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Saio às ruas
para ver o jeito do Rio de Janeiro passar a Semana Santa. Vejo
nas ruas um movimento menor de carros - sinal de que os mais
ricos saíram da cidade, em busca de lazeres e prazeres
contrastantes com os do dia a dia de uma cidade difícil.
Para meu
alívio, não escuto buzinaço ferindo nossos ouvidos, roncos
desesperados de ônibus maltratados e vazios de passageiros, que
se vingam em nós. Poucos carros passam devagar, como se
estivéssemos em cidade de ruas acanhadas, em plena avenida de
duas pistas largas.
Na praça
adiante, ninguém para xingar com boca e buzina o sinal que não
abre, a volta descabida em torno da pracinha para seguir em
frente, quando se vem da Alfredo Russel. Até mesmo na Ataulfo de
Paiva, uma das mais pesadas avenidas do Leblon, pouca agitação,
se é que se pode denominar agitação a um punhado de carros
pingados.
À porta
principal da igreja, porque é de tarde e à noite haverá a
cerimônia do Lava-pés de Cristo, uma ou outra mendiga de cara
conhecida (as crianças de colo já estão andando, meu Deus!)
patenteia a pouca/ nenhuma mudança social fluminense, embora
Lula não admita crise no país, de jeito manera, e o prefeito
novo não pare de dar choques de organização em cima de pontos
fotografáveis pela mídia.
Mais adiante,
no caixa eletrônico do banco Itaú, os retardatários ou os que
trabalham em dia de ponto facultativo, correm para tirar um
dinheirinho que lhes proporcione feriado legal. No elegante
shopping Rio Design, logo ao lado, os cafés têm viciados em bom
número, em busca de um papo regado à cafeína, que os anima para
o gozo do feriadão. Nas lojas, nenhum comprador, com jeito de
pagante, desenfastia as pobres vendedoras desoladas, perdidas
nos preços exorbitantes do vestuário à mostra. Sapatos a, no
mínimo, mais de 300 reais, bolsas de 500, vestidos de 450 ou
mais... Um horror para quem, como eu, mora no bairro porque
calhou de ter vindo há muitos anos, no tempo das vacas mais
magras e da pouca fama do bairro - fama adquirida nas novelas da
Globo..
A gente se
olha e olha para quem passa, toma um gole do néctar cheiroso e
escuro, com variantes de creme de leite branco por cima, dão uma
mordida nas tortas deliciosas, bebem uma aguinha mineral com ou
sem gás para manter a forma na forma de anos anteriores,
conversam em tom baixo, bem diverso do habitual brua-á dos bares
e cafés.
Dou minha
volta pelas escadas rolantes, olho, olho, olho... tomo meu
cafezinho maquiado, ando de volta para meu apart. Em passada de
preguiçosa, aquela tópica de quem disfarça o joelho
meio-emperrado pela artrose dos anos.
Passo de novo
pela igreja, enquanto vai escurecendo, em tarde de tempo bom,
sujeito a chuvas rápidas do outono quente. As mendigas estão
sentadas em seus velhos banquinhos, obséquio de alguma madame
para tirar o sentimento de culpa, com suas tralhas ao lado, aí
incluindo as crianças. Sem pentear os cabelos ou de pano
amarrado à cabeça, cara e membros reluzentes de pouca água e
muito suor, vestes sujas, mas com resquícios da moda atual
porque herdadas, nem pedem mais dinheiro porque sabem que vão
receber dos de sempre. Salvo um ou outro menino " mais abusado".
Vêm das favelas do Vidigal e da Rocinha ou mesmo de subúrbios
longínquos fazer a vida na calçada da igreja.
Nesse
momento, os fiéis, de roupa escura, como convém à Semana, sobem
os degraus, em geral, em passo lento porque idosos e crianças
pequenas. Vão se aboletando nos bancos à espera da cerimônia da
humildade de Cristo. A expressiva maioria é de bem vestidos, com
escassos representantes da comunidade " carente".
Sigo meu
caminho, uma ponta de remorso a me instigar à adesão aos mais
crentes. Não, não posso. Vou encontrar meu marido que voltou de
viagem. Daí que sigo em frente algumas quadras, para passar na
padaria Rio-Lisboa e no recém endeusado Talho Capixaba, que nos
provê delícias de farinha de trigo branca e integral, queijos
nacionais e importados, frios cortado em lâminas finíssimas.
O movimento
das madames no Talho ainda é grande. E olha que começo às nove
da manhã. Observo uma senhora recém plastificada, com uma baita
inchação nos lábios e debaixo das sobrancelhas postiças. No alto
da cabeça, um belo chapéu de palha a protege da chuva rala
apenas inkiciada. Afinal, é quase verão na cidade da quentura
sempiterna.
Continuo pela
rua mais chique do comércio de quitutes e lojas privées
do bairro: a rua Dias Ferreira. Vazia, civilizada, espera, com
ansiedade a noite dos ricos para engalanar-se e lhes abrir os
braços discretos, mas enfeitados.
Tomo outro
café para tapear a fome e penso, pela segunda vez, em Jesus
Cristo da Semana Santa. Cristo vai morrer na cruz amanhã.
" Quê que eu
estou fazendo aqui, meu Deus?!!!!!!"
Maria Lindgren
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