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- Não sabia que
o senhor era um homem público-, exclamou, entre surpresa e
feliz, a gerente do banco mais importante da cidade. Daqueles
que se auto-intitulam especiais porque atendem à gente mais
celebrada do Rio de Janeiro: craques de futebol, atores e
âncoras de TV, músicos, cantores de rock abrasileirado, de vez
em quando, de samba...
- Ah,
obrigado!, falei sem jeito e me esgueirei pela porta.
Homem público,
homo publicus...Em latim, acho tudo mais bonito. Não
seria mais acertado homo academicus? Eu ensino em
universidade há milênios. Difícil encaixar uma única denominação
para a mistura de tipos de minha espécie. Se bem que os tais
homens/mulheres públicos são, em geral, fanáticos, só pensam
nisso de serem públicos, condição que não é, para mim, sine
qua non. Tenho certeza.
Claro que a
denominação me cabe, se tomada no sentido de pessoa que se ocupa
das causas públicas: educação, saúde, moradia... Tenho suado na
luta pela saúde sem discriminação, desde que entrei para a
faculdade.
Acho que não me
sentiria à vontade na categoria homo politicus,
denominação mais acertada para os que militam na política, sem
dúvida. Alguns incentivos para tanto, bem que tive, mas nunca
pensei na carreira como de escolha minha. Talvez pela timidez,
que não me abandona nunca. Me lembro da época em que me
inculcaram na cabeça que devia ser prefeito da cidade onde moro.
Que coisa maluca! Uma batalha para conseguir meia dúzia de
adeptos. Sem dinheiro para a campanha, sem passado político, uma
loucura.
Cheguei à
conclusão que tal tipo de gente tem que começar cedo, atraído
pelo gostinho do poder e dos votos. Caçar votos vicia mais que a
caça aos animais dos ingleses antigos das gravuras de minha
sala. Sem falsa modéstia, dizem que não me falta a arma da
sedução, outra qualidade importante para qualquer candidato.
Meus comparsas até comentavam, quando me viam metido algum tipo
de confusão:
- Ele é
superpolítico, gente. Vai se sair dessa na maior.
Mesmo que eu
não seja o tal homo politicus strictu senso – mais uma
vez, o latim - sempre me importei com os que não têm vez na
sociedade. Desde garoto. Não que não quisesse ter meu conforto.
Tenho certa naturalidade para falar com pobre, difícil de
encontrar na classe média, salvo nas pessoas que se dedicam às
obras de caridade. Em geral, gente rica que não quer ter
sentimento de culpa ou acha que, com uma esmolinha
aqui, uma ali, ganha fácil o Reino dos Céus.
Fui bom aluno
na escola, mas aprendi a ler mesmo foi com minha mãe, nos
jornais. Ela comentava com as amigas: - Garoto prodígio esse meu
filho! Pensa que ele quer saber de páginas pra criança, de pouca
letra e muito desenho? Qual nada! Procura palavras de escrita
comum, artigos de jornalistas. Se não entende, eu troco em
miúdos.
Em pouco
tempo, eu dominava uma notícia, um texto que falasse bem ou mal
dos políticos em geral, demonstrasse com cifras que meu país era
grande e rico de ofertas da mãe natureza, mas pobre em muitas
regiões do interior e mesmo dentro das cidades. Mesmo naquela
época de pouca favela.
Balanceio
razoavelmente bem os hemisférios do cérebro (rs): penso, sinto e
me movo, em direção ao que quero, com vontade. Me
considero um homem firme nos meus propósitos.
A desigualdade
social tão comentada pelos antropólogos e sociólogos, jamais
resolvida, me preocupa demais da conta. Getulio Vargas não foi
do meu tempo enquanto ditador, mas ouvia falar dele, um
presidente híbrido, que aliava mão de ferro a políticas
trabalhistas em favor dos pobres. Era seu fã. Minha família,
não. Via apenas o lado ruim da ditadura. Eu sabia que o homem
havia ajudado os trabalhadores e gostava disso. Eu queria ter
vivido toda a época getulista. Fingia que não sabia das
perseguições políticas daquele tempo. Mais tarde, quando ouvi a
notícia do suicídio, nem queria acreditar. Chorei, como chorei!
Depois, bola pra frente.
Falar
em bola, minha vida de menino não foi com bola na mão, como meus
colegas da vila. Dava um desculpa e não ia jogar porque
detestava exercício físico. Nem por isso deixei de adorar
futebol assistido, sem usar meu corpinho (rs). Gostava mesmo era
de estudar, ler, ouvir rádio, escrever. Daí que resolvi fazer um
jornalzinho. Minha mãe o guardou até hoje. Eu colocava ali o que
ouvia de notícias, tirava outras de jornais da cidade, falava de
colegas, de eventos da vila e do bairro, do
calendário da cidade... Parecia mais um futuro escritor do que
médico e professor.
Sou filho de
médico com boa clinica de moradores de bairro da Zona Norte do
Rio de Janeiro, o que me fez conviver com a medicina e os
doentes, desde criança. Me lembro de gente batendo na porta de
minha casa e meu pai indo atender, sem resmungar. Nem comia
direito. A faculdade de medicina foi um caminho natural para
mim, primeiro, depois, para meu irmão. Muito tempo mais tarde,
para meus sobrinhos. Mal de família (rs)
O interesse
pelos doentes apareceu no atendimento dos pacientes da
enfermaria do hospital universitário. Muito estudo dos meandros
médicos me tomaram as horas, até que descobri as trilhas da
saúde pública: a saúde sob o ponto de vista social.
De repente,
ainda escuto a voz de um companheiro de trabalho anunciando: -
Foucault chega esta semana para o simpósio. Penso em como
classificaria Foucault e outros tantos pensadores da sociedade,
que tinha conhecido pessoalmente ou de leituras. Homo
academicus - pobre demais para quem não se conformava a
padrões estabelecidos e quebrava estruturas. Homo sapiens,
no verdadeiro sentido da palavra - banal, comum a qualquer
homem, embora muitos não mereçam o epíteto, de tão ignorantes.
Homo philosophicus. Paro por aí.
Perco muito
tempo com essa mania de classificar. Apesar de que agora,
passados os anos e a ânsia de façanhas, tenho mais lazer, posso
levar uma vida mais mansa, trabalho um pouco aqui, um pouco ali,
sem me preocupar tanto. Gosto de trabalhar. Tentei ficar
aposentado, mas não deu. Quase fiquei louco. Ainda bem que me
convidaram para dois trabalhos. Quero me sentir útil sempre.
Minha mulher diz que isso é coisa de homem porque mulher adora
ficar na boa vida (rs).
Acho que, para
decepção de minha gerente, definitivamente, não sou um homem
público, nem em latim, nem em portuguès bem claro. E, quando
quiserem saber o que sou, de verdade, vou mesmo é dar um sorriso
sem graça e um tchau, como é do meu feitio.
Maria Lindgren |