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Sempre fui sambista. Não, de
requebrados de quadris, remelexo de ombros e seios, de passos
concomitantes, que nunca consegui aprender. Sambista de coração
mais que de meu corpo rechonchudo .
A
primeira influência veio com Carmem Miranda, perpetuada na
imitação perfeita de minha prima. Aprendi que a brejeirice
aliada à política dá um sambão. A Cantora Notável não tinha
dinheiro, mas era graciosa, audaz, furona. Depois de adocicar os
ouvidos brasileiros nas rádios, foi convidada para os Estados
Unidos, já quase império como hoje. Época de Zé Carioca, do Walt
Disney, em que os americanos queriam bajular a América Latina.
E, dentro dessa conquista da Carmem, viriam junto as futuras
alianças para a 2ª Guerra Mundial.
Mais ainda cobiçariam o Brasil, se pudessem adivinhar o destino
ecológico cruel do Planeta Terra. Aí , tomada da Amazônia, nosso
pulmão mais cobiçado, hoje e sempre.
Ainda mal me sustentando nas pernas, imitava os trejeitos da
Carmem americanizada, nos palcos da escola infantil. E a
influência da moça, com seus sorriso largo, sandálias de solão
ultra-moderno, profusão de balagandãs, barriguinha de fora, mais
o turbante enorme, verdadeiro supermercado horti-fruti
equilibrado na cabeça, fez-se forte lá como cá. Quanto mais
extravagância e samba, mais sucesso.
Depois, a admiração menor, mas legitima, por Emilinha Borba e
Marlene, cantoras no rádio e no cinema, de marchinhas
inesquecíveis, ora exaltadas nos palcos cariocas. Eu ainda não
percebia o lado crítico-imitador das famosas chanchadas
nacionais, nem o porquê de ter sempre shows de samba nas telas,
fosse que enredo fosse. Talvez a intenção dos produtores fosse
exportar os filmes, como o fizeram com Carmem Miranda.
Além das duas rivais, cada qual com sua torcida a la Elvis
Presley, eu babava com os maravilhosos caricaturistas Grande
Otelo e Oscarito e mesmo com os as atrizes sem-graça, como a
“baiana” Eliana, que pretendia o status das star dos
musicais da Broadway ou da própria Carmem Miranda. Vinha tudo
bem embalado pela música de Ary Barroso, sobretudo a imortal
Aquarela do Brasil, “Brasil, meu Brasil brasileiro...” E
tome de mãos chacoalhando pulseiras e tome de quadris cheios de
requebros falsos.
Eu,
menina, me deliciava com os trejeitos de corpo e mãos das
mulheres e com a coreografia cafona dos dançarinos. Quando
apareciam de casaca, em escadinha piramidal, com Eliana, no
topo, eu queria ser a estrela.
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Escola de Samba, que é bom, você não gosta, dizia minha sábia
mãe, enquanto acrescentava sua aspiração máxima: morrer de
porta-bandeira, na Avenida, em pleno Carnaval. Quero morrer,
numa batucada de bamba na cadência bonita de um samba,
concordava Ataulfo Alves.
E
eu, firme na Lata d`água na cabeça, lá vai Maria... de
Marlene, doida por uma ida ao programa César de Alencar, só para
ver em pessoa os dedinhos para cima da quase estática Emilinha,
fantasiada de marujo, e as poses sexy da Marlene, ambas com fio
de voz. Acabei indo e... delirando.
Naqueles tempos, dizia-se: “samba não se aprende na escola,
o que muito me frustrava a ânsia de dar passinhos pequenos, de
pés ajuntados quase, em sandálias de salto alto, enquanto o
corpo caía no transe, do pescoço à bunda. Limitava-me ao
carnaval insosso dos clubes, longe do rebolado indispensável das
mulatas brasileiras.
Muito mais tarde, minha admiração mudou de pouso. Surgia,
triunfante, Clara Nunes e seu samba meio que macumba, de dar
frenesi a moços e velhos. E a mim.
Durou pouco. Com sua morte, transferi-me para Beth Carvalho,
onde fiquei durante longos anos. Acho que até os dias de hoje.
Nunca perdia show da moça de cabelos longos crespíssimos,
sambando e cantando junto com a platéia. E, quando ela se
engajou na política com o: “Chora, não vou chorar, chegou a
hora...”, aderi de vez à esquerda brasileira. E à Mangueira,
apaixonando-me pelos desfiles da Verde e Rosa, decorando-lhe os
sambas-enredos.
Daí
em diante, tornei-me bissexual. Acrescentei alguns homens às
damas do samba. Passei por Paulinho da Viola, Elton Medeiros,
pelos não-sambistas baianos Caetano e Gil, mas caí mesmo pelo
“ Vai passar pela avenida o samba popular...” da minha
paixão sexual e política, também mangueirense: Chico Buarque.
Parecia, então, estar perdida para sempre, a alegria do
Carnaval, dos sambistas sem ideologia, com o furacão avassalador
da ditadura. Apesar de freqüentar o bar Zi-Cartola, na Rua da
Carioca, Centro do Rio, e umedecer os olhos com “Bate, outra
vez, com esperanças o meu coração...”
Trinta anos depois, alívio com a democracia reencontrada, e
transformação gradual e permanente das escolas de samba em
espetáculo competitivo, restrito a turistas e ricaços, num
Sambódromo cada vez mais excludente.
Mas, quando pensava que nunca mais sentiria a cadência do
samba,.ora apressado, quase marcha, pela pressa de acomodar os
sambistas do Rio e de fora no espaço definido, ou tinha-se
perdido para sempre a malícia gostosa do povão carioca, vi-me na
Avenida Rio Branco, à tarde, sambando e me esgüelando no bloco
do Clube do Samba.
Senti e sinto ainda a emoção de ver, além da Banda de Ipanema,
organizada ainda na ditadura, a formação de mais e mais blocos
na Zona Sul do Rio de Janeiro, desde Copacabana até o Leblon,
passando pelo Jardim Botânico e Botafogo.
Bandidos e polícia, milícias e exército à parte, tragédias
diárias não esquecidas, mas amornadas em banho-Maria, meu
samba não se perde. Renova-se.
Maria Lindgren
Sábado de Carnaval de 2007 |