|
Depois da batalha no computador
por duas árduas horas, interrompida pelos habitantes de seu lar,
desiste. Fecha tudo.
De uns tempos para cá, ela dera
de escarafunchar a cabeça, quase sempre meio atormentada, à
procura de idéias filosóficas que se ajustassem ao trivial das
preocupações dos humanos. A preguiça de abrir livros a faz
procurar respostas no meio mais prático de hoje, a Internet,
ainda que correndo o risco de informação errada ou incompleta.
Começa, nem sabe como, pela
palavra infinitude, de definição tão difícil, para
seres condenados à finitude da vida.
Quase morre de espanto: terá que
estudar desde o filósofo Hegel a Raul Seixas, o “roqueiro da
infinitude”, passando, nem que seja de leve, por outras cabeças
pensantes, como Ralph Waldo Emerson, Alain Badiou e tantos
outros. Até matemáticos, para investigar a “infinitude dos
números primos”, e poetas, como Florbela Espanca, que andava “
à procura de uma infinitude”, em meio à paixão e à
tristeza constantes.
Resolve refletir por si própria.
Essa história de finitude fatal é o que atazana os seres
humanos, tão logo põem a cabeça para fora do útero materno. Mas,
e se as pessoas com seus sentimentos, emoções e obrigações se
tornassem infinitas, assim, num dado momento? Ficaríamos
tranqüilos ou nos perseguiriam os sentimentos de culpa, mesmo
improcedentes, ao saber que os que se foram desta vida jamais
teriam provado da infinitude das coisas terrenas?
Pensa em sua vida. Se o
sentimento de amor-sexo matrimonial fosse eterno, teria se
separado?! E a amiga, que perdera a filha de um dia para o
outro, se sua dor permanecesse infinita no mesmo grau, teria
tocado a vida com os demais da família, ajudando-os até à morte
do corpo finito, sobrevivendo, ela própria,. com a força
adquirida pela tragédia?!
Lembra-se dos que perdem todos
os bens materiais da noite para o dia, como o amigo religioso,
cujo negócio deixou de ser negócio da China para ser
de cadeia. Teria consolo na infinitude da promessa de
paraíso, mola impulsionadora do viver presente e futuro, para
muitos?! Ou permaneceria eternizado na culpa e na pobreza,
sequer suspeitadas?!
Vem-lhe à cabeça a obrigação das
mulheres de criar filhos, ainda que sem parceiros. Ou a cultura
da obrigação das mulheres de acompanhar seus filhos para sempre,
incutida nas mães, de modo geral. Não seria a infinitude do amor
de mãe o que as faz enfrentar o trabalho pesado, dentro de casa
e, freqüentemente, fora dela?
A cabeça começa a chiar contra o
inesgotável mundo de finitudes e infinitudes. Quer parar, mas o
infinito enquanto vive da curiosidade a leva mais e mais
adiante.
Ouve muito falar dos orgasmos
múltiplos de certas mulheres. Mas, se o prazer sexual em seu
ápice, acrescentasse à característica de multiplicidade a
infinitude, quem resistiria à sensação de espasmos eternos, sem
extenuar-se em algum momento?
E o poder de um político, se
fosse infinito? Como as sociedades reagiriam aos calhordas de
infames ações aparentemente infinitas, não fora a esperança de
os ver um dia destituídos, quando muito não seja, por velhice ou
morte?
Aflita, quase perdida em suas
reflexões sobre finitudes e infinitudes, ouve soar a campainha
da porta: é a filha. Interrompe tudo. Fica feliz. Infinitamente
feliz.
Maria Lindgren |