Maria Lindgren

 Katrina – uma história verdadeira

                             She makes plans like this, you see/ She wants to  go to the movies

                            on Saturday…. She wants to laugh loud…[1]( Mathilda Kovak)

Não, não se trata do tristemente famoso furacão. Nunca vou tocar sequer em tragédia tamanha: a TV e as outras mídias exploram à exaustão as brutalidades ou revanches da natureza, emparelhando-as com as falcatruas mal e bem comprovadas que assolam o país.

 Não falo, pois, de Tsunamis avassaladoras ou mesmo de outras catástrofes inventadas pelo homem: guerras que, neste milênio mal iniciado, flagelam os povos do mundo, tiroteio assassinos, brasileiro legítimo a fazer vítimas diárias. Nem me reporto aos imigrantes desvalidos do Primeiro Mundo, de repente, posto a nu em sua não aceitação discriminatória.

Otimista por dom de Deus, não sou eu que vai revelar resquícios de sado-masoquismo, na descrição minuciosa e abusiva, da repetição doente e quantitativa das calamidades públicas: o grau cinco ou quatro da classificação dos furacões, a “crista da onda” literal nos dias de hoje; a velocidade do vento; a altura atingida pela  água, nas ruas, dentro dos prédios e casas; o número de cadáveres a boiar; o tamanho dos prejuízos...

Basta de quadros repugnantes, de desolados depoimentos dos que escapam, ou de testemunho de catadores de corpos, lenços ao nariz, a se queixarem do mau-cheiro exalado que, do lado de cá, acabo sentindo à náusea.

Escuso-me de reiterar até mesmo minha raiva a Bush, aquele  presidente americano que se apoderou do mundo, globalizado a seu favor, Besta do Apocalipse de vocação maligna, com seus feitos de morte, destruição, fome, peste... Cansa-me saber que seu governo inventou o motivo da Guerra do Iraque, para despistar outros muito mais gananciosos e covardes.

Envergonha-me, ainda que não seja brasileiro. Detesto reconhecer que  custou demais a atender à graciosa Nova Orleans, deixando tropas e mais tropas na  pseudo-urgência de vigiar os iraquianos para um “bem” que os nativos nunca pediram. Nova Orléans das origens do jazz, do Mardi Gras, dos negros musicistas talentosos, da influência francesa requintada.

Quero contar, sim, da moça Katrina, originária de uma Nova Orleans de jazz e paz, que jamais se sonhara sem futuro: a amiga americana, nuvem benigna, antítese de qualquer calamidade. Um metro e setenta de mulher, cabelos lisos e compridos até a cintura, olhos claros, corpo pedinte de menos comida, que não a atrapalha: faz seu tipo. Vestes coloridas e compridas écharpes voadoras de Isadora Duncan, sandálias baixas, pouca maquiagem, à-vontade sincero. E cantora!  Nina Simone branca, de voz tão grave e tão forte quanto.

Chega ao Brasil e logo a casa se enche de erres fortes e afagos... de fumaça de cigarros também, admito. Vem para ficar um tempo: nunca sabe quanto. Fica sempre mais. Enquanto o dólar permitir e a saudade da mãe não apertar.

Tira meia-mala de roupas, pendura o que pode pelo escritório, improvisado em quarto. Para ela, suíte de luxo, não importa o desconforto. Para nós, decoração improvisada, de design só dela. Como as roupas cor local dos varais das janelas da Alfama, em Lisboa. A moça aceita o que vê e usa: a cama estreita demais para seu tamanho, o Rio, de Janeiro e de zoeira. Estão as amizades, está tudo OK. Nonchalance autêntica.

 Qualquer chance de cantar, prazer e capricho certos no vozeirão high and low - título de seu CD. Ainda que a platéia se mostre ruidosa, pequena ou ambas. Como na primeira vez em que a assisti, num clube do Leblon. Ensaiara, com o amigo pianista, a capricho, o recital de Sala Cecília Meireles. Introduzida pelo piano  seguro do amigo, Katrina surge no palco improvisado, nem percebe que os freqüentadores bobocas, do clube metido à besta, se recusam a escuta-la. Querem, sim, berrar e beber, no happy hour à moda carioca. Recital transmudado por fundo musical de gargalhadas, exageradas pelo álcool.

E ela, nem aí: solta a voz clube afora. Ninguém lhe borra o colorido do canto e o orgulho da voz poderosa. Sabe que tem fãs de melhor estirpe. Como os que a aplaudiram depois, em festa improvisada no meu playground.

Em dia de partida, casa descolorada de tristeza, cor cinza por toda a casa. Mais fumaça de nervosismo. Katrina arruma as malas, respinga lágrimas na amiga hospitaleira, que as devolve abundantes. Promete voltar breve. Dessa vez, mal sabe ela...

Passa-se o tempo, entre emails saudosos. Assim que chega a notícia do furacão macho, seu homônimo, por certo inspiração de algum cientista recalcado, arrepio geral de medo entre a gente amiga. Toca a procurar a americana de Nova Orleans. Durante arrastado tempo, pensamentos sombrios assombram os amigos brasileiros. Eis, por fim, um email: - Estou viva!

O maldito devora-lhe a casa, os pertences, o trabalho. Salva-lhe, milagre puro, os livros e a mãe. Quase a derruba de vez. A moça passa fome, sede, maus tratos... junto à multidão de refugiados, no gigantesco abrigo improvisado. Coragem e vigor dão-lhe escape. Resta-lhe  os parentes próximos,  a voz, a vida, afinal.

Hoje, Katrina mora na Califórnia. Recupera-se da brutalidade do que nem chegara a ser pesadelo efetivamente sonhado. Refaz o pouco-muito que um dia possuiu. Recebe CDs de música brasileira, enviados pelos companheiros artistas do Brasil, recompõe seu programa de rádio, agora inviável em Nova Orleans, sobretudo por seu nome, abusado sem sua permissão. Aquele programa radialista, a propaganda mais desinteressada e verdadeira do nosso país porque feita de amor ao nosso país, sem exigir paga.

Se o furacão engoliu, furioso e injusto, a cidade histórica americana mais simpática, resta à Katrina, delicada e talentosa, a Califórnia toda, para bradar aos sete ventos, através das ondas do rádio,  seu amor ao próprio canto e à  música do Brasil.

Um dia, o nome Katrina perde sua triste marca e volta a ser dignificado na bela voz  de contralto de uma Mulher. Deus é Pai!

Maria Lindgren

[1] Texto de canção do CD High and Low, cantada por Katrina, letra em inglês de Mathilda Kovak, compositora brasileira.

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