Maria Lindgren

Grande Confusão


- Tem certeza de que era um encontro religioso?

- Tenho, D. Maria. Eu estava lá. Fiquei apavorada.

Com voz esgoelada, incomum no dia a dia de seu trabalho,  veias do pescoço quase a pular, a moça dramatizava à dona da casa os absurdos que tinha presenciado. Ambas liam e comentavam as notícias do jornal, estes demonstradores “sagazes” da falta de educação das pessoas, pelo menos, dos cariocas.

Sobretudo, no trânsito. Nas rodovias que dão acesso às regiões praianas ou às montanhas, a segunda–feira é prenhe de notícias de atropelamentos, batidas que acabam transformando as viagens de lazer em tragédia. Quando simplesmente não batem na volta do passeio, ou à entrada do túnel Rebouças, no Aterro do Flamengo, numa rua qualquer, e o trânsito fica um cáos. Um montão de mal-humorados reinicia os dias de trabalho de cara fechada. Pudera!

Nas ruas de sinal luminoso mais preguiçoso, às oito, nove da manhã, começa o buzinaço, ninguém entende porque, pois barulho de buzina não me parece ser ouvido por sinal luminoso automático. É gente que  considera burulho estridente uma solução para barbeiragem ou sinal emperrado que ninguém do governo se propõe a acelerar, não importa qual partido entre no poder. Honra ao mérito, não se ouve palavrão, graças às janelas fechadas e o ar condicionado, que funciona verão e inverno, certamente por medo de assalto. Sexta-feira, então, dia de pressa dos motoristas e desejo de chegar rápido em casa, para o ufa, que alívio dos programas de entretenimento fora ou dentro de casa.

São raros os exemplos de polidez no Rio: um ou outro senhor ou senhora do tempo antigo ou jovem excepcional, que ainda age com delicadeza, abrindo a porta do elevador, segurando a mesma para não esmigalhar ninguém, esperando com paciência a entrada dos mais velhos e dos carrinhos de bebê. Como no shopping caro da Zona Sul, cuja porta fecha ao tempo de um suspiro, até para se ir ao cinema. Em geral, há que correr para sustar a porta, a gente acaba com dor no dedo de tanto segurar o botão, e no braço, por conter a porta pesada.

 - D. Maria, aqui no Rio, não vejo nada de educação -, continua a empregada, enquanto a patroa pensa:  “ palavra dela não vale muito porque não é carioca, é mineira”. - Muita grosseria por todo lado. E quando fazem algum favor é esperando alguma coisa em troca. Nem que seja uma paquera. Pobre, então, é um horror! Pior que rico. Esse negócio de ter pena de pobre, no Rio não cola. Aqui o cara anda bem-vestido, na moda, igual aos que têm grana, mas são uns desaforados, uns interesseiros.

Aí eu penso, com meus botões de ex-professora de escola pública:  rico tem boas escolas, viaja muito, sabe falar várias línguas, se educa sem querer; pobre, muitas vezes, não conclui nem o ensino fundamental. Mesmo assim, há muitas pessoas endinheiradas que não sabem se comportar. É só passar num bar do Leblon depois das onze da noite e prestar atenção aos filhinhos de papai. Saem que nem loucos pela rua onde moro, dão cada freiada de arrepiar, às vezes, até caem no canal ou batem de chofre nas vetustas árvores, coitadas, criando-lhes feridas. Só que os ricos de fato não se veem pelas ruas. Acho que andam de helicóptero, pois não entra ninguém muito chique nem nos shppings, nem em carro de alto luxo.

-         Mas, o rapaz que traz as compras pra você e não cobra, não é legal?, pergunta D.Maria.

A cena incrível de dois rapazes com as sacolas pesadas, sem esperar nem gorjeta vem-lhe à mente.  E ela, a empregada, à frente, como se fosse uma sinhá com seus escravos. A difereça é que não são negros nem andam descalços, como nas gravuras de Debret. Usam tenis e calça jeans.

    - É, mas alguma coisa eles estão querendo. Acho que é pra eu não comprar nada em outro lugar; o supermercado deles cobra os olhos da cara. Eles sabem disso e morrem de medo de perder o emprego. Só pode ser isso.

- Mas, são dois empregados, né mesmo?

- São, mas é tudo pra não ser mandado embora. Tem dois  supermercados juntinhos. Assim, a gente não pula pro outro. Delicadeza sem interesse, eu não vejo em parte alguma. No ônibus apinhado, ninguém dá lugar pra grávida de barrigão.

Apesar da seriedade do assunto, D. Maria começou a rir, devido ao jeito teatral da moça falar. Nisso, era uma popularesca de marca maior. Sempre cai na gargalhada com os comentários dos empregados do prédio. Até mesmo quando comentam os hóspedes. São muito moralistas, não aceitam diferenças de comportamento, são machistas, falam muito alto, mas têm sua graça.

A moça desandou a falar: tinha argumentação sólida, empirica. Explicou os vários incidentes de má educação, assistidos  no Sambódromo, um domingo desses.

- Uma dona bem vestida, dessas que andam de cabelo liso da moda, saia acima do joelho e salto alto, bem pintada, de traço no olho, sombra, rímel etc., bolsa grandona a tiracolo no ombro esquerdo,  falava desaforo para uma outra, bem mais velha do que ela, e nem se tocava.  Tudo por causa de lugar na arquibancada. Eu até me meti e disse que ela ia chatear a senhora.  Outras duas, de repente, se atracaram. Uma delas usava uma toalha de rosto em volta do pescoço – já se viu que era  pobre. Acho  que era pra enxugar os pinguinhos de chuva ou o suor, e a outra, também mal vestida, puxava a toalha com toda a força. Era um tal de toalha pra lá, toalha pra cá. Elas brigaram tanto que o guarda teve que desapartar a briga. Eu fui saindo como quem não quer nada, o mais rápido que pude. Eu, ein! Como é que pode! Era um encontro da minha igreja, veja só. Entupido de gente. Nem parecia. Acho que ninguém se lembrava mais de Jesus, da reza, do porque  que estavam ali. O pastor nem viu. Devia era falar da falta de educação das pessoas, cada um querendo se dar bem, isso, sim. Era um bom momento pra passar uma lição naquela gentaiada.

A patroa concordou, com restos de riso. A empregada não se ofendeu e voltou a seus afazeres.

Fico pensando, como sempre com a velha cabeça de educadora: por que a escola não educa para essas coisas práticas? Perde seu rico tempo enfiando decoreba nas cabeças, ensinando coisas sem interesse para o aluno, põe de castigo porque não fez o dever de casa ou porque disse um palavrão e pronto. Nem se lembra do quanto faz falta a convivência educada. Não seria este o caminho da paz social?

Maria Lindgren 


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