Maria Lindgren

 Hino À Vida II

Se me perguntarem se gostei do cruzeiro marítimo, respondo que SIM, incontinente. Não porque fosse lá essas coisas; não, porque gozava da companhia do marido e de dois amigos; não, porque a comida fosse farta, não, por causa dos belos por-de-sol a que assistimos embasbacados; não, pelos shows todas as noites, e ainda não, por Buenos Aires que adoro, Punta Del Este que vi de passagem e amei, por Itajaí, modesta e graciosa, cidade-passagem para Camboriú, praia em que mora uma de minhas companheiras escritoras de internet.

Nada disso tem vez no meu correr de memórias. O que me ficou  para sempre: os doentes a bordo. Gente, nunca vi tantas pessoas aleijadas felizes, como as que percebi neste abençoado cruzeiro.

Primeiro, o choque: um conhecido de outros tempos que, envelhecido, em cadeira de rodas, seguia o cortejo para o restaurante, desde o café da manhã, com um enfermeiro e a mulher, famosos ele e ela desde os bons tempos do auge do rádio, junto com três ou quatro amigos mais chegados.

Depois, a percepção do comportamento comme il faut Vestiam-se a capricho, em todas as refeições, o que nem sempre ocorria com os passageiros, alguns esquecidos de que jantar em navio é coisa séria: pede pompa e circunstância, mesmo na modernidade do verão. Passageiros de Titanic, bem formais, o casal e seus companheiros envergavam trajes descompromissados, apenas quando o sol lhes exigia. À noite,  roupas finas à hora do jantar no salão de gala.

 Em nenhum momento em que nos encontramos, queixas da vida, por pequenas que fossem. Sorrisos e elogios. Nenhuma recordação do tempo que passou.

Depois, a senhora de sessenta e poucos anos, que andava com o auxílio de andador vermelho e preto, de luxo mesmo, certamente em homenagem ao Flamengo campeão. Emocionava-me sua sapatilha preta, visivelmente própria para andar melhor, e as duas amigas que não a largavam, em todas as horas. E as roupas sempre vistosas, caprichadas, não importam as mazelas corporais.

 O que mais me tocou o coração, às vezes tão farto de queixumes: um certo momento da hora da dança pós-show, no salão redondo, depois das onze. Não tocavam tango, dessa vez, mas um bolero clássico de meus tempos de mocinha: El día em que me quieras, las rosas se engalanam...Um dos animadores do barco dela se aproximou, vencendo o andador que repousava, pegou-a pela cintura e ela, aquela mesma que necessitava de apoio para andar, bailou no ritmo, sem perdê-lo um instante.  Ginger Rogers com seu Fred Astaire negro.

Alegria no rosto da moça, lágrimas contidas em meus olhos, tive certeza de que a dança reconstrói corpo e alma.

Mais uma aparição: um homem de chamar a atenção de qualquer mulher, muito alto e espadaúdo, tipo de rancheiro rico do Rio Grande do Sul, pede que se espere para entrar no elevador. Não perco o momento de mostrar simpatia. Sorriso aos lábios, deixo-o passar.

Dentro do elevador, percorro o moço de cima a baixo, com discrição. Eis que me deparo com sua perna direita muito atrofiada, por desastre ou de nascença, e uma bengala de madeira que lhe presta auxílio elegante. O moço andou mais depressa que eu para o restaurante, com jeito de que ia mandar brasa num dos bifões do cardápio.

 Flash que pouco durou, desarmou-me o vício de viver a reclamar de achaques

Por fim, o senhor de seus setenta e tantos anos, com metade do rosto coberto por esparadrapos, magro, encurvado, mas firme em sua cadeira de roda, empurrado pela mulher para perto da janela de vista deslumbrante. Assustada a princípio, vi que, deixado a sós, não se mexeu: juro que se extasiava com o marzão.

Aí foi demais. Não tive coragem de falar com ele, percebi que não teria resposta por sua mudez, no meio do barulho ao redor. Permaneceu inerte, olhar distante de quem rememora ou sonha, até a mulher lhe trazer a sopa do dia..

Pensei nessa gente depois que voltei, ternura a me invadir as entranhas.  Acostumei-me com eles de tal modo que, em toda a viagem, não temia nem um pouco sua visão de diferentes, porque eles não se percebem como tal. São o que são e só.

E eu que estava pronta a falar mal do passadio da viagem, morri de vergonha.

Maria Lindgren

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