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“ Cachorro também é um ser
humano!” – frase de Ministro do Governo Collor
Tão logo começou a falar, Lila
sonhou um cachorro. De raça ou vira-lata mesmo. Filha única, o
que lhe importava era a companhia. O pai, homem econômico de
palavras, resmungava a negativa por cima dos óculos, enquanto
lia o jornal:
-
Bicho em casa é sujeira e
amolação.
A menina nem chorar podia:
recomendação da mãe, para que o pai não percebesse lágrimas
ruidosas. O homem, do tipo “falou tá falado”, não admitia
réplica. Verdade que nunca batera na garota, mas um grito seu
era uivo de lobo: calava o mundo.
A família morava em condomínio de
casas confortáveis. Logo, prolífero de cães de raça. Bem lavados
e escovados, por mais pêlos que tivessem; saúde garantida por
vacinas e veterinários de luxo; alimentados com ração especial e
água sem cloro. Indiscutivelmente desejáveis. Buldogs,
fox-terries, beagles ...cruzavam pela rua,
saltitantes, felizes, ao lado dos donos. Olhar pedinte de Lila,
inútil
- Seu pai não quer. Justificativa
de mãe não chegada a bichos.
A menina cresceu, pois,
solitária. Até encontrar-se, certa manhã, na trilha de cooper
do condomínio, com um dos rapazes sarados das redondezas,
moreno de feições gentis. Sem querer, esbarraram-se, em sorriso
mútuo. De imediato, Lila perguntou, sem tempo de refletir:
- Você gosta de
cachorro?
Nunca um “sim” fora
alegria tamanha para a jovem obcecada. O sol de outono
expandiu-se em luz e calor, com gosto de praia limpa; as
flores-ornamento da pista de correr desabrocharam, em mágica de
cores e espécies; as árvores cumpriram à risca seu dever de
sombrear; os ventos fortes da época envergonharam-se,
tornaram-se em brisa. E as pernas da menina-moça adquiriram
maior velocidade, emparelhadas com as do jovem, namorado
instantâneo. L´amour...
Nenhum dos dois quis saber o
que faziam na vida, que outros gostos cultivavam, nada. Ligados
pelo gosto por cachorros, união perfeita.
Em menos de um ano, casamento.
Sem pompa, nem lua-de-mel, para rápido poderem curtir casa nova
e....um beagle marron e branco, pequenino ainda, de olhos
enormes e doces, admirados a exclamações apaixonadas pela dona
da casa. Felicidade extremada. O lindo presente do noivo os
esperava, fuçando chão, tapetes, móveis, sapatos, o que fosse.
Em torno do cão, a vida girava.
Chamaram-no Regalo. De quando em vez, um prejuízo não contado,
mal sentido. O cachorro lhes arranhava as portas de madeira
maciça? Trocavam-na por fórmica escorregadia. O sofá de linhão
branco amanhecia manchado de xixi e coco? Toca a troca-lo por
outro de couro vegetal. As cobertas da cama cheiravam mal,
cobriam os donos de pêlos, provocando espirros em consonância? O
jeito era muda-las diariamente. Regalo cismava de dormir entre
os dois, por denguice ou solidão? Sexo abdicado naquelas noites.
Jamais Regalo ficava sozinho. As
empregadas se revezavam nas folgas. Em caso excepcional de
doença, pagavam baby-sitter de cães, com mil
recomendações de bebê recém-nato. Ainda que o cachorro fosse já
bem taludo.
Assim, o trio seguia feliz:
Lila, Júlio e o cão não adestrado. Por vários anos. Nem
pensaram em filhos: tinham substituto condigno. Só que, em noite
de maior excitação, marido e mulher ignoraram a onipresença do
cão e a camisinha. Protagonista de filme de mulher abandonada,
Lila deixou de sangrar. Exames de gestação positivos.
Contentes? Nem tanto. Temiam um
intruso na casa completa. O cachorro estranhou o colo barrigudo
da dona: passou-se para o desconforto das pernas ossudas do dono
esbelto.
A natureza em ação persistente,
a grávida foi notando a presença interna do filho,
enternecendo-se. Acariciava-o, sentia seus pequenos empurrões e
contorções crescentes, deixando o beagle de lado. Julio,
de fora da gestação, continuava as carícias no cachorro,
compensando a falta da mulher entregue à maternidade.
Nove meses se passaram num
átimo. Futuro boêmio, sem dúvida, o bebê cismou de conhecer a
madrugada, em dia de atropelos de empregadas. Atordoado com a
visão da bolsa d`água rompida, Júlio não se lembrou da
babysitter de Regalo. Pela primeira e certamente não última
vez, o “rei” canino ficou só. Latiu, ganiu, trepou nos móveis,
roeu as pernas do berço do neném... Em vão. Um fim de semana
inteiro a ração, água e desespero.
Chegou o intrometido, envolto em
mantas e atenções. O cão logo aproximou-se, saltando
boas-vindas. - Sai fora, Regalo! Enxotado peremptoriamente. E ai
dele se latisse: boas palmadas na certa!
Acabou proibido de entrar na
casa. E, sem poder expressar a dor do abandono, adquiriu uma
espécie de alergia: não parava de se coçar. Criou feridas,
tratadas por uma das empregadas, exatamente aquela que lhe era
mais antipática. Obrigado a aceitar cuidados de fora do círculo
fechado anterior, o cachorro perdeu fome, sede, desejo de correr
pela casa. Definhava. Encafuou-se num canto da lavanderia, de
onde só saía arrastado pela tal criada. Diagnóstico do
veterinário: depressão por grande perda. Perebas secam, fácil;
tristezas, não.
Enquanto isso, o neném
desenvolvia-se rápido, saudável. Aos três anos, em raro passeio
pelo quintal, sem pais, nem babás, notou o cão que não mais
latia. Achegou-se, passou-lhe no pêlo a mãozinha delicada,
apaixonou-se.
Regalo meio que fechou os olhos
amendoados, gemeu de prazer, voltou-se para os potes de ração e
água. Devorou-os, enquanto o menino soltava gritinhos de prazer.
Milagre! Curou-se de tudo. Ainda
viveu muitos anos, na companhia de mais dois beagles,
adotados pelo menino.
A cada ano, Regalo recebia
presentes e festas de aniversário, com bolo e tudo. E o filho
único do casal sorria todo contente, batia palmas, ao som do
coro esfuziante dos pais, avós e visitantes, no Parabéns pra
você |