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Quem disse que feriadão passa
rápido, enganou-se. O meu arrastou-se em passo de lesma ou
cágado, ritmo de preguiça ou caramujo, sei lá. Foi um contar de
horas que eu só não digo infernal porque, cruz credo, estamos em
Semana Santa e o local do adjetivo não é compatível com o
momento. Ainda que se tenha quase certeza de que para lá foi
Pilatos, como o foi toda a corja que torturou e matou o Filho de
Deus, lá perto de onde hoje se matam milhares de filhos do
homem, sejam eles cristãos, muçulmanos ou israelitas.
De
meia em meia hora, uma passada de olhos nos ponteiros quase
inertes dos relógios, espalhados pela casa, nos estampa a
lentidão irritante. Tenho direito de sentir a vida passando
depressa. Afinal, sou uma quase-anciã, ora essa!
Depois de muita lenga-lenga do sábado de Aleluia, no qual
ninguém grita Aleluia nem uma vezinha e, em alguns bairros da
cidade, se malha o Judas, pensando em outros mais atuais, como o
jornal de ontem estampou, me entalo com o bacalhau da tradição
lusitana e os camarões do jantar com a família em restaurante, o
sono me dá pesadelo fatal e o acordar cinza do domingo que, pelo
direito, seria azul sem mácula, nem ressaca para impedir os
não-religiosos de se espremer na praia.
Manhã
morna, preparo-me para rumar à missa, pedir perdão por ter
faltado a tudo o que a igreja nos proporciona nesta semana,
sobretudo à Via Sacra na Praça Antero de Quental, que me exporia
aos "pecadores" do chope.
E nada
de chegar a hora de envergar o traje da missa, caprichado por
causa da santidade inigualável do dia.
O café
de minha confecção, apesar da marca frenética - chama-se Samba
-, sai desmilinguido demais: falta de prática de dona de casa
faz-nada. Em todo caso, junto com o banho frio outonal quase
gelado, reanima-me e escolho, com o maior cuidado, a blusa preto
e branca, que combina à perfeição com o medalhão de prata,
presente de Páscoa do maridão, a calça quase cinza de tornozelo
à mostra, a sapatilha preta e o bolsão preto com toque verde -
um charme que eu me dei em dia de cabeça down.
A dieta
de farelos ainda não me tirou os quilinhos a mais, porém o
espelho me mostra razoável silhueta. Posso enfrentar os poucos
olhares das senhoras mais velhas do que eu, com galhardia.
A
igreja, coitada, esforça-se para ficar menos caída devido a
obras, mas não dá. O ambiente é de decadência favelar, com muita
iluminação e flor no altar-mor, mais o pano branco de Cristo bem
lavado, colocado sobre a cruz escura. A cara sofredora de Nosso
Senhor, com a coroa de espinhos, que sempre me dá tremores, não
muda com a belíssima celebração da Ressurreição, que deveria
sair de todos os poros das paredes e das pessoas.
A
alegria se manifesta apenas à hora do Paz em Cristo, quando
todos sorriem e as crianças presentes, em geral, alunos do
Colégio e seus irmãos menores, correm a abraçar o pároco, o que
me engasga, como de hábito. E eu que não tenho netos me frustro
de novo. Enfim...
Depois,
o almoço a dois e de novo a solidão da Paixão. Salva-me a
leitura dos suplementos. Mais uma vez, milagrosos cadernos
literários! Mostram-me a escritora americana de New Rochelle
que, como eu, é invisível nas livrarias, falam de ditaduras de
Stalin e Hitler, dos vícios do tabaco e do chocolate, da memória
emocional...
Ué, não
é que esqueceram de falar da Páscoa?!
Mas eu,
não. Acho a Páscoa melhor do que o Natal. Levo o ano todo à
espera deste dia miraculoso da Renovação, dê no que dê. E
imploro a Deus que renove nossa vida com Seu sopro divino, que
renove a mente e as ações dos mandatários do mundo inteiro,
tornando-os decentes patriotas, zelosos na união dos povos, com
ou sem G20, renove as promessas de igualdade e fraternidade de
nosso presidente tão promissor e seus assessores, ajudando-os a
levar a cabo os propósitos de antes do poder de fazer justiça,
sempre que necessária, promover, sem exclusão, o bem-estar do
povo, a paz a cada dia, acabando com a violência assassina do
tráfico de drogas, da polícia, do trânsito...
Feliz
Páscoa durante todo o ano, minha gente!
Renovemo-nos!
Maria Lindgren |