Maria Lindgren

 Hino À Vida I

No palco, uma aula para quinze famintos de tango. O salão redondo, preparado para shows do tipo Las Vegas, não dava lá muito certo para aula de dança de mais de vinte pessoas. O dia cinzento criara ondas maiores no mar, jogava todo o mundo para um lado e, quando se pegava o jeito deste lado, descambava-se para o outro.

Dentro do navio, a tarde com jeito de noite, devido à iluminação artificial e ao salão sem janelas, animava-se por conta dos dançarinos. Pares futuros de homens e mulheres dos dez aos setenta tentavam imitar os passos do professor, pés firmes ao chão, alçados hora um, hora outro, à ordem do mestre e da música. No início, ninguém segurava ninguém. O navio seguia em compasso diferente daquele exigido, não importava. Alguns tropeços nunca impediram o ser humano de alcançar sua meta, uma vez decidido.

        O condutor dos passos e compassos insistia, eco de voz de sargento, em desacordo com a figura meio franzina, por toda parte:

 - Pelo menos, os passos essências vocês vão aprender. Tango não se aprende assim em uma aula apenas. Às vezes, leva uma vida. Quatro, três, dois, um, quatro,três, dois, um, quatro três, dois, um...

        Era um rapaz de trinta anos, no máximo, bem baixo de estatura, pele clara, rabo de cavalo de cabeleira farta, menos espessa nas têmporas - indício de calvície futura. Sotaque de paulista, pinta de argentino, em barco espanhol, sim sinhô. Mas, que garra! Desde cedo, pela manhã, comandava a ginástica rítmica do deck, perto da piscina e até os mais velhos entravam no exercício, encorajados pela voz de comando. Um animador de boa estirpe e muito molejo no corpo.

        Para quem assistia, com medo de se expor ou cair, uma experiência inesquecível de tenacidade, principalmente das mulheres, de todos os feitios de corpo, sem nenhum pudor. Um despojamento do medo ao olhar crítico, a cada pulo errado, a cada rebolar fora de hora, sempre seguidos de risos, muitos risos, a cada erro.

Desde cedo, a moça se destacava: não era nada bonita. De corpo esquisito, quase de homem, roupa nada adequada à dança de qualquer tipo, parecia estrangeira. Um metro e setenta e cinco de pernas osso puro, encimadas por tronco atarracado e braços sem jeito. Cabelos meio crespos sem viço, cortados à altura do queixo, cara angulosa, dentuça piorada em aparelho, blusinha de malha a marcar barriga, calça jeans e tênis de bater pernas.

Só, completamente só, no primeiro dia da ginástica, assim continuou na aula de tango à tarde. Sorte que não se percebia solidão de ninguém: dançavam em fileira de homens de um lado, mulheres do outro.

Todos erravam bastante, como era natural em piso instável: em vez do pé direito à frente, pé esquerdo, e vamos lá... Aos poucos, alguns foram tomando forma de dançarinos, até mesmo uma ou duas crianças de dez, doze anos, em desafio aos adultos. Então, o mestre mandou formarem pares. Chegara a hora de experimentar a grande aventura a dois, abraçados em paixão pelo ritmo. Pares esdrúxulos, quase sempre.

Procurei a moça. Estava mais à minha esquerda, em fila de um só. Dançava abraçada com um fantasma, toda contente, queixo de orgulho.

Passei por ela a caminho do jantar e não resisti:

- Você aprendeu bem o tango hoje?

- Claro, assim que chegar de volta a minha casa, entro para uma aula bem mais adiantada. O principal, já sei. Vai ser mole, mole.

Maria Lindgren

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