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Saio da missa do Domingo de Ramos
com ramos ainda umedecidos de água benta. Estou meio torta e
tonta. Meu corpo dói. As juntas enrijecidas recusam-se a
obedecer a marcha que o cérebro comanda. Músculos de cera
derretida. Parece que tenho uma cruz para carregar.
Agora, é a cabeça. Os espinhos
descarnam minha pele frágil. Quero me livrar deles, andar lépida
como nas trilhas das serras fluminenses; consertar a postura de
ombros pendurados. Não consigo. Mal respiro, ofegante, quase
moribunda. Pelas veias não me corre sangue: ficou coalhado nas
mãos, joelhos e pés.
Temo que os circundantes felizes
notem minha figura e debochem de mim. Acelero o passo mal dado.
Pernas rígidas de gente muito velha, sem vislumbre de
flexibilidade. Se me aparecesse uma cadeira de rodas, atirava-me
nela, sem titubear, qual minha mãe nos últimos dias de vida. Só
assim chegaria a algum lugar menos sofrido, mais confortável:
uma cama, uma maca, um lençol no chão.
Chego, muito ao contrário, a
local inapropriado à situação: à esquina dos sucos refrescantes,
cheirosos, cariocas. Há várias pessoas no balcão e muitas pelas
mesas. Não posso confiar que não me vejam. Escondo-me atrás do
primeiro poste. Dou-lhe abraço afetivo, consolador, bêbado de
dor.
Olhos se voltam sem me ver.
Afinal, é cidade grande: ninguém enxerga desconhecidos na rua.
Só mesmo se eu me estatelar no meio da passagem entre as mesas
da calçada. Talvez, nem mesmo assim. Capazes de me chutar,
embolar, atirar no resto de chuva dos bueiros, sem perceber-me a
agonia.
Preciso alcançar o shopping.
Fresco de ar não natural, vazio porque é domingo, pode
significar ajuda. Em esforço arrastado, gemidos em tom gutural
escampam-me da boca. Despudorados. Nem deste jeito consigo alma
que se lembre de mim. Conversam no chopinho, no aperitivo
ajantarado dominical, contam piadas, gargalham.
Continuo torturada por fora e
por dentro. Que pecados terei cometido?! Não me proclamei rainha
dos judeus, herdeira de trono dos deuses, princesa ou deusa. Não
cometi o pecado da gula antropofágica na última ceia comendo pão
demais, nem bebi o vinho embriagador de meu próprio sangue.
Ninguém me traiu: tempos de Judas inocente, segundo atesta
documento egípcio recuperado e exibido na TV. Nenhum amigo à
minha volta para me negar três vezes, antes do galo cantar. Até
porque, aqui na cidade, rechaçaram-se os galos, de vez. Não há
Pilatos, nem outro governante qualquer para me julgar e lavar as
mãos.
Vislumbro, entre fios de sangue,
ao longe, manchas escuras pelo chão: mendigos. Penso que,
identificados com meu sofrimento, me salvarão. Quero ser salvo,
Deus meu! Apresso meu arrastar como posso. O sangue escorre-me
para dentro dos olhos. Cheio de pimenta ou algo semelhante,
arde-me o globo ocular. Alcanço efetivamente os pedintes de rua,
mais sujos e andrajosos do que nunca. Preciso estender a mão
direita, pelo menos. Podem segura-la, amparando-me a queda
inevitável. Algum se apiedará de mim, enxugará as feridas, cada
vez mais profundas.
Nada. Nem mesmo um movimento
mínimo para a solidariedade apregoada na missa. E eu que
providenciei óbulo mais farto do que o comum! Sigo para a porta
do banco fechado: caixa eletrônica. Há sempre perdulários à
procura de dinheiro para esbanjar no resto do fim de semana.
Quem sabe esses não serão meus salvadores!!!
Uma das moças, de short e
tênis, recém-advinda de andar na praia, tem um pedaço de pano à
mão. Se for um lenço, pode-me enxugar a face como Verônica. Bem
perto, esbarro na mocinha. Olha-me, furiosa, e nada faz. Jamais
terei meu rosto impresso a sangue.
Prossigo a caminhada tortuosa.
Chego ao shopping, finalmente. Caio logo à entrada. Nem sequer
terei o regalo do ventinho do ar condicionado. Há que suportar o
calor da tortura, da sangreira em que me tornei. “Pai, afasta de
mim este cálice!” exclamo, quase berrando. Silêncio. Muito
silêncio. Estou na cruz. |