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Continuo
minha reflexão sobre A Semana Santa no Rio de Janeiro,
interrompendo-a para um almoço na casa de minha sogra na
Sexta-Feira.
Bacalhau à
mesa, canjica à sobremesa, tudo o que eu gosto e não como sempre
para não ganhar mais quilos do que os que me incomodam todos os
dias não santos ou de santos mais fracotes.
Ah! Malditas
dietas para manter a linha! Meus ancestrais portugueses só agora
acordaram para elas, daí que sofro e muito. De volta do almoço,
passo pelas padarias e mercados do Leblon para os indefectíveis
ovos de chocolate de ridículos coelhos. Um susto o preço. O mais
barato, por conta da padaria ter vendido a valer, custou vinte e
tantos reais na "oferta". Gastamos uma fábula nos mais de dez,
para dar aos filhos, mãe, sobrinho, empregados...
Em plena
Sexta-Feira Santa, estão apinhados os bares. Gente que veio da
praia se esconde dos chuviscos do anoitecer de abril,
amenizando-os com chope e alegria. Conversa fútil, com certeza,
ao molho de gargalhadas, sem funghi. Começamos a observar pela
janela do carro os mais famosos locais de alcoólicos não
anônimos. Encerramos no mais novo, o herdeiro de uma biboca
leblonina que ficou tão conhecido a ponto de esturricar e
esticar pelas calçadas de pedestres, perdendo a graça do
improviso em tonéis e a velha freguesia.
Todos no
mesmo arrepio de viver o feriadão, sem lembrar do suplício de
Nosso Senhor, menos eu que volto ao lar e descanso do almoço na
santa paz de nosso apart. Com chuva fina e temperatura amena,
lembra "mal acumparando", como dizia minha mãe, Itaipava
ou Nova Friburgo.
À noite, a
tevê nos joga, entre outros programas menos recomendáveis, a fé
cristã dos brasileiros, que vão à procissão e à Via Sacra.
Emocionante, a ponto de me umedecer os olhos. Jeito e cara de
povão mesmo, que as madames, como eu, não se passam para
demonstrações de fé ao vivo, pelas ruas das cidades.
Lindo, muito
lindo tudo. Prova de que um dos erros dos comunistas de Moscou e
adjacências foi querer acabar com a fé que, realmente, move
montanhas.
Ou, pelo
menos, consola os aflitos, dá-lhes esperança de alívio. Um curou
a cabeça que andava meio ruim; outro, o mal do estômago, outra,
os males do amor perdido... E quem disse que fé não cura,
enganou-se. Estão aí os psicólogos que não me deixam mentir. Até
câncer precisa de fé e esperança, se não nenhuma mulher
resistiria a ficar careca com quimioterapia, em tempos de
endeusamento dos cabelos longos.
Sábado de
Aleluia começa bem, com leitura dos suplementos literários que,
graças a Deus, ainda existem com outro nome, hidroginástica
abençoada e ida rápida à loja natureba para comprar benditos
chás que me acalmam, maravilha de pós e farelos que me ativam o
intestino superpreguiçoso. E ainda por cima me oferecem Ovo de
Páscoa diet, para meu diabético predileto se regalar no domingo.
Ninguém compra absolutamente nada no shopping
fantasmagórico, usualmente cheio. E olhe que o tempo nublou
outra vez, invadindo o céu azul da manhã. È a crise mesmo. Não
só a que atinge os países ricos, mas a eterna crise da classe
média brasileira. Aquela que me acompanha a vida inteira e me
faz achar tudo pela hora da morte, em minha cidade, pelo menos.
Os
"choques de organização" do prefeito atual não chegam na Semana
Santa e há pedintes nas ruas, em bairro pouco afeito à caridade
viária.
Faço
as comprinhas ralas e, para espanto real das vendedoras,
desejo-lhes Feliz Páscoa. Até aquele preciso instante, acho que
o silêncio ocupara a fala católica e a Páscoa da Ressureição de
Cristo não fora lembrada.
Pelo
jeito, nem será amanhã, para mim, o domingo mais bonito da
cristandade.
Entro no
elevador sorridente, primaveril, em pleno outono, porque pronta
a desejar Feliz Páscoa à vizinha nova a meu lado. Esbarro com a
cara cerrada a grades e desisto.
Maria Lindgren |