Maria Lindgren

Lançamento de Livro
"Habitantes de Mim"
Maria Lindgren

 Impossível Disfarçar


            A noite tenebrosa de raios, ventos e chuvarada, a solidão da espera, a indefectível dor nas costas prenunciavam coisa ruim. Não diria do demo porque não acredito em demo espiritual, cercados que somos de demos humanos.

No ato, aplico-me saco de água pelando, como dizia minha mãe, que quase quase me pela mesmo os dedos da mão trêmula, mais analgésico forte e anti-inflamatório, mais qualquer programa idiota de televisão, para adormecer e desviar a atenção-obsessão. A causa nem preciso dizer: lançamento de meu segundo livro de papel. Foram trezentos convites enviados, uma trabalheira, por telefone, por email e, finalmente, depois que ficaram prontos, por correio. 

O resultado não poderia ser outro: pesadelo com gente furibunda que esqueci de convidar, nariz entupido por desvio de septo nasal, sono agitado em poucas horas de dormida.

A visão do espelho pela manhã me desanima. Que olheiras, Santo Deus! Como é que fico apresentável para os convidados? E toca a usar creme hidratante, deitar no sofá para tentar dormir um pouco mais... O telefone não pára de tocar. É a filha que quer saber se está tudo ok, é o filho que também se agita, é o marido que viajou, mas não esqueceu, é o editor que quer me tranqüilizar, é o amigo que vai distribuir convites...

- É assim mesmo – afirma a filhota escritora, com ares de quem sabe das coisas. - Também convidei um montão de gente. Se não, não vende.

O computador dá pane, ressentido de tanta mensagem com resposta e tudo. O relógio empaca e me engana as horas. Ah, o tempo matreiro! Quando a gente quer que passe rápido se faz de lesma. Ainda são 11 horas da manhã e “o evento é à noite, menina”.

O jeito é pedir ao porteiro sabido que dê uma olhada no computador e ir ao fisioterapeuta, para evitar mais dor na hora dos autógrafos. Autógrafo, que coisa chique! Fico prosa.

De volta do tratamento miraculoso, mais tempo de espera. Graças aos céus o computador consertou. Posso ler meus emails e talvez algum livro. Mas cadê cabeça para tanto! Enrolo-me toda e continuo a pensar na hora H de ver se tenho algum prestígio ou não. É como se o julgamento de meus pecados dependesse da minha mão em movimento vertiginoso de escrever meu nome. Quanto mais vezes, melhor.

Faço um pouco da ginástica com os dedos que os relaxa e não deixa que se afrouxem ou fiquem rígidos. Mão espalmada, bem espalmada. Percebo um nó no dedo mínimo crescendo, crescendo Terei ainda quantos até o fim da vida? O bum-bum me dói, coisa comum quando me assento mal assentada muito tempo numa mesma posição. Levanto, estico o corpo para cima, primeiro, para baixo, joelhos semi-flexionados, a seguir. Bebo água para lubrificar as juntas e o cérebro. Será que cérebro se lubrifica com água? Acho que pode ser, pois ciência é conhecimento variável a cada momento. Essa mania de água não pode ser à toa.

O relógio não reage a meus pedidos de corre, tempo, impassível como o resto dos objetos de meu escritório, indiferentes à ansiedade humana. Ou seria desumana?

O trim, trim do telefone e do interfone, normalmente tão incomodativos, hoje pára, só de ruim. Umas duas ou mais horas de silêncio sem interrupção só fazem aumentar a irritabilidade. Perco a fome, mas insisto em engolir minha comida verde. Pelo menos, a alface, o agrião, o pepino, talvez a rúcula. Não quero chegar e desmaiar logo depois, bêbada sem beber. Vexame, depois de mais velha, dá hospital na certa. Minha mãe, pobrezinha, desmaiava com freqüência na velhice e eu posso ter puxado a ela.

Domino a custo a grande ansiedade, envergo meu traje de gala – pantalonas pretas, blusa bem fina e sandália, tudo novo. Penso nos brincos e no colar, para realce da pele morena, como nos tempos longínquos de minha juventude. Olho-me ao espelho que mais me emagrece, que não sou boba, e parto, nariz em pé, mãos dadas com o marido.

“Esta ventania não vai deixar vir muita gente. Pelo menos, atravessar a baía, o pessoal fica com medo – penso arrepiada.”

A livraria charmosa não me recebe lá muito bem. Ou melhor, ninguém à porta para me acolher: todos os atendentes ocupadíssimos a faturar para os patrões. “É natural”, tento me consolar.

Lá no fundo, vislumbro juma mesa comprida repleta de livros que não são meus. Onde estará minha “obra-prima”, como penso de todos os que escrevo? Acerco-me de uma das mocinhas e peço que arrume a mesa, ´pois vejo um possível comprador, um amigão nosso, a esperar talvez impaciente.

Colocam-me sozinha, numa única cadeira de couro preto, defronte à mesona e meu livro lindo, também isolado do mundo, em suporte de metal, e evidência, ao lado de uma vasinho de flores vermelhas. Vejo que esqueci a caneta, mas logo um funcionário me empresta uma. Verde como minha esperança de muitos amigos, brilhante como meu coração jubiloso.

E vão pingando pessoas. Homens, mulheres, crianças em geral na faixa que vai dos três aos setenta e poucos. Um velho amigo, escritor famoso, chega em cadeira de rodas e me emociona, mais uma vez. O tio de meu marido, adentra o ambiente também em cadeira de rodas, e me leva às lágrimas duplamente, pela cadeira e porque é cego. Só terá acesso ao livro por via oral. Os impedidos de caminhar estão ambos muito bonitos, de terno e gravata, em contraste com a maioria dos convidados, em traje menos formal.

Aproximam-se fisionomias conhecidas ou um tanto desconhecidas. As segundas são os amigos de meu marido que não vão muito á nossa casa. Mas dentre as primeiras, quanta alegria: meus consertadores de cabeça, olhos e outras partes mais intimas do corpo. Em destaque de festa inglesa, a elegância discreta de minha psi muito querida. Sozinha, Mulher.

Consigo notar que as amigas capricharam no visual e minha filha parece uma garotinha com meias pretas e vestido.

Tenho atenção difusa mórbida, no dizer de meu marido médico, sem dúvida. Em meio aos senta-levanta dos abraços e beijos, bolo um montão de dedicatórias, tentando não repeti-las em demasia. Quem diz que tenho dor no corpo e nos dedos? Minha coluna se comporta de acordo, minha mão a acompanha contente.

Depois de quatro horas e meia de abraços, beijos, sorrisos, risos e dedicatórias, são dez e meia da noite e o corredor amplo se esvazia. Um ou outro “rato de livraria” ainda pega carona no vinho tinto da bandeja que sobrou. O garçom comenta: - Acho que acabou.

Chamo a encarregada do lançamento e ela o liberta da missão difícil de atender a todos, sorriso nos lábios.

Posso, enfim, abraçar meu livro. A paisagem do Rio e de Niterói na capa me aliviam todas as penas. Estou bem.

Maria Lindgren

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