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A água entra pela
minha varanda a ponto de me fazer usar rodo e pano de
chão, coisa que perdi o treino de usar. Mais uma das
chuvaradas de verão em plena primavera, daquelas que dão
vontade de se ficar deitada, lendo um bom texto,
pensando, cochilando de quando em vez. Sem trovoada, os
passarinhos se encolhem um pouco, com esperanças de
voltarem a desafiar o trânsito barulhento logo, logo. As
flores aqui e ali tremelicam e se mantém nas hastes,
não importa a fragilidade de seus sustentos. A flor cor
de vinho, que se fecha à noite, ensaia seu ritual em
pleno dia, deixando-me meio temerosa de seu destino. O
fícus, as palmeiras e o único pé de orquídea não dão a
mínima: sabem q ue chuva sem enchente não mata ninguém,
muito menos vegetação.
Véspera de
Finados, Dia de Todos os Santos, em que sempre imagino a
trabalheira dos santos para receberem as homenagens e os
pedidos, em festa gigantesca, se a gente pensar na
inclusão dos beatos.
Em terra de
feriadões, eu não me havia tocado de que Finados estava
logo ali, com seu cortejo de memórias dos que perdemos
ao longo da vida. Incoerência feriadão neste dia, me
parece, mas não à maioria carioca, que quer ir à praia e
beber vários chopinhos.
Durante três
dias, a televisão, sem se importar com a data, anunciava
que seria um feriadão de sol total, tempo raro nesta
primavera da cidade do Rio de Janeiro e de muitas outras
regiões do país.
_ Que nada!,
exclamou o sábio porteiro. Vai é chover, isso, sim. Se
fizer sol, ele logo se esconde, a senhora vai ver.
Pela primeira
vez fã do horário de verão que alonga o dia, decido ir
ao cemitério niteroiense na véspera de Finados, como
fazia minha mãe, para evitar a confusão do Dia, às
vezes, para nossa chateação de quase adolescentes, pois
gostávamos da “farra” de muita gente e até paquerávamos.
“Chova ou faça sol, vou
de táxi, por via das dúvidas”.
Proclamo aos quatro
ventos – meu marido, meus dois filhos e minha empregada
- que vou ao cemitério este ano.
- Não me procurem. Vou
dedicar o Dia primeiro à Missa de Todos os Santos.
Recebo pingos de água benta na igreja e me mando pra
Niterói, logo a seguir, santificada duas vezes.
No aprazado dia
1 de novembro, debaixo da maior chuva, meu filho aflito
ao telefone:
- Mãe, você tem
coragem de atravessar a Ponte com este tempo?
- Claro. Não
vou me atrapalhar por causa de chuva. Pode ser até que a
Ponte esteja menos entupida, como acontece nos feriados.
Tenho capa, guarda-chuva e minhas pernas dão pro gasto.
Não é à-toa que faço minha hidro quatro vezes por
semana.
Às duas horas
em ponto, o motorista competente me aguarda. Pego o
carro direto na educada portaria de meu prédio, feita
para embarque e desembarque à porta, sem respingos nem
buzinas. Está um dia quente e o ar condicionado médio me
faz colocar a capa às costas. Sinto uma ameaça de
tristeza, mas o papo com o motorista a minimiza.
- O cemitério
que a senhora vai é aquele pequeno, do Barreto? Acho
muito melhor do que o maior, mais bem tratadinho. Aliás,
gosto mesmo é de gramado com a lápide à moda americana.
Com chuva, então, fica uma beleza, bem verdinha. Não sei
porque aqui é tão caro e tão longe. Acho que é falta de
espaço, né mesmo?
A ponte me faz
lembrar mais uma vez do dia em que vi, emocionada, a
barca de Niterói e os navios como de brinquedo, lá-á-á
em baixo.
- Bela obra! Pena que
tenha morrido gente na construção.
- É mesmo?, Não sabia
disso.
Claro, gente jovem não
sabe tantas histórias boas ou ruins como nós. Estou a
ponto de lhe mandar abrir o Google e ler o histórico da
Ponte Rio-Niterói, mas me refreio. Penso que os podres
não se contam.
Mal enxergo esfumaçada a
Ilha Fiscal, uns poucos navios e uma regata sob a maior
chuva. Em cima e debaixo d´água. Fico abestalhada com a
coragem dos intrépidos desportistas. As velas vermelhas
e brancas se destacam na névoa da chuva.
Mais alguns minutos e a
entrada para o Barreto. Gente, que terra mais feiinha,
Deus me perdoe. O bairro do cemitério está igualzinho ao
que era, mas bem deteriorado. Parece terra que não
cresce jamais. A não ser que tenham preferido construir
shoppings e prédios em outra parte do bairro.
O cemitério se aproxima
e bem tratado, com grades pintadas de azul e muros
brancos quase sem pichação. A florista é a mesma de
cinqüenta anos atrás. Uma loja carcomida de raras flores
bonitas e arranjos de mau-gosto. Tenho horror a flores
misturadas sem capricho de japonês. A meu lado, uma
senhora vestida corretamente, o que denota algum status,
reclama do preço.
- Gente! Tá muito caro
vinte reais por esse tantinho de flor! Quê que deu na
sua cabeça D. Guiomar? Graças a Deus que eu vim
prevenida.
Tenho vontade de lhe
explicar que é até barato, se considerarmos que Finados
é um dia apenas por ano.
Compro minhas flores
brancas, não sei que nome têm, mas não as misturo de
jeito nenhum com palmas de Santa Rita, rosas e
margaridas meio murchas.
Chego ao túmulo negro
abraçada com as flores, debaixo do guarda-chuva cinza,
rodeada de cinzento por todo lado, mas cercada de
meninos que se dispõem a lavar o granito preto. E o
fazem com o maior capricho, em algazarra gostosa que
quebra o tom lúgubre do dia.
A pouco e pouco, os
nomes de meus mortos, desde meus avós que não conheci,
até meus pais, em caligrafia bonita, do tipo manuscrito.
Arrumo as flores com cuidado de Mrs, Dalloway, de
Virgínia Woolf, e me sinto bem. Rezo.
Maria Lindgren
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