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No palco, uma aula para quinze famintos de tango. O salão
redondo, preparado para shows do tipo Las Vegas, não dava lá
muito certo para aula de dança de mais de vinte pessoas. O dia
cinzento criara ondas maiores no mar, jogava todo o mundo para
um lado e, quando se pegava o jeito deste lado, descambava-se
para o outro.
Dentro do navio, a tarde com jeito de noite, devido à iluminação
artificial e ao salão sem janelas, animava-se por conta dos
dançarinos. Pares futuros de homens e mulheres dos dez aos
setenta tentavam imitar os passos do professor, pés firmes ao
chão, alçados hora um, hora outro, à ordem do mestre e da
música. No início, ninguém segurava ninguém. O navio seguia em
compasso diferente daquele exigido, não importava. Alguns
tropeços nunca impediram o ser humano de alcançar sua meta, uma
vez decidido.
O condutor dos passos e compassos insistia, eco de voz
de sargento, em desacordo com a figura meio franzina, por toda
parte:
- Pelo menos, os passos essências vocês vão aprender. Tango não
se aprende assim em uma aula apenas. Às vezes, leva uma vida.
Quatro, três, dois, um, quatro,três, dois, um, quatro três,
dois, um...
Era um rapaz de trinta anos, no máximo, bem baixo de
estatura, pele clara, rabo de cavalo de cabeleira farta, menos
espessa nas têmporas - indício de calvície futura. Sotaque de
paulista, pinta de argentino, em barco espanhol, sim sinhô. Mas,
que garra! Desde cedo, pela manhã, comandava a ginástica rítmica
do deck, perto da piscina e até os mais velhos entravam no
exercício, encorajados pela voz de comando. Um animador de boa
estirpe e muito molejo no corpo.
Para quem assistia, com medo de se expor ou cair, uma
experiência inesquecível de tenacidade, principalmente das
mulheres, de todos os feitios de corpo, sem nenhum pudor. Um
despojamento do medo ao olhar crítico, a cada pulo errado, a
cada rebolar fora de hora, sempre seguidos de risos, muitos
risos, a cada erro.
Desde cedo, a moça se destacava: não era nada bonita. De corpo
esquisito, quase de homem, roupa nada adequada à dança de
qualquer tipo, parecia estrangeira. Um metro e setenta e cinco
de pernas osso puro, encimadas por tronco atarracado e braços
sem jeito. Cabelos meio crespos sem viço, cortados à altura do
queixo, cara angulosa, dentuça piorada em aparelho, blusinha de
malha a marcar barriga, calça jeans e tênis de bater pernas.
Só, completamente só, no primeiro dia da ginástica, assim
continuou na aula de tango à tarde. Sorte que não se percebia
solidão de ninguém: dançavam em fileira de homens de um lado,
mulheres do outro.
Todos erravam bastante, como era natural em piso instável: em
vez do pé direito à frente, pé esquerdo, e vamos lá... Aos
poucos, alguns foram tomando forma de dançarinos, até mesmo uma
ou duas crianças de dez, doze anos, em desafio aos adultos.
Então, o mestre mandou formarem pares. Chegara a hora de
experimentar a grande aventura a dois, abraçados em paixão pelo
ritmo. Pares esdrúxulos, quase sempre.
Procurei a moça. Estava mais à minha esquerda, em fila de um só.
Dançava abraçada com um fantasma, toda contente, queixo de
orgulho.
Passei por ela a caminho do jantar e não resisti:
- Você aprendeu bem o tango hoje?
- Claro, assim que chegar de volta a minha casa, entro para uma
aula bem mais adiantada. O principal, já sei. Vai ser mole,
mole.
Maria Lindgren
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