Maria Lindgren

Infinitude

Depois da batalha no computador por duas árduas horas, interrompida pelos habitantes de seu lar, desiste. Fecha tudo. 

De uns tempos para cá, ela dera de escarafunchar a cabeça, quase sempre meio atormentada, à procura de idéias filosóficas que se ajustassem ao trivial das preocupações dos humanos. A preguiça de abrir livros a faz procurar respostas no meio mais prático de hoje, a Internet, ainda que correndo o risco de informação errada ou incompleta.

Começa, nem sabe como, pela palavra infinitude, de definição tão difícil, para seres condenados à finitude da vida.

Quase morre de espanto: terá que estudar desde o filósofo Hegel a Raul Seixas, o “roqueiro da infinitude”, passando, nem que seja de leve, por outras cabeças pensantes, como Ralph Waldo Emerson, Alain Badiou e tantos outros. Até matemáticos, para investigar a “infinitude dos números primos”, e poetas, como Florbela Espanca, que andava “ à procura de uma infinitude”, em meio à paixão e à tristeza constantes.

Resolve refletir por si própria. Essa história de finitude fatal é o que atazana os seres humanos, tão logo põem a cabeça para fora do útero materno. Mas, e se as pessoas com seus sentimentos, emoções e obrigações se tornassem infinitas, assim, num dado momento? Ficaríamos tranqüilos ou nos perseguiriam os sentimentos de culpa, mesmo improcedentes, ao saber que os que se foram desta vida jamais teriam provado da infinitude das coisas terrenas?

Pensa em sua vida. Se o sentimento de amor-sexo matrimonial fosse eterno, teria se separado?! E a amiga, que perdera a filha de um dia para o outro, se sua dor permanecesse infinita no mesmo grau, teria tocado a vida com os demais da família, ajudando-os até à morte do corpo finito, sobrevivendo, ela própria,. com a força adquirida pela tragédia?!

Lembra-se dos que perdem todos os bens materiais da noite para o dia, como o amigo religioso, cujo negócio deixou de ser negócio da China para ser de cadeia. Teria consolo na infinitude da promessa de paraíso, mola impulsionadora do viver presente e futuro, para muitos?! Ou permaneceria eternizado na culpa e na pobreza, sequer suspeitadas?!

Vem-lhe à cabeça a obrigação das mulheres de criar filhos, ainda que sem parceiros.  Ou a cultura da obrigação das mulheres de acompanhar seus filhos para sempre, incutida nas mães, de modo geral. Não seria a infinitude do amor de mãe o que as faz enfrentar o trabalho pesado, dentro de casa e, freqüentemente, fora dela?

A cabeça começa a chiar contra o inesgotável mundo de finitudes e infinitudes. Quer parar, mas o infinito enquanto vive da curiosidade a leva mais e mais adiante.

Ouve muito falar dos orgasmos múltiplos de certas mulheres. Mas, se o prazer sexual em seu ápice, acrescentasse à característica de multiplicidade a infinitude, quem resistiria à sensação de espasmos eternos, sem extenuar-se em algum momento?

E o poder de um político, se fosse infinito? Como as sociedades reagiriam aos calhordas de infames ações aparentemente infinitas, não fora a esperança de os ver um dia destituídos, quando muito não seja, por velhice ou morte?

Aflita, quase perdida em suas reflexões sobre finitudes e infinitudes, ouve soar a campainha da porta: é a filha.  Interrompe tudo. Fica feliz. Infinitamente feliz. 

Maria Lindgren

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