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Sem dúvida, o Natal da classe
média carioca passou. Superquente, em todos os sentidos: céu
nublado, sem chuva, calor sem sol de sufocar cristão, até se
abrir o tempo de vez, com a chegada do Dia de Natal: céu.azul
sem nuvens, sol abrasador de 40 graus. Veio para ficar.
Montes de Papais Noel
brasileiros e gordos, de barba branca postiça, roupagem vermelha
de mangas compridas e botas, suaram e, pior, babaram as faces
das crianças que se sentavam em seu colo.
As árvores de verdade ou de
mentira brilharam luzinhas, marca registrada da ocasião única.
Mas, presépios, cadê? Apenas as igrejas insistem no
Natal-Nascimento de Jesus Cristo, com grandes velas acesas e
presépios arrumados com carinho: Jesus, Maria e José - a Sagrada
Família - e seus convidados.
As madames e jovens, da classe
média do meu bairro, saciaram a fome consumista, em milhares de
pequenas prestações. Compraram, é verdade, conforme indicavam os
pacotes coloridos dentro dos sacos plásticos gigantescos. Os
homens, menos. Poucos acompanhantes das mulheres e filhos, assim
mesmo, nos dias de folga do feriadão. E comeram. Como comeram
nos cafés, nos restaurantes, antes da noitada natalina! E
depois, certamente, em casa.
Os que têm família juntaram a
turma em volta da mesa de toalha branca e centro com arranjo de
Natal, para se deliciarem com rabanadas, frutas secas,
bacalhaus, perus ou chesters, regados a vinho ou
Prosecco. Os que não a têm conformaram-se com carona no Natal
dos outros ou com a tevê, salvadora dos solitários.
Num piscar de olhos, no jornal
da TV, a notícia da chegada de cinco navios para o Réveillon
carioca. Mas, como, se ontem à noite não se podia andar de carro
nesta cidade, onde não se anda mais a pé!? Se a praia de manhã e
à tarde lotou e transbordou, antes da noitada retumbante?! Essa
gente não tem medo das balas perdidas, dos assaltos?
Eis o Réveillon badalado,
anunciado por gregos e troianos, como dizia meu pai. Bem pior
que no Natal, a festa do Ano-Novo atrai milhões de turistas, sem
exagero. Vêm de dentro e de fora do país, para se embasbacarem
mais com a quente praia de Copacabana do que com os fogos, que
estes explodem em toda parte do mundo.
O resultado, a gente conhece:
praias, bares, restaurantes, ruas, tudo apinhado de gente clara,
pronta a se tornar mulata, esquecendo preconceitos. Alemães em
conquista das negras, bem mais voluptuosas do que as branquelas
de sua terra natal. Americanos, sem medo de nossos aeroportos, a
se comunicar com os nativos, com pouco esforço, pois de há
muito, estamos americanizados: we speak English.
Franceses bem vestidos, preparam-se para as turnês pelas
favelas. Argentinos, poucos: desviaram-se para Búzios, deixaram
vagas para mais europeus.
Os turistas de terras frias,
coitados, adorando o calor, enfrentam fila para o bonde de Santa
Tereza, para o bondinho do Corcovado, para o Pão de Açúcar...
Sem pensar nos traficantes em guerra perene com a polícia,
sossegam nos ônibus para a Rocinha, a grande atração dos
franceses e alemães. Admiram o mar descortinado do alto da
favela, ao mesmo tempo em que ficam boquiabertos com as casas
coladas umas nas outras ou compram artesanato ( por sinal, muito
bom) dos favelados mais bem dotados. Alguns gostam tanto que se
mudam para lá, me contaram.
Ia-me esquecendo da invasão dos
chineses. É só entrar num restaurante chinês de Copacabana e ver
a quantidade de olhos puxados da ex-comunista China.
Os sulistas nacionais, de pele
clara e cabelo louro, aprendem rápido a gritar como cariocas da
gema. Sentem-se em casa, ainda que o sotaque e a cor os traiam.
São, em geral, muito mais jovens do que os europeus, estes quase
todos da Terceira Idade. Têm dinheiro, pois comem, de palitos,
sushis e sashimis em grandes combinados,
deliciosos, mas caros, como toda a comida no Rio de Janeiro.
Enquanto isso, saio à rua para
ver como está o 31/12/97. Pasmo: há um bando de populares não se
sabe de onde, acomodados no chão de terra do Jardim de Alá que,
desde a madrugada, dão eventuais caídas no mar e voltam para
comer até churrasquinho feito na hora. Estão sujos e felizes,
meu Deus! E um menino de seus seis anos, no máximo, cochila
sentado embaixo da marquise do cinema Leblon, em meio aos restos
de pano e papel da dormida anterior. Volto rápido.
Neste bendito fim de ano, que
custa horrores a passar, rezo alguns Padre-Nossos por minha
família, meus amigos, e pelos meninos sem ceia, nem casa.
Encafuada no ar condicionado de meu lar-doce-lar, no máximo,
ligo a TV bem antes da meia-noite, para ver como comemoram a
passagem de ano os donos do mundo: os mesmos fogos
espalhafatosos, os mesmos sorrisos hipócritas de uma alegria
encenada. Em cenário diferente, é claro.
Quando me decido a ir dormir e
deixar a vida rolar, explosão ensurdecedora na Lagoa, bem perto
de minha casa! Ninguém escapa, Santo Deus!
Maria Lindgren
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