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Pego um copo de pé alto, abro um
vinho tinto maduro, bebo sozinha, em ritual sagrado de ínfimos
goles, em homenagem a meu pai português e católico. Chegou a
Páscoa.
Finalmente, posso esquecer a quinta e a sexta feiras santas, de
penitências e abstinências, que não fiz, do ranger de dentes que
controlei, embora me incomodasse, como sempre.
Lembro de um tempo em que os dois dias trágicos da Semana Santa
eram sentidos como castigo, por ter me fantasiado de baiana ou
cigana, no Carnaval mal brincado, de quarenta dias antes. Daí
que chovia e não dava praia.
Até hoje, trago um vago gosto de morte e sangue, nestes dias de
despedida e agonia de Jesus Cristo. Ainda que minha igreja
interior se rebele quanto a imposições e não viva, literalmente,
a hipocrisia dos católicos, em geral: pecam bastante, depois, se
confessam, rezam um padre-nosso e duas Ave-Marias, e é tudo
perdoado. Aí comem o Corpo de Cristo, em contrição, sem
mastigá-lo, para não o machucar. Que coisa!
Sábado de Aleluia, alívio: acabaram-se a pesada cruz, a coroa de
espinhos, as chibatadas, o fel....Cristo ressuscita. E no
Domingo de Páscoa, a grande festa da Eucaristia, a maior festa
da cristandade. Mesmo.
Para mim, que tenho pouca família, formo nova família, em torno
da pessoa mais velha e mais próxima. Em agrupamento jeitoso, que
inclui empregados domésticos, antigos também..
Antes do ajantarado, de manhã, saio para a missa das onze, mais
engalanada do que de costume, mesmo que sem os brilhos e as
flores da matriz. Vou mais cedo: a igreja regurgita de gente.
Ajoelho-me diante do altar e peço ao Cristo ressuscitado que
proteja um bando de gente, a começar pelos brasileiros mais
sofridos, aqueles que vejo mais de longe que de perto: os das
doenças crônicas ou não, das balas perdidas, dos casebres
improvisados, de debaixo dos viadutos e das marquises das lojas,
bancos e repartições, de por cima dos gramados e areias, das
ruas de minha cidade e de outras. Emendo com o meus queridos
mortos, para terminar com meus queridos vivos.
À hora do Padre-Nosso, da Paz em Cristo e da Comunhão, choro,
com certeza.
Depois, chego com os comensais de fora, a esta altura, doidos
por um vinho e uns salgadinhos, ao menos, à casa de quintal e
tudo. Para cair de boca na bacalhoada infalível.
Viva a Páscoa! Feliz Páscoa!
Maria Lindgren |