Maria Lindgren

 Enfim Páscoa

Pego um copo de pé alto, abro um vinho tinto maduro, bebo sozinha, em ritual sagrado de ínfimos goles, em homenagem a meu pai português e católico. Chegou a Páscoa.

Finalmente, posso esquecer a quinta e a sexta feiras santas, de penitências e abstinências, que não fiz, do ranger de dentes que controlei, embora me incomodasse, como sempre.

Lembro de um tempo em que os dois dias trágicos da Semana Santa eram sentidos como castigo, por ter me fantasiado de baiana ou cigana, no Carnaval mal brincado, de quarenta dias antes. Daí que chovia e não dava praia.

Até hoje, trago um vago gosto de morte e sangue, nestes dias de despedida e agonia de Jesus Cristo. Ainda que minha igreja interior se rebele quanto a imposições e não viva, literalmente, a hipocrisia dos católicos, em geral: pecam bastante, depois, se confessam, rezam um padre-nosso e duas Ave-Marias, e é tudo perdoado. Aí comem o Corpo de Cristo, em contrição, sem mastigá-lo, para não o machucar. Que coisa!

Sábado de Aleluia, alívio: acabaram-se a pesada cruz, a coroa de espinhos, as chibatadas, o fel....Cristo ressuscita. E no Domingo de Páscoa, a grande festa da Eucaristia, a maior festa da cristandade. Mesmo.

Para mim, que tenho pouca família, formo nova família, em torno da pessoa mais velha e mais próxima. Em agrupamento jeitoso, que inclui empregados domésticos, antigos também..

Antes do ajantarado, de manhã, saio para a missa das onze, mais engalanada do que de costume, mesmo que sem os brilhos e as flores da matriz. Vou mais cedo: a igreja regurgita de gente. Ajoelho-me diante do altar e peço ao Cristo ressuscitado que proteja um bando de gente, a começar pelos brasileiros mais sofridos, aqueles que vejo mais de longe que de perto: os das doenças crônicas ou não, das balas perdidas, dos casebres improvisados, de debaixo dos viadutos e das marquises das lojas, bancos e repartições, de por cima dos gramados e areias, das ruas de minha cidade e de outras. Emendo com o meus queridos mortos, para terminar com meus queridos vivos.

À hora do Padre-Nosso, da Paz em Cristo e da Comunhão, choro, com certeza.

Depois, chego com os comensais de fora, a esta altura, doidos por um vinho e uns salgadinhos, ao menos, à casa de quintal e tudo. Para cair de boca na bacalhoada infalível.

Viva a Páscoa! Feliz Páscoa!


Maria Lindgren

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