
encurtadas até o joelho e charleston a dominar os
salões. Nesse tempo, talvez minha tia do meio ou uma prima, de
idade semelhante, ousassem posar de roupa de banho. A irmã mais
velha de minha mãe, nunca. Coxas de fora, que pecado! Somente as
vedetes de teatro burlesco ou as prostitutas, chamadas “damas da
noite” ou “mulheres da vida”.
Na
foto nenhuma das três moças sorri escancarado. No máximo, uma
cabeça meio desviada em pose antiga, as mãos nos quadris. E nada
de músculos malhados. Nem a mais corajosa fazia ginástica, com
certeza. No máximo, natação sem estilo, logo admoestada pela
família:
-
Vamos ter modéstia! Moça que muito se expõe, fica fácil demais!
De certo que a foto é do tempo de solteiras: nenhuma
delas ainda engordara com a vida de casada e a maternidade.
Depois, era fatal: mais uns dez, quinze quilos. Na primeira
gestação, a barriguinha proeminente, meio flácida. Nas outras,
desleixo total. Dieta à base de mingaus para o bem amamentar. E
empregadas para as ajudar em casa, se fossem de, no mínimo,
classe média, é claro.
-
Há mulher pra se olhar e mulher pra se pegar, dizia meu pai,
entusiasmado com as gorduras de minha mãe.
Também ele, deixava a barriga crescer, sem problema de vaidade
ou preocupação com o coração ou ainda, com males de coluna
vertebral. Ingestão de alimentos balanceados para pessoas
sadias, nem se cogitava. E tome de bacalhau nadando no azeite,
carnes vermelhas, doces de tipos bem variados, vinho branco,
tinto e do Porto...
E
vivia-se. Não mais em número de anos; talvez melhor em qualidade
de vida.
Ontem assisti um programa Saúde na TV. Nunca vi tamanha
variedade de exercícios físicos, dietas frugais, conselhos para
todas as idades. Até os oitenta anos.
E
eu, que sempre fui de ginástica, sem vícios digestivos, com uma
dor de coluna!!!
Maria Lindgren |