Maria Lindgren

Écos Do Gólgota 

            Saio da missa do Domingo de Ramos com ramos ainda umedecidos de água benta. Estou meio torta e tonta. Meu corpo dói.  As juntas enrijecidas recusam-se a obedecer a marcha que o cérebro comanda. Músculos de cera derretida. Parece que tenho uma cruz para carregar.

Agora, é a cabeça. Os espinhos descarnam minha pele frágil. Quero me livrar deles, andar lépida como nas trilhas das serras fluminenses; consertar a postura de ombros pendurados. Não consigo. Mal respiro, ofegante, quase moribunda. Pelas veias não me corre sangue: ficou coalhado nas mãos, joelhos e pés.

Temo que os circundantes felizes notem minha figura e debochem de mim. Acelero o passo mal dado. Pernas rígidas de gente muito velha,  sem vislumbre de flexibilidade. Se me aparecesse uma cadeira de rodas, atirava-me nela, sem titubear, qual minha mãe nos últimos dias de vida. Só assim chegaria a algum lugar menos sofrido, mais confortável: uma cama, uma maca, um lençol no chão.

Chego, muito ao contrário, a local inapropriado à situação: à esquina dos sucos refrescantes, cheirosos, cariocas. Há várias pessoas no balcão e muitas pelas mesas. Não posso confiar que não me vejam. Escondo-me atrás do primeiro poste. Dou-lhe abraço afetivo, consolador, bêbado de dor.

Olhos se voltam sem me ver. Afinal, é cidade grande: ninguém enxerga desconhecidos na rua. Só mesmo se eu me estatelar no meio da passagem entre as mesas da calçada. Talvez, nem mesmo assim. Capazes de me chutar, embolar, atirar no resto de chuva dos bueiros, sem perceber-me a agonia.

 Preciso alcançar o shopping. Fresco de ar não natural, vazio porque é domingo, pode significar ajuda. Em esforço arrastado, gemidos em tom gutural escampam-me da boca. Despudorados. Nem deste jeito consigo alma que se lembre de mim. Conversam no chopinho, no aperitivo ajantarado dominical, contam piadas, gargalham.

Continuo torturada por fora e por dentro. Que pecados terei cometido?! Não me proclamei rainha dos judeus, herdeira de trono dos deuses, princesa ou deusa. Não cometi o pecado da gula antropofágica na última ceia comendo pão demais, nem bebi o vinho embriagador de meu próprio sangue. Ninguém me traiu: tempos de Judas inocente, segundo  atesta documento egípcio recuperado e exibido na TV. Nenhum amigo à minha volta para me negar três vezes, antes do galo cantar. Até porque, aqui na cidade, rechaçaram-se os galos, de vez. Não há  Pilatos, nem outro governante qualquer para me julgar e lavar as mãos.

Vislumbro, entre fios de sangue, ao longe, manchas escuras pelo chão: mendigos. Penso que, identificados com meu sofrimento, me salvarão. Quero ser salvo, Deus meu! Apresso meu arrastar como posso. O sangue escorre-me para dentro dos olhos. Cheio de pimenta ou algo semelhante, arde-me o globo ocular. Alcanço efetivamente os pedintes de rua, mais sujos e andrajosos  do que nunca. Preciso estender a mão direita, pelo menos. Podem segura-la, amparando-me a queda inevitável. Algum se apiedará de mim, enxugará as feridas, cada vez mais profundas.

Nada. Nem mesmo um movimento mínimo para a solidariedade apregoada na missa. E eu que providenciei óbulo mais farto do que o comum! Sigo para a porta do banco fechado: caixa eletrônica. Há sempre perdulários à procura de dinheiro para esbanjar no resto do fim de semana. Quem sabe esses não serão meus salvadores!!!

 Uma das moças, de short e tênis, recém-advinda de andar na praia, tem um pedaço de pano à mão. Se for um lenço, pode-me enxugar a face como Verônica. Bem perto, esbarro na mocinha. Olha-me, furiosa, e nada faz. Jamais terei meu rosto impresso a sangue.

Prossigo a caminhada tortuosa. Chego ao shopping, finalmente. Caio logo à entrada. Nem sequer terei o regalo do ventinho do ar condicionado. Há que suportar o calor da tortura, da sangreira em que me tornei. “Pai, afasta de mim este cálice!” exclamo, quase berrando. Silêncio. Muito silêncio. Estou na cruz.

voltar