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Começo pelo fim da viagem inesperada ao Sul: Florianópolis.
Acompanho meu marido que vai a trabalho, verdadeira “mulher
atrás de um grande homem”, horror das feministas, como eu mesma.
No aeroporto, ninguém a nos
esperar, nenhum hotel reservado, medo de dar tudo errado.
Cansados, após quase uma hora, caímos de joelhos diante de um
homem com cara de motorista de táxi e pedimos um hotel não muito
caro para passarmos a noite, enquanto escavávamos os miolos para
descobrir a causa do desencontro. Resultado fatal: hotel
mixuruca, no centro do paraíso prometido, a linda ilha de
Florianópolis.
Saio do hotel de manhã,
aliviada, depois do ron-ron-ron ininterrupto do ar condicionado
surrado, do quarto com cheiro de mofo, que me entope o nariz bem
mais do que mereço. Antes da carona para a Praia Brava chegar
afinal, uma andadinha literalmente capenga, pela rua de comércio
simples. Procuro, perna machucada a ranger as juntas, pilhas
recarregáveis para a câmera digital comprada e não usada.
Gente, eu juro! Nunca vi
roupinhas tão pequeninas: manequim 36 ou 38. Ou tão gigantescas:
48, 50, 52. Nada para meu corpo médio, relativamente conservado
a suor de muita ginástica. E tudo caro, apesar dos 50% das
“liquidações”. Culpa da invasão dos argentinos, me contaram
depois. Graças a Deus, algo no Sul Maravilha é pior do que no
Rio de Janeiro: as roupas de mulher.
Entro no carrão negro de casca e
janelas, rumo ao novo lar emprestado por amigos, bem na praia.
Olha, cheguei., vi e caí dura: a
Praia Brava é um tanto brava, mas a enseada verde de ondas
brancas só tem similar em Búzios. Com a diferença enorme do
condomínio de luxo à nossa disposição: apartamento-casa de
quatro quartos, equipados de ar condicionado supersilencioso e
todo o conforto de casa de cidade. Meu pequeno apart no Leblon
encolheu-se, humilhado. E eu, fiquei feliz, à espera do marido
trabalhador.
Afora as reclamações dos
empregados sobre os argentinos bagunceiros, nenhum item sujeito
a críticas negativas. Apaixonada por Buenos Aires e pelo
espanhol, tento defender os “gringos” no bar da piscina. Sou
interrompida pelo rock berrado em castelhano, pra ouvido nenhum
agüentar.
Fico entre a praia e a piscina
até o cair da tarde, dizendo para mim, ao soar um merengue
mexicano apimentado: Valeu!
Tudo é mais, muito mais do que
eu esperava: a casa, de cara para um mar de ondas apenas
excitadas, emoldurado pela vegetação verde, intocada pelas “
manchas” das favelas. Rapazolas, garotas, crianças se esbaldam
na praia e na piscina. As moçoilas e mães enxutas obrigam-me a
cobrir as pernas grossas, inteiramente fora de moda. Na piscina,
procuro uma cadeira mais isolada e tomo um belo suco de abacaxi
incrementado por vodca.
Nunca dormi tanto e tão bem em
minha vida. Graças ao marulhar do encontro das ondas com a areia
em três ou quatro etapas, ao ar condicionado quase mudo, ao
corpo do marido a meu lado. Antes de dormir, agradeço a Deus, na
maior convicção.
Dia seguinte, Xô para guerras,
miséria, dor. Converso com as meninas já mães, que servem no
bar, com ar e sotaque diferentes do que costumo testemunhar em
minha cidade. O frescor do ambiente ajudam-nas a fazer do
trabalho uma ocupação afável. Não se queixam, contam-me a vida
como se me conhecessem há anos. Parece que não se recalcam com
as outras moças refesteladas nas cadeiras, comendo “papas”
fritas, bebendo cerveja hipergelada, papeando no linguajar do
vos. Ou o recalque é menos duro, devaneio.
Ao olhar o céu meio nublado,
dou-me conta de que não sei distinguir mais cumulus de estratus
ou nimbus,: esqueci o pouco que aprendi de nuvens na escola. Nem
reconheço os passarinhos que pousam no gramado. Hay que
estudiar, Maria!
Dois dias depois, a dona da casa
e seus dois lindos netos. Sinto uma ligeira pontada de ciúme
porque não tenho netos. É uma dama e tanto: mistura de poesia e
política, que deu certo: “poesia e coragem”, ela se define, à
perfeição.
O marido, também político, vem
depois. Discutimos os destinos do país, sem discrepância: ambos
são do partido de Brizola e constituem-se no melhor do PDT. Toda
a família é ótima, acolhedora, gentil, discreta. Conversam em
prosa fluente, cheia de energia, e apimentam a conversa com o
sotaque meio que lusitano dessa ilha encantadora.
No sábado, os vizinhos
providenciam um baita churrasco para todo o condomínio. A gente
de Florianópolis é como os cariocas em bares e restaurantes:
baita barulho, comida e chope a valer. Com a diferença de que
estou no meio deles. Eu que raramente como carne, entro no
churrasco.
O resto é o gosto esquisito da
volta, a viagem de avião sempre meio temida, o medo de encontrar
más notícias, E a torcida pra voltar breve ao aconchego do Sul
brasileiro. |