Maria Lindgren

 Gaviões E Passarinhos

...Porque, criança, os pássaros não falam

Gorgeando apenas sua dor exalam

Sem que os homens os possam entender...

        Olavo Bilac

Não, não se assustem. Não vou plagiar Pasolini em sua paródia cinematográfica da luta de classes. Roubo-lhe apenas o nome do filme. Falo de aves mesmo.

As aves de minha rua não são de porte grande: são passarinhos. É verdade que há pombos, mas raros, e as gaivotas vêem-se longe lá bem alto, quando desfilam em carreiras simétricas.

Gente da cidade está condenada a poucos encantos da natureza, eu sei. Daí que todas as manhãs me atraem, me trazem à vida os chilreios e pios dos passarinhos, que não conheço pelo nome, estúpida que sou. Tirando bentevi, beija-flor, pardal, canário, o resto me é desconhecido. Nem a sabiá, de Tom Jobim, sei identificar.

 Nunca me dediquei a estudar pássaros. Preferi imaginá-los nas metáforas e descrições dos poemas. Too bad! Sinto vergonha da minha falta de erudição ornitológica. Que glória saber o nome em latim dos pássaros de minha terra!

Tenho muitas razões para apreciar os passarinhos: delicadeza de alma e de figura, vôo irresponsável, inquietação gostosa, pouso de equilibrista na pontinha de um galho, ainda que de planta sem valor, bater de asas perfeito ao mesmo tempo em que se alimenta de flores...

Torço por eles, sofro sua ausência, desde o dia em que caiu ferido um bem pequenino, no quintal de minha casa, expulso da mangueira aparentemente acolhedora de ninhos. Tremelicou e morreu em minhas mãos, sem um pio. Eu nem entendia ainda o que significava “morrer como um passarinho”, comparação consoladora para o inevitável fim humano, que só constatei na morte de minha mãe.

Gosto de seus cantos, diferente de meu irmão boêmio, que não conseguia conciliar o sono por causa da seresta matinal em volta de seu quarto.

Odeio a prisão das gaiolas, desde que Olavo Bilac reiterou o caráter maligno da prisão de um pássaro.

Desejo que os passarinhos a meu redor voem cem anos, no mínimo. Enfeitariam minhas manhãs de velha lúcida de mais de cem - minha meta atual; não faço por menos. Continuariam a espalhar graça e chilreio, anunciariam vivacidade, logo pela manhã.

Hoje, como sempre, parei para observar por alguns minutos o passarinho pousado no alto da palmeira imperial de minha esquina. Voava despretensioso e, de repente, um pouco cansado, encontrou um local de pouso metade do meu mindinho. Eu que cambaleio com o balanço ameno de um navio em mar nada cruel; que tropeço nas pedras portuguesas das calçadas e em meus próprios pés, quando não chuto móveis; que não alcanço um pulo de menos de meio metro do solo; que não consigo assobiar de jeito nenhum; que abro minhas “asas” sem jeito apenas para abraçar as pessoas mais queridas; que me comunico com voz arranhada via telefone ou nem isso, via computador, morro de inveja e os admiro, cada vez mais.

Soube esta manhã que os gaviões da mata lá da Gávea estão atacando os pássaros de meu bairro. E eu nem sabia da existência de gaviões por aqui. Não sei porque foram contar horror tamanho a uma pessoa fragilizada pelas notícias medonhas do dia a dia dos humanos, que dirá de uma ave, sem nenhum pecado, nem venial.

Gavião sempre foi símbolo de poder de destruição, pior que urubu, pois este come depois da morte do objeto de sua gula. Sei que há gaviões humanos pela aí, mais maquiavélicos, pois matam seu semelhante por pura ganância de dinheiro ou por vingança, não por fome. A cada dia, ouço mais e mais tragédias de homens-gaviões a destroçar outros homens. Não me acostumo, sempre me revolto.

Mas digo a vocês, com toda a sinceridade:, se me dessem uma arma de longo alcance e eu pegasse um gavião voando em direção aos meus passarinhos, era um tiro certeiro, com certeza. Sem nenhum arrependimento. 

Maria Lindgren

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