- Tem certeza de que era um encontro religioso?
- Tenho, D. Maria. Eu estava lá. Fiquei apavorada.
Com voz esgoelada, incomum no dia a dia de seu trabalho,
veias do pescoço quase a pular, a moça dramatizava à dona da
casa os absurdos que tinha presenciado. Ambas liam e
comentavam as notícias do jornal, estes demonstradores
“sagazes” da falta de educação das pessoas, pelo menos, dos
cariocas.
Sobretudo, no trânsito. Nas rodovias que dão acesso às regiões
praianas ou às montanhas, a segunda–feira é prenhe de notícias
de atropelamentos, batidas que acabam transformando as viagens
de lazer em tragédia. Quando simplesmente não batem na volta
do passeio, ou à entrada do túnel Rebouças, no Aterro do
Flamengo, numa rua qualquer, e o trânsito fica um cáos. Um
montão de mal-humorados reinicia os dias de trabalho de cara
fechada. Pudera!
Nas ruas de sinal luminoso mais preguiçoso, às oito, nove da
manhã, começa o buzinaço, ninguém entende porque, pois barulho
de buzina não me parece ser ouvido por sinal luminoso
automático. É gente que considera burulho estridente uma
solução para barbeiragem ou sinal emperrado que ninguém do
governo se propõe a acelerar, não importa qual partido entre
no poder. Honra ao mérito, não se ouve palavrão, graças às
janelas fechadas e o ar condicionado, que funciona verão e
inverno, certamente por medo de assalto. Sexta-feira, então,
dia de pressa dos motoristas e desejo de chegar rápido em
casa, para o ufa, que alívio dos programas de entretenimento
fora ou dentro de casa.
São raros os exemplos de polidez no Rio: um ou outro senhor ou
senhora do tempo antigo ou jovem excepcional, que ainda age
com delicadeza, abrindo a porta do elevador, segurando a mesma
para não esmigalhar ninguém, esperando com paciência a entrada
dos mais velhos e dos carrinhos de bebê. Como no shopping caro
da Zona Sul, cuja porta fecha ao tempo de um suspiro, até para
se ir ao cinema. Em geral, há que correr para sustar a porta,
a gente acaba com dor no dedo de tanto segurar o botão, e no
braço, por conter a porta pesada.
- D. Maria, aqui no Rio, não vejo nada de educação -,
continua a empregada, enquanto a patroa pensa: “
palavra dela não vale muito porque não é carioca, é mineira”.
- Muita grosseria por todo lado. E quando fazem algum favor é
esperando alguma coisa em troca. Nem que seja uma paquera.
Pobre, então, é um horror! Pior que rico. Esse negócio de ter
pena de pobre, no Rio não cola. Aqui o cara anda bem-vestido,
na moda, igual aos que têm grana, mas são uns desaforados, uns
interesseiros.
Aí eu penso, com meus botões de ex-professora de escola
pública: rico tem boas escolas, viaja muito, sabe falar
várias línguas, se educa sem querer; pobre, muitas vezes, não
conclui nem o ensino fundamental. Mesmo assim, há muitas
pessoas endinheiradas que não sabem se comportar. É só passar
num bar do Leblon depois das onze da noite e prestar atenção
aos filhinhos de papai. Saem que nem loucos pela rua onde
moro, dão cada freiada de arrepiar, às vezes, até caem no
canal ou batem de chofre nas vetustas árvores, coitadas,
criando-lhes feridas. Só que os ricos de fato não se veem
pelas ruas. Acho que andam de helicóptero, pois não entra
ninguém muito chique nem nos shppings, nem em carro de alto
luxo.
-
Mas, o rapaz que traz as compras pra você e não cobra, não é
legal?, pergunta D.Maria.
A cena incrível de dois rapazes com as sacolas pesadas, sem
esperar nem gorjeta vem-lhe à mente. E ela, a empregada, à
frente, como se fosse uma sinhá com seus escravos. A difereça
é que não são negros nem andam descalços, como nas gravuras de
Debret. Usam tenis e calça jeans.
- É, mas alguma coisa eles estão querendo. Acho que é pra
eu não comprar nada em outro lugar; o supermercado deles cobra
os olhos da cara. Eles sabem disso e morrem de medo de perder
o emprego. Só pode ser isso.
- Mas, são dois empregados, né mesmo?
- São, mas é tudo pra não ser mandado embora. Tem dois
supermercados juntinhos. Assim, a gente não pula pro outro.
Delicadeza sem interesse, eu não vejo em parte alguma. No
ônibus apinhado, ninguém dá lugar pra grávida de barrigão.
Apesar da seriedade do assunto, D. Maria começou a rir, devido
ao jeito teatral da moça falar. Nisso, era uma popularesca de
marca maior. Sempre cai na gargalhada com os comentários dos
empregados do prédio. Até mesmo quando comentam os hóspedes.
São muito moralistas, não aceitam diferenças de comportamento,
são machistas, falam muito alto, mas têm sua graça.
A moça desandou a falar: tinha argumentação sólida, empirica.
Explicou os vários incidentes de má educação, assistidos no
Sambódromo, um domingo desses.
- Uma dona bem vestida, dessas que andam de cabelo liso da
moda, saia acima do joelho e salto alto, bem pintada, de traço
no olho, sombra, rímel etc., bolsa grandona a tiracolo no
ombro esquerdo, falava desaforo para uma outra, bem mais
velha do que ela, e nem se tocava. Tudo por
causa de lugar na arquibancada. Eu até me meti e disse que ela
ia chatear a senhora. Outras duas, de repente, se atracaram.
Uma delas usava uma toalha de rosto em volta do pescoço – já
se viu que era pobre. Acho que era pra enxugar
os pinguinhos de chuva ou o suor, e a outra, também mal
vestida, puxava a toalha com toda a força. Era um tal de
toalha pra lá, toalha pra cá. Elas brigaram tanto que o guarda
teve que desapartar a briga. Eu fui saindo como quem não quer
nada, o mais rápido que pude. Eu, ein! Como é que pode! Era um
encontro da minha igreja, veja só. Entupido de gente. Nem
parecia. Acho que ninguém se lembrava mais de Jesus, da reza,
do porque que estavam ali. O pastor nem viu.
Devia era falar da falta de educação das pessoas, cada um
querendo se dar bem, isso, sim. Era um bom momento pra passar
uma lição naquela gentaiada.
A patroa concordou, com restos de riso. A empregada não se
ofendeu e voltou a seus afazeres.
Fico pensando, como sempre com a velha cabeça de educadora:
por que a escola não educa para essas coisas práticas? Perde
seu rico tempo enfiando decoreba nas cabeças, ensinando coisas
sem interesse para o aluno, põe de castigo porque não fez o
dever de casa ou porque disse um palavrão e pronto. Nem se
lembra do quanto faz falta a convivência educada. Não seria
este o caminho da paz social?
Maria
Lindgren