Maria Lindgren

 Homo Publicus
                                                                                                                       
(Para meu Marido)

- Não sabia que o senhor era um homem público-, exclamou, entre surpresa e feliz, a gerente do banco mais importante da cidade. Daqueles que se auto-intitulam especiais porque  atendem à gente mais celebrada do Rio de Janeiro: craques de futebol, atores e âncoras de TV, músicos, cantores de rock abrasileirado, de vez em quando, de samba...

        - Ah, obrigado!, falei sem jeito e me esgueirei pela porta.

 Homem público, homo publicus...Em latim, acho tudo mais bonito. Não seria mais acertado homo academicus? Eu ensino em universidade há milênios. Difícil encaixar uma única denominação para a mistura de tipos de minha espécie. Se bem que os tais homens/mulheres públicos são, em geral, fanáticos, só pensam nisso de serem públicos, condição que não é, para mim, sine qua non. Tenho certeza.

 Claro que a denominação me cabe, se tomada no sentido de pessoa que se ocupa das causas públicas: educação, saúde, moradia... Tenho suado na luta pela saúde sem discriminação, desde que entrei para a faculdade.

Acho que não me sentiria à vontade na categoria homo politicus, denominação mais acertada para os que militam na política, sem dúvida. Alguns incentivos para tanto, bem que tive, mas nunca pensei na carreira como de escolha minha. Talvez pela timidez, que não me abandona nunca. Me lembro da época em que me inculcaram na cabeça que devia ser prefeito da cidade onde moro. Que coisa maluca! Uma batalha para conseguir meia dúzia de adeptos. Sem dinheiro para a campanha, sem passado político, uma loucura.

Cheguei à conclusão que tal tipo de gente tem que começar cedo, atraído pelo gostinho do poder e dos votos. Caçar votos vicia mais que a caça aos animais dos ingleses antigos das gravuras de minha sala. Sem falsa modéstia, dizem que não me falta a arma da sedução, outra qualidade importante para qualquer candidato. Meus comparsas até comentavam, quando me viam metido algum tipo de confusão:

- Ele é superpolítico, gente. Vai se sair dessa na maior.

Mesmo que eu não seja o tal homo politicus strictu senso – mais uma vez, o latim - sempre me importei  com os que não têm vez na sociedade. Desde garoto. Não que não quisesse ter meu conforto. Tenho certa naturalidade para falar com pobre, difícil de encontrar na classe média, salvo nas pessoas que se dedicam às obras de caridade. Em geral, gente rica que não quer ter sentimento de culpa  ou acha que, com uma esmolinha aqui, uma ali, ganha fácil o Reino dos Céus.

Fui bom aluno na escola, mas aprendi a ler mesmo foi com minha mãe, nos jornais. Ela comentava com as amigas: - Garoto prodígio esse meu filho! Pensa que ele quer saber de páginas pra criança, de pouca letra e muito desenho? Qual nada! Procura palavras de escrita comum, artigos de jornalistas. Se não entende, eu troco em miúdos.

 Em pouco tempo, eu dominava uma notícia, um texto que falasse bem ou mal dos políticos em geral, demonstrasse com cifras que meu país era grande e rico de ofertas da mãe natureza, mas pobre em muitas regiões do interior e mesmo dentro das cidades. Mesmo naquela época de pouca favela.

 Balanceio razoavelmente bem os hemisférios do cérebro (rs): penso, sinto e me movo,  em direção ao que quero, com vontade. Me considero um homem firme nos meus propósitos.

A desigualdade social tão comentada pelos antropólogos e sociólogos, jamais resolvida, me preocupa demais da conta. Getulio Vargas não foi do meu tempo enquanto ditador, mas ouvia falar dele, um presidente híbrido, que aliava mão de ferro a políticas trabalhistas em favor dos pobres. Era seu fã. Minha família, não. Via apenas o lado ruim da ditadura. Eu sabia que o homem havia ajudado os trabalhadores e gostava disso. Eu queria ter vivido toda a época getulista.  Fingia que não sabia das perseguições políticas daquele tempo. Mais tarde, quando ouvi a notícia do suicídio, nem queria acreditar. Chorei, como chorei! Depois, bola pra frente.

        Falar em bola, minha vida de menino não foi com bola na mão, como meus colegas da vila. Dava um desculpa e não ia jogar porque detestava exercício físico. Nem por isso deixei de adorar futebol assistido, sem usar meu corpinho (rs). Gostava mesmo era de estudar, ler, ouvir rádio, escrever. Daí que resolvi fazer um jornalzinho. Minha mãe o guardou até hoje. Eu colocava ali o que ouvia de notícias, tirava outras de jornais da cidade, falava de colegas, de  eventos da vila e do bairro, do calendário da cidade... Parecia mais um futuro escritor do que médico e professor.

Sou filho de médico com boa clinica de moradores de bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, o que me fez conviver com a medicina e os doentes, desde criança. Me lembro de gente batendo na porta de minha casa e meu pai indo atender, sem resmungar. Nem comia direito. A faculdade de medicina foi um caminho natural para mim, primeiro, depois, para meu irmão. Muito tempo mais tarde,  para meus sobrinhos. Mal de família (rs)

O interesse pelos doentes apareceu no atendimento dos pacientes da enfermaria do hospital universitário. Muito estudo dos meandros médicos me tomaram as horas, até que descobri as trilhas da saúde pública:  a saúde sob o ponto de vista social.

De repente, ainda escuto a voz de um companheiro de trabalho anunciando: - Foucault chega esta semana para o simpósio. Penso em como classificaria Foucault e outros tantos pensadores da sociedade, que tinha conhecido pessoalmente ou de leituras. Homo academicus - pobre demais para quem não se conformava a padrões estabelecidos e quebrava estruturas. Homo sapiens, no verdadeiro sentido da palavra - banal,  comum a qualquer homem, embora muitos não mereçam o epíteto, de tão ignorantes. Homo philosophicus. Paro por aí.

Perco muito tempo com essa mania de classificar. Apesar de que agora, passados os anos e a ânsia de façanhas, tenho mais lazer, posso levar uma vida mais mansa, trabalho um pouco aqui, um pouco ali, sem me preocupar tanto. Gosto de trabalhar. Tentei ficar aposentado, mas não deu. Quase fiquei louco. Ainda bem que me convidaram para dois trabalhos. Quero me sentir útil sempre. Minha mulher diz que isso é coisa de homem porque mulher adora ficar na boa vida (rs).

Acho que, para decepção de minha gerente, definitivamente, não sou um homem público, nem em latim, nem em portuguès bem claro. E, quando quiserem saber o que sou, de verdade, vou mesmo é dar um sorriso sem graça e um tchau, como é do meu feitio.

Maria Lindgren

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