Maria Lindgren

Habemus Páscoa

Saio às ruas para ver o jeito do Rio de Janeiro passar a Semana Santa. Vejo nas ruas um movimento menor de carros - sinal de que os mais ricos saíram da cidade, em busca de lazeres e prazeres contrastantes com os do dia a dia de uma cidade difícil.

Para meu alívio, não escuto buzinaço ferindo nossos ouvidos, roncos desesperados de ônibus maltratados e vazios de passageiros, que se vingam em nós. Poucos carros passam devagar, como se estivéssemos em cidade de ruas acanhadas, em plena avenida de duas pistas largas.

Na praça adiante, ninguém para xingar com boca e buzina o sinal que não abre, a volta descabida em torno da pracinha para seguir em frente, quando se vem da Alfredo Russel. Até mesmo na Ataulfo de Paiva, uma das mais pesadas avenidas do Leblon, pouca agitação, se é que se pode denominar agitação a um punhado de carros pingados.

À porta principal da igreja, porque é de tarde e à noite haverá a cerimônia do Lava-pés de Cristo, uma ou outra mendiga de cara conhecida (as crianças de colo já estão andando, meu Deus!) patenteia a pouca/ nenhuma mudança social fluminense, embora Lula não admita crise no país, de jeito manera, e o prefeito novo não pare de dar choques de organização em cima de pontos fotografáveis pela mídia.

Mais adiante, no caixa eletrônico do banco Itaú, os retardatários ou os que trabalham em dia de ponto facultativo, correm para tirar um dinheirinho que lhes proporcione feriado legal. No elegante shopping Rio Design, logo ao lado, os cafés têm viciados em bom número, em busca de um papo regado à cafeína, que os anima para o gozo do feriadão. Nas lojas, nenhum comprador, com jeito de pagante, desenfastia as pobres vendedoras desoladas, perdidas nos preços exorbitantes do vestuário à mostra. Sapatos a, no mínimo, mais de 300 reais, bolsas de 500, vestidos de 450 ou mais... Um horror para quem, como eu, mora no bairro porque calhou de ter vindo há muitos anos, no tempo das vacas mais magras e da pouca fama do bairro - fama adquirida nas novelas da Globo..

A gente se olha e olha para quem passa, toma um gole do néctar cheiroso e escuro, com variantes de creme de leite branco por cima, dão uma mordida nas tortas deliciosas, bebem uma aguinha mineral com ou sem gás para manter a forma na forma de anos anteriores, conversam em tom baixo, bem diverso do habitual brua-á dos bares e cafés.

Dou minha volta pelas escadas rolantes, olho, olho, olho... tomo meu cafezinho maquiado, ando de volta para meu apart. Em passada de preguiçosa, aquela tópica de quem disfarça o joelho meio-emperrado pela artrose dos anos.

Passo de novo pela igreja, enquanto vai escurecendo, em tarde de tempo bom, sujeito a chuvas rápidas do outono quente. As mendigas estão sentadas em seus velhos banquinhos, obséquio de alguma madame para tirar o sentimento de culpa, com suas tralhas ao lado, aí incluindo as crianças. Sem pentear os cabelos ou de pano amarrado à cabeça, cara e membros reluzentes de pouca água e muito suor, vestes sujas, mas com resquícios da moda atual porque herdadas, nem pedem mais dinheiro porque sabem que vão receber dos de sempre. Salvo um ou outro menino " mais abusado". Vêm das favelas do Vidigal e da Rocinha ou mesmo de subúrbios longínquos fazer a vida na  calçada da igreja.

Nesse momento, os fiéis, de roupa escura, como convém à Semana, sobem os degraus, em geral, em passo lento porque idosos e crianças pequenas. Vão se aboletando nos bancos à espera da cerimônia da humildade de Cristo. A expressiva maioria é de bem vestidos, com escassos representantes da comunidade " carente".

Sigo meu caminho, uma ponta de remorso a me instigar à adesão aos mais crentes. Não, não posso. Vou encontrar meu marido que voltou de viagem. Daí que sigo em frente algumas quadras, para passar na padaria Rio-Lisboa e no recém endeusado Talho Capixaba, que nos provê delícias de farinha de trigo branca e integral, queijos nacionais e importados, frios cortado em lâminas finíssimas.

O movimento das madames no Talho ainda é grande. E olha que começo às nove da manhã. Observo uma senhora recém plastificada, com uma baita inchação nos lábios e debaixo das sobrancelhas postiças. No alto da cabeça, um belo chapéu de palha a protege da chuva rala  apenas inkiciada. Afinal, é quase verão na cidade da quentura sempiterna.

Continuo pela rua mais chique do comércio de quitutes e lojas privées do bairro: a rua Dias Ferreira. Vazia, civilizada, espera, com ansiedade a noite dos ricos para engalanar-se e lhes abrir os braços discretos, mas enfeitados.

Tomo outro café para tapear a fome e penso, pela segunda vez, em Jesus Cristo da Semana Santa. Cristo vai morrer na cruz amanhã.

" Quê que eu estou fazendo aqui, meu Deus?!!!!!!"

Maria Lindgren

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