Maria Lindgren

 Lembranças de Viagem - Floripa, Minha Flor

            Começo pelo fim da viagem inesperada ao Sul: Florianópolis. Acompanho meu marido que vai a trabalho, verdadeira “mulher atrás de um grande homem”, horror das feministas, como eu mesma.

No aeroporto, ninguém a nos esperar, nenhum hotel reservado, medo de dar tudo errado. Cansados, após quase uma hora, caímos de joelhos diante de um homem com cara de motorista de táxi e pedimos um hotel não muito caro para passarmos a noite, enquanto escavávamos os miolos para descobrir a causa do desencontro. Resultado fatal: hotel mixuruca, no centro do paraíso prometido, a linda ilha de Florianópolis.

Saio do hotel de manhã, aliviada, depois do ron-ron-ron ininterrupto do ar condicionado surrado, do quarto com cheiro de mofo, que me entope o nariz bem mais do que mereço. Antes da carona para a Praia Brava chegar afinal, uma andadinha literalmente capenga, pela rua de comércio simples. Procuro, perna machucada a ranger as juntas, pilhas recarregáveis para a câmera digital comprada e não usada.

Gente, eu juro! Nunca vi roupinhas tão pequeninas: manequim 36 ou 38. Ou tão gigantescas: 48, 50, 52. Nada para meu corpo médio, relativamente conservado a suor de muita ginástica. E tudo caro, apesar dos 50% das “liquidações”. Culpa da invasão dos argentinos, me contaram depois. Graças a Deus, algo no Sul Maravilha é pior do que no Rio de Janeiro: as roupas de mulher.

Entro no carrão negro de casca e janelas, rumo ao novo lar emprestado por amigos, bem na praia.

Olha, cheguei., vi e caí dura: a Praia Brava é um tanto brava, mas a enseada verde de ondas brancas só tem similar em Búzios. Com a diferença enorme do condomínio de luxo à nossa disposição: apartamento-casa de quatro quartos, equipados de ar condicionado supersilencioso e todo o conforto de casa de cidade. Meu pequeno apart no Leblon encolheu-se, humilhado. E eu, fiquei feliz, à espera do marido trabalhador.

Afora as reclamações dos empregados sobre os argentinos bagunceiros, nenhum item sujeito a críticas negativas. Apaixonada por Buenos Aires e pelo espanhol, tento defender os “gringos” no bar da piscina. Sou interrompida pelo rock berrado em castelhano, pra ouvido nenhum agüentar.

Fico entre a praia e a piscina até o cair da tarde, dizendo para mim, ao soar um merengue mexicano apimentado: Valeu!

Tudo é mais, muito mais do que eu esperava: a casa, de cara para um mar de ondas apenas excitadas, emoldurado pela vegetação verde,  intocada pelas “ manchas” das favelas. Rapazolas, garotas, crianças se esbaldam na praia e na piscina. As moçoilas e mães enxutas obrigam-me a cobrir as pernas grossas, inteiramente fora de moda. Na piscina, procuro uma cadeira mais isolada e tomo um belo suco de abacaxi incrementado por vodca.

Nunca dormi tanto e tão bem em minha vida. Graças ao marulhar do encontro das ondas com a areia em três ou quatro etapas, ao ar condicionado quase mudo, ao corpo do marido a meu lado. Antes de dormir, agradeço a Deus, na maior convicção.

Dia seguinte, Xô para guerras, miséria, dor. Converso com as meninas já mães, que servem no bar, com ar e sotaque diferentes do que costumo testemunhar em minha cidade. O frescor do ambiente ajudam-nas a fazer do trabalho uma ocupação afável. Não se queixam, contam-me a vida como se me conhecessem há anos. Parece que não se recalcam com as outras moças refesteladas nas cadeiras, comendo “papas” fritas, bebendo cerveja hipergelada, papeando no linguajar do vos.  Ou o recalque é menos duro, devaneio.

Ao olhar o céu meio nublado, dou-me conta de que não sei distinguir mais cumulus de estratus ou nimbus,: esqueci o pouco que aprendi de nuvens na escola. Nem reconheço os passarinhos que pousam no gramado. Hay que estudiar, Maria!

Dois dias depois, a dona da casa e seus dois lindos netos. Sinto uma ligeira pontada de ciúme porque não tenho netos. É uma dama e tanto: mistura de poesia e política, que deu certo: “poesia e coragem”, ela se define, à perfeição.

O marido, também político, vem depois. Discutimos os destinos do país, sem discrepância: ambos são do partido de Brizola e constituem-se no melhor do PDT. Toda a família é ótima, acolhedora, gentil, discreta. Conversam em prosa fluente, cheia de energia, e apimentam a conversa com o sotaque meio que lusitano dessa ilha encantadora.

No sábado, os vizinhos providenciam um baita churrasco para todo o condomínio. A gente de Florianópolis é como os cariocas em bares e restaurantes: baita barulho, comida e chope a valer. Com a diferença de que estou no meio deles. Eu que raramente como carne, entro no churrasco.

O resto é o gosto esquisito da volta, a viagem de avião sempre meio temida, o medo de encontrar más notícias, E a torcida pra voltar breve ao aconchego do Sul brasileiro.

voltar