Maria Lindgren

 História De Cão

Cachorro também é um ser humano!” – frase de Ministro do Governo Collor

            Tão logo começou a falar, Lila sonhou um cachorro. De raça ou vira-lata mesmo. Filha única, o que lhe importava era a companhia. O pai, homem econômico de palavras, resmungava a negativa por cima dos óculos, enquanto lia o jornal:

-         Bicho em casa é sujeira e amolação.

A menina nem chorar podia: recomendação da mãe, para que o pai não percebesse lágrimas ruidosas. O homem, do tipo “falou tá falado”, não admitia réplica. Verdade que nunca batera na garota, mas um grito seu era uivo de lobo: calava o mundo.

A família morava em condomínio de casas confortáveis. Logo, prolífero de cães de raça. Bem lavados e escovados, por mais pêlos que tivessem; saúde garantida por vacinas e veterinários de luxo; alimentados com ração especial e água sem cloro. Indiscutivelmente desejáveis. Buldogs, fox-terries, beagles ...cruzavam  pela rua, saltitantes, felizes, ao lado dos donos. Olhar pedinte de Lila, inútil

 - Seu pai não quer. Justificativa de mãe não chegada a bichos.

            A menina cresceu, pois, solitária. Até encontrar-se, certa manhã, na trilha de cooper do condomínio, com um dos rapazes sarados das redondezas, moreno de feições gentis. Sem querer, esbarraram-se, em sorriso mútuo. De imediato, Lila perguntou, sem tempo de refletir:

            - Você gosta de cachorro?

            Nunca um “sim” fora alegria tamanha para a jovem obcecada. O sol de outono expandiu-se em luz e calor, com gosto de praia limpa; as flores-ornamento da pista de correr desabrocharam, em mágica de cores e espécies; as árvores cumpriram à risca seu dever de sombrear; os ventos fortes da época envergonharam-se, tornaram-se em brisa. E as pernas da menina-moça adquiriram maior velocidade, emparelhadas com as do jovem, namorado instantâneo. L´amour...

 Nenhum dos dois quis saber o que faziam na vida, que outros gostos cultivavam, nada. Ligados pelo gosto por cachorros,  união perfeita.

Em menos de um ano, casamento. Sem pompa, nem lua-de-mel, para rápido poderem curtir casa nova e....um beagle marron e branco, pequenino ainda, de olhos enormes e doces, admirados a exclamações apaixonadas pela dona da casa. Felicidade extremada. O lindo presente do noivo os esperava, fuçando chão, tapetes, móveis, sapatos, o que fosse.

Em torno do cão, a vida girava. Chamaram-no Regalo. De quando em vez, um prejuízo não contado, mal sentido. O cachorro lhes arranhava as portas de madeira maciça? Trocavam-na por fórmica escorregadia. O sofá de linhão branco amanhecia manchado de xixi e coco? Toca a troca-lo por outro de couro vegetal. As cobertas da cama cheiravam mal, cobriam os donos de pêlos, provocando espirros em consonância? O jeito era muda-las diariamente. Regalo cismava de dormir entre os dois, por denguice ou solidão? Sexo abdicado naquelas noites.

Jamais Regalo ficava sozinho. As empregadas se revezavam nas folgas. Em caso excepcional de doença, pagavam baby-sitter de cães, com mil recomendações de bebê recém-nato. Ainda que o cachorro fosse já bem taludo.

Assim, o trio seguia feliz: Lila, Júlio  e o cão não adestrado. Por vários anos. Nem pensaram em filhos: tinham substituto condigno. Só que, em noite de maior excitação,  marido e mulher ignoraram a onipresença do cão e a camisinha. Protagonista de filme de mulher abandonada, Lila deixou de sangrar. Exames de gestação positivos.

Contentes? Nem tanto. Temiam um intruso na casa completa. O cachorro estranhou o colo barrigudo da dona: passou-se para o desconforto das pernas ossudas do dono esbelto.

A natureza em ação persistente, a grávida foi notando a presença interna do filho, enternecendo-se. Acariciava-o, sentia seus pequenos empurrões e contorções crescentes, deixando o beagle de lado. Julio, de fora da gestação, continuava as carícias no cachorro, compensando a falta da mulher entregue à maternidade.

Nove meses se passaram num átimo. Futuro boêmio, sem dúvida, o bebê cismou de conhecer a madrugada, em dia de atropelos de empregadas. Atordoado com a visão da bolsa d`água rompida, Júlio não se lembrou da babysitter de Regalo. Pela primeira e certamente não última vez,  o “rei” canino ficou só. Latiu, ganiu, trepou nos móveis, roeu as pernas do berço do neném... Em vão. Um fim de semana inteiro a ração, água e desespero.

Chegou o intrometido, envolto em mantas e atenções. O cão logo aproximou-se, saltando boas-vindas. - Sai fora, Regalo! Enxotado peremptoriamente. E ai dele se latisse: boas palmadas na certa!

Acabou proibido de entrar na casa. E, sem poder expressar a dor do abandono,  adquiriu uma espécie de alergia: não parava de se coçar. Criou feridas, tratadas por uma das empregadas, exatamente aquela que lhe era mais antipática. Obrigado a aceitar cuidados de fora do círculo fechado anterior, o cachorro perdeu fome, sede, desejo de correr pela casa. Definhava. Encafuou-se num canto da lavanderia, de onde só saía arrastado pela tal criada. Diagnóstico do veterinário: depressão por grande perda. Perebas secam, fácil; tristezas, não.

Enquanto isso, o neném desenvolvia-se rápido, saudável. Aos três anos, em raro passeio pelo quintal, sem pais, nem babás, notou o cão que não mais latia. Achegou-se, passou-lhe no pêlo a mãozinha delicada, apaixonou-se.

Regalo meio que fechou os olhos amendoados, gemeu de prazer, voltou-se para os potes de ração e água. Devorou-os, enquanto o menino soltava gritinhos de prazer.

Milagre! Curou-se de tudo. Ainda viveu muitos anos, na companhia de mais dois beagles, adotados pelo menino.

A cada ano, Regalo recebia presentes e festas de aniversário, com bolo e tudo. E o filho único do casal sorria todo contente, batia palmas, ao som do coro esfuziante dos pais, avós e visitantes, no Parabéns pra você

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