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A noite tenebrosa
de raios, ventos e chuvarada, a solidão da espera, a
indefectível dor nas costas prenunciavam coisa ruim. Não diria
do demo porque não acredito em demo espiritual, cercados
que somos de demos humanos.
No ato, aplico-me saco de água
pelando, como dizia minha mãe, que quase quase me pela
mesmo os dedos da mão trêmula, mais analgésico forte e
anti-inflamatório, mais qualquer programa idiota de televisão,
para adormecer e desviar a atenção-obsessão. A causa nem preciso
dizer: lançamento de meu segundo livro de papel. Foram trezentos
convites enviados, uma trabalheira, por telefone, por email e,
finalmente, depois que ficaram prontos, por correio.
O resultado não poderia ser
outro: pesadelo com gente furibunda que esqueci de convidar,
nariz entupido por desvio de septo nasal, sono agitado em poucas
horas de dormida.
A visão do espelho pela manhã me
desanima. Que olheiras, Santo Deus! Como é que fico apresentável
para os convidados? E toca a usar creme hidratante, deitar no
sofá para tentar dormir um pouco mais... O telefone não pára de
tocar. É a filha que quer saber se está tudo ok, é o filho que
também se agita, é o marido que viajou, mas não esqueceu, é o
editor que quer me tranqüilizar, é o amigo que vai distribuir
convites...
- É assim mesmo – afirma a
filhota escritora, com ares de quem sabe das coisas. - Também
convidei um montão de gente. Se não, não vende.
O computador dá pane, ressentido
de tanta mensagem com resposta e tudo. O relógio empaca e me
engana as horas. Ah, o tempo matreiro! Quando a gente quer que
passe rápido se faz de lesma. Ainda são 11 horas da manhã e “o
evento é à noite, menina”.
O jeito é pedir ao porteiro
sabido que dê uma olhada no computador e ir ao fisioterapeuta,
para evitar mais dor na hora dos autógrafos. Autógrafo,
que coisa chique! Fico prosa.
De volta do tratamento
miraculoso, mais tempo de espera. Graças aos céus o computador
consertou. Posso ler meus emails e talvez algum livro. Mas cadê
cabeça para tanto! Enrolo-me toda e continuo a pensar na hora H
de ver se tenho algum prestígio ou não. É como se o julgamento
de meus pecados dependesse da minha mão em movimento vertiginoso
de escrever meu nome. Quanto mais vezes, melhor.
Faço um pouco da ginástica com
os dedos que os relaxa e não deixa que se afrouxem ou fiquem
rígidos. Mão espalmada, bem espalmada. Percebo um nó no dedo
mínimo crescendo, crescendo Terei ainda quantos até o fim da
vida? O bum-bum me dói, coisa comum quando me assento mal
assentada muito tempo numa mesma posição. Levanto, estico o
corpo para cima, primeiro, para baixo, joelhos semi-flexionados,
a seguir. Bebo água para lubrificar as juntas e o cérebro. Será
que cérebro se lubrifica com água? Acho que pode ser, pois
ciência é conhecimento variável a cada momento. Essa mania de
água não pode ser à toa.
O relógio não reage a meus
pedidos de corre, tempo, impassível como o resto dos objetos de
meu escritório, indiferentes à ansiedade humana. Ou seria
desumana?
O trim, trim do telefone e do
interfone, normalmente tão incomodativos, hoje pára, só de ruim.
Umas duas ou mais horas de silêncio sem interrupção só fazem
aumentar a irritabilidade. Perco a fome, mas insisto em engolir
minha comida verde. Pelo menos, a alface, o agrião, o pepino,
talvez a rúcula. Não quero chegar e desmaiar logo depois, bêbada
sem beber. Vexame, depois de mais velha, dá hospital na certa.
Minha mãe, pobrezinha, desmaiava com freqüência na velhice e eu
posso ter puxado a ela.
Domino a custo a grande
ansiedade, envergo meu traje de gala – pantalonas pretas, blusa
bem fina e sandália, tudo novo. Penso nos brincos e no colar,
para realce da pele morena, como nos tempos longínquos de minha
juventude. Olho-me ao espelho que mais me emagrece, que não sou
boba, e parto, nariz em pé, mãos dadas com o marido.
“Esta ventania não vai deixar
vir muita gente. Pelo menos, atravessar a baía, o pessoal fica
com medo – penso arrepiada.”
A livraria charmosa não me
recebe lá muito bem. Ou melhor, ninguém à porta para me acolher:
todos os atendentes ocupadíssimos a faturar para os patrões. “É
natural”, tento me consolar.
Lá no fundo, vislumbro juma mesa
comprida repleta de livros que não são meus. Onde estará minha
“obra-prima”, como penso de todos os que escrevo? Acerco-me de
uma das mocinhas e peço que arrume a mesa, ´pois vejo um
possível comprador, um amigão nosso, a esperar talvez
impaciente.
Colocam-me sozinha, numa única
cadeira de couro preto, defronte à mesona e meu livro lindo,
também isolado do mundo, em suporte de metal, e evidência, ao
lado de uma vasinho de flores vermelhas. Vejo que esqueci a
caneta, mas logo um funcionário me empresta uma. Verde como
minha esperança de muitos amigos, brilhante como meu coração
jubiloso.
E vão pingando pessoas. Homens,
mulheres, crianças em geral na faixa que vai dos três aos
setenta e poucos. Um velho amigo, escritor famoso, chega em
cadeira de rodas e me emociona, mais uma vez. O tio de meu
marido, adentra o ambiente também em cadeira de rodas, e me leva
às lágrimas duplamente, pela cadeira e porque é cego. Só terá
acesso ao livro por via oral. Os impedidos de caminhar estão
ambos muito bonitos, de terno e gravata, em contraste com a
maioria dos convidados, em traje menos formal.
Aproximam-se fisionomias
conhecidas ou um tanto desconhecidas. As segundas são os amigos
de meu marido que não vão muito á nossa casa. Mas dentre as
primeiras, quanta alegria: meus consertadores de cabeça, olhos e
outras partes mais intimas do corpo. Em destaque de festa
inglesa, a elegância discreta de minha psi muito querida.
Sozinha, Mulher.
Consigo notar que as amigas
capricharam no visual e minha filha parece uma garotinha com
meias pretas e vestido.
Tenho atenção difusa mórbida, no
dizer de meu marido médico, sem dúvida. Em meio aos
senta-levanta dos abraços e beijos, bolo um montão de
dedicatórias, tentando não repeti-las em demasia. Quem diz que
tenho dor no corpo e nos dedos? Minha coluna se comporta de
acordo, minha mão a acompanha contente.
Depois de quatro horas e meia de
abraços, beijos, sorrisos, risos e dedicatórias, são dez e meia
da noite e o corredor amplo se esvazia. Um ou outro “rato de
livraria” ainda pega carona no vinho tinto da bandeja que
sobrou. O garçom comenta: - Acho que acabou.
Chamo a encarregada do
lançamento e ela o liberta da missão difícil de atender a todos,
sorriso nos lábios.
Posso, enfim, abraçar meu livro.
A paisagem do Rio e de Niterói na capa me aliviam todas as
penas. Estou bem.
Maria Lindgren |