Maria Lindgren

 Fim De Ano Daqueles

Sem dúvida, o Natal da classe média carioca passou. Superquente, em todos os sentidos: céu nublado, sem chuva, calor sem sol de sufocar cristão, até se abrir o tempo de vez, com a chegada do Dia de Natal: céu.azul sem nuvens, sol abrasador de 40 graus. Veio para ficar.

Montes de Papais Noel brasileiros e gordos, de barba branca postiça, roupagem vermelha de mangas compridas e botas, suaram e, pior, babaram as faces das crianças que se sentavam em seu colo.

 As árvores de verdade ou de mentira brilharam luzinhas, marca registrada da ocasião única. Mas, presépios, cadê? Apenas as igrejas insistem no Natal-Nascimento de Jesus Cristo, com grandes velas acesas e presépios arrumados com carinho: Jesus, Maria e José - a Sagrada Família - e seus convidados.

As madames  e jovens, da classe média do meu bairro, saciaram a fome consumista, em milhares de pequenas prestações. Compraram, é verdade, conforme indicavam os pacotes coloridos dentro dos sacos plásticos gigantescos. Os homens, menos. Poucos acompanhantes das mulheres e filhos, assim mesmo, nos dias de folga do feriadão. E comeram. Como comeram nos cafés, nos restaurantes, antes da noitada natalina! E depois, certamente, em casa.

Os que têm família juntaram a turma em volta da mesa de toalha branca e centro com arranjo de Natal, para se deliciarem com rabanadas, frutas secas, bacalhaus, perus ou chesters, regados a vinho ou Prosecco. Os que não a têm conformaram-se com carona no Natal dos outros ou com a tevê, salvadora dos solitários.

Num piscar de olhos, no jornal da TV, a notícia da chegada de cinco navios para o Réveillon carioca. Mas, como, se ontem à noite não se podia andar de carro nesta cidade, onde não se anda mais a pé!? Se a praia de manhã e à tarde lotou e transbordou, antes da noitada retumbante?! Essa gente não tem medo das balas perdidas, dos assaltos?

Eis o Réveillon badalado, anunciado por gregos e troianos, como dizia meu pai. Bem pior que no Natal, a festa do Ano-Novo atrai milhões de turistas, sem exagero. Vêm de dentro e de fora do país, para se embasbacarem mais com a quente praia de Copacabana do que com os fogos, que estes explodem em toda parte do mundo.

O resultado, a gente conhece: praias, bares, restaurantes, ruas, tudo apinhado de gente clara, pronta a se tornar mulata, esquecendo preconceitos. Alemães em conquista das negras, bem mais voluptuosas do que as branquelas de sua terra natal. Americanos, sem medo de nossos aeroportos, a se comunicar com os nativos, com pouco esforço, pois de há muito, estamos americanizados: we speak English. Franceses bem vestidos, preparam-se para as turnês pelas favelas. Argentinos, poucos: desviaram-se para Búzios, deixaram vagas para mais europeus.

Os turistas de terras frias, coitados, adorando o calor, enfrentam fila para o bonde de Santa Tereza, para o bondinho do Corcovado, para o Pão de Açúcar... Sem pensar nos traficantes em guerra perene com a polícia, sossegam nos ônibus para a Rocinha, a grande atração dos franceses e alemães. Admiram o mar descortinado do alto da favela, ao mesmo tempo em que ficam boquiabertos com as casas coladas umas nas outras ou compram artesanato ( por sinal, muito bom) dos favelados mais bem dotados. Alguns gostam tanto que se mudam para lá, me contaram.

Ia-me esquecendo da invasão dos chineses. É só entrar num restaurante chinês de Copacabana e ver a quantidade de olhos puxados da ex-comunista China.

Os sulistas nacionais, de pele clara e cabelo louro, aprendem rápido a gritar como cariocas da gema. Sentem-se em casa, ainda que o sotaque e a cor os traiam. São, em geral, muito mais jovens do que os europeus, estes quase todos da Terceira Idade. Têm dinheiro, pois comem, de palitos, sushis e sashimis em grandes  combinados, deliciosos, mas caros, como toda a comida no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, saio à rua para ver como está o 31/12/97. Pasmo: há um bando de populares não se sabe de onde, acomodados no chão de terra do Jardim de Alá que, desde a madrugada, dão eventuais caídas no mar e voltam para comer até churrasquinho feito na hora. Estão sujos e felizes, meu Deus! E um menino de seus seis anos, no máximo, cochila sentado embaixo da marquise do cinema Leblon, em meio aos restos de pano e papel da dormida anterior. Volto rápido.

 Neste bendito fim de ano, que custa horrores a passar, rezo alguns Padre-Nossos por minha família, meus amigos, e pelos meninos sem ceia, nem casa. Encafuada no ar condicionado de meu lar-doce-lar, no máximo, ligo a TV bem antes da meia-noite, para ver como comemoram a passagem de ano os donos do mundo: os mesmos fogos espalhafatosos, os mesmos sorrisos hipócritas de uma alegria encenada. Em cenário diferente, é claro.

Quando me decido a ir dormir e deixar a vida rolar, explosão ensurdecedora na Lagoa, bem perto de minha casa! Ninguém escapa, Santo Deus!

Maria Lindgren

 

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