Maria Lindgren

 

Habemus Páscoa III 

        Quem disse que feriadão passa rápido, enganou-se. O meu arrastou-se em passo de lesma ou cágado, ritmo de preguiça ou caramujo, sei lá. Foi um contar de horas que eu só não digo infernal porque, cruz credo, estamos em Semana Santa e o local do adjetivo não é compatível com o momento. Ainda que se tenha quase certeza de que para lá foi Pilatos, como o foi toda a corja que torturou e matou o Filho de Deus, lá perto de onde hoje se matam milhares de filhos do homem, sejam eles cristãos, muçulmanos ou israelitas.

        De meia em meia hora, uma passada de olhos nos ponteiros quase inertes dos relógios, espalhados pela casa, nos estampa a lentidão irritante. Tenho direito de sentir a vida passando depressa. Afinal, sou uma quase-anciã, ora essa!

        Depois de muita lenga-lenga do sábado de Aleluia, no qual ninguém grita Aleluia nem uma vezinha e, em alguns bairros da cidade, se malha o Judas, pensando em outros mais atuais, como o jornal de ontem estampou, me entalo com o bacalhau da tradição lusitana e os camarões do jantar com a família em restaurante, o sono me dá pesadelo fatal e o acordar cinza do domingo que, pelo direito, seria azul sem mácula, nem ressaca para impedir os não-religiosos de se espremer na praia.

        Manhã morna, preparo-me para rumar à missa, pedir perdão por ter faltado a tudo o que a igreja nos proporciona nesta semana, sobretudo à Via Sacra na Praça Antero de Quental, que me exporia aos "pecadores" do chope.

       E nada de chegar a hora de envergar o traje da missa, caprichado por causa da santidade inigualável do dia.

       O café de minha confecção, apesar da marca frenética - chama-se Samba -,  sai desmilinguido demais: falta de prática de dona de casa faz-nada. Em todo caso, junto com o banho frio outonal quase gelado, reanima-me e escolho, com o maior cuidado, a blusa preto e branca, que combina à perfeição com  o medalhão de prata, presente de Páscoa do maridão, a calça quase cinza de tornozelo à mostra, a sapatilha preta e o bolsão preto com toque verde - um charme que eu me dei em dia de cabeça down.

     A dieta de farelos ainda não me tirou os quilinhos a mais, porém o espelho me mostra razoável silhueta. Posso enfrentar os poucos olhares das senhoras mais velhas do que eu, com galhardia.

      A igreja, coitada, esforça-se para ficar menos caída devido a obras, mas não dá. O ambiente é de decadência favelar, com muita iluminação e flor no altar-mor, mais o pano branco de Cristo bem lavado, colocado sobre a cruz escura. A cara sofredora de Nosso Senhor, com a coroa de espinhos, que sempre me dá tremores, não muda com a belíssima celebração da Ressurreição, que deveria sair de todos os poros das paredes e das pessoas.

      A alegria se manifesta apenas à hora do Paz em Cristo, quando todos sorriem e as crianças presentes, em geral, alunos do Colégio e seus irmãos menores, correm a abraçar o pároco, o que me engasga, como de hábito. E eu que não tenho netos me frustro de novo.  Enfim...

     Depois, o almoço a dois e de novo a solidão da Paixão. Salva-me a leitura dos suplementos. Mais uma vez, milagrosos cadernos literários! Mostram-me a escritora americana de New Rochelle que, como eu, é invisível nas livrarias, falam de ditaduras de Stalin e Hitler, dos vícios do tabaco e do chocolate, da memória emocional...

     Ué, não é que esqueceram de falar da Páscoa?!

     Mas eu, não. Acho a Páscoa melhor do que o Natal. Levo o ano todo à espera deste dia miraculoso da Renovação, dê no que dê. E imploro a Deus que renove nossa vida com Seu sopro divino, que renove a mente e as ações dos mandatários do mundo inteiro, tornando-os decentes patriotas, zelosos na união dos povos, com ou sem G20, renove as promessas de igualdade e fraternidade de nosso presidente tão promissor e seus assessores, ajudando-os a levar a cabo os propósitos de antes do poder de fazer justiça, sempre que necessária, promover, sem exclusão, o bem-estar do povo, a paz a cada dia, acabando com a violência assassina do tráfico de drogas, da polícia, do trânsito...

     Feliz Páscoa durante todo o ano, minha gente!

     Renovemo-nos!

 Maria Lindgren 

voltar