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Se me perguntarem se gostei do cruzeiro marítimo, respondo que
SIM, incontinente. Não porque fosse lá essas coisas; não, porque
gozava da companhia do marido e de dois amigos; não, porque a
comida fosse farta, não, por causa dos belos por-de-sol a que
assistimos embasbacados; não, pelos shows todas as noites, e
ainda não, por Buenos Aires que adoro, Punta Del Este que vi de
passagem e amei, por Itajaí, modesta e graciosa, cidade-passagem
para Camboriú, praia em que mora uma de minhas companheiras
escritoras de internet.
Nada disso tem vez no meu correr de memórias. O que me ficou
para sempre: os doentes a bordo. Gente, nunca vi tantas pessoas
aleijadas felizes, como as que percebi neste abençoado cruzeiro.
Primeiro, o choque: um conhecido de outros tempos que,
envelhecido, em cadeira de rodas, seguia o cortejo para o
restaurante, desde o café da manhã, com um enfermeiro e a
mulher, famosos ele e ela desde os bons tempos do auge do rádio,
junto com três ou quatro amigos mais chegados.
Depois, a percepção do comportamento comme il faut
Vestiam-se a capricho, em todas as refeições, o que nem sempre
ocorria com os passageiros, alguns esquecidos de que jantar em
navio é coisa séria: pede pompa e circunstância, mesmo na
modernidade do verão. Passageiros de Titanic, bem formais, o
casal e seus companheiros envergavam trajes descompromissados,
apenas quando o sol lhes exigia. À noite, roupas finas à hora
do jantar no salão de gala.
Em nenhum momento em que nos encontramos, queixas da vida, por
pequenas que fossem. Sorrisos e elogios. Nenhuma recordação do
tempo que passou.
Depois, a senhora de sessenta e poucos anos, que andava com o
auxílio de andador vermelho e preto, de luxo mesmo, certamente
em homenagem ao Flamengo campeão. Emocionava-me sua sapatilha
preta, visivelmente própria para andar melhor, e as duas amigas
que não a largavam, em todas as horas. E as roupas sempre
vistosas, caprichadas, não importam as mazelas corporais.
O que mais me tocou o coração, às vezes tão farto de queixumes:
um certo momento da hora da dança pós-show, no salão redondo,
depois das onze. Não tocavam tango, dessa vez, mas um bolero
clássico de meus tempos de mocinha: El día em que me quieras,
las rosas se engalanam...Um dos animadores do barco dela se
aproximou, vencendo o andador que repousava, pegou-a pela
cintura e ela, aquela mesma que necessitava de apoio para andar,
bailou no ritmo, sem perdê-lo um instante. Ginger Rogers com
seu Fred Astaire negro.
Alegria no rosto da moça, lágrimas contidas em meus olhos, tive
certeza de que a dança reconstrói corpo e alma.
Mais uma aparição: um homem de chamar a atenção de qualquer
mulher, muito alto e espadaúdo, tipo de rancheiro rico do Rio
Grande do Sul, pede que se espere para entrar no elevador. Não
perco o momento de mostrar simpatia. Sorriso aos lábios, deixo-o
passar.
Dentro do elevador, percorro o moço de cima a baixo, com
discrição. Eis que me deparo com sua perna direita muito
atrofiada, por desastre ou de nascença, e uma bengala de madeira
que lhe presta auxílio elegante. O moço andou mais depressa que
eu para o restaurante, com jeito de que ia mandar brasa num dos
bifões do cardápio.
Flash que pouco durou, desarmou-me o vício de viver a reclamar
de achaques
Por fim, o senhor de seus setenta e tantos anos, com metade do
rosto coberto por esparadrapos, magro, encurvado, mas firme em
sua cadeira de roda, empurrado pela mulher para perto da janela
de vista deslumbrante. Assustada a princípio, vi que, deixado a
sós, não se mexeu: juro que se extasiava com o marzão.
Aí foi demais. Não tive coragem de falar com ele, percebi que
não teria resposta por sua mudez, no meio do barulho ao redor.
Permaneceu inerte, olhar distante de quem rememora ou sonha, até
a mulher lhe trazer a sopa do dia..
Pensei nessa gente depois que voltei, ternura a me invadir as
entranhas. Acostumei-me com eles de tal modo que, em toda a
viagem, não temia nem um pouco sua visão de diferentes, porque
eles não se percebem como tal. São o que são e só.
E eu que estava pronta a falar mal do passadio da viagem, morri
de vergonha.
Maria Lindgren
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