Maria Lindgren

 Lembranças e Lembretes- revivendo Zuzu Angel

                Mais um filme assistido com sensação de”dever cumprido”. Não estranhem, mas sempre que vejo anunciado um filme cujo tema me interessa, sinto a compulsão. Igual a de ir à missa aos domingos, de pintar os cabelos quando os fortes fios brancos insinuam seu brilho entre o matagal castanho à força; cortar o canto da unha do pé, quase encravada; estudar a lição de espanhol para a aula seguinte, qual criança no meu tempo chamada “Caxias”; sentar no computador e escrever... e milhões de outros pequenos e grandes deveres que, se não cumpro, não me aquieto.

            La película,, como dizem os de língua espanhola, esta, então, dava ganas de ir à primeira sessão do primeiro dia da estréia: Zuzu Angel, estrelada por Patrícia Pilar, de quem me sinto uma tia, de tanto que simpatizo; direção de Sergio Rezende, velho conhecido desde os tempos de O Homem da Capa Preta.

O tema, mais que tudo, sempre me atraía pelo temor, pelas perdas, mais relatadas por amigos e amigas do que propriamente vividas, da maldita ditadura de 1964. Mais o irresistível apelo da mulher elegante que se vê envolvida. Época de amigos presos, torturados e, sobretudo, de um deles que, à semelhança do filho da Zuzu, saiu de casa, para nunca mais dar noticias. E o que é pior: “foi visto no DOPS do Rio”, corria a família, sem sucesso. “Está em Salvador”, lá ia a mulher para o ponto citado. “Exilou-se no Uruguai”, toca de procura-lo na Bahia...

O filme como um todo, vou logo adiantando, não é perfeito: tem altos e baixos, sua linguagem é linear o suficiente para não entrar na lista de filmes “cabeça” ou “cult- vide Amnésia, O Corte, Ponto Final  e tantos outros dos dias de hoje, fora os antigões. Mas vale o desejo de vê-lo, para muita gente de todas as idades, por variegados motivos.

 O argumento, por si só, atrai. Para os que viveram os “Anos de Chumbo” dói, mas é preciso não esquecer a estupidez do regime militar, com suas perseguições absurdas a todos os que contra ele protestavam, mesmo pacificamente – vide a inesquecível Passeata dos Cem Mil que, mal chegava à Cinelândia e era desbaratada pelos truculentos policiais, ainda que encabeçada por artistas e intelectuais superconhecidos.

Em tempos de disseminação do desejo das meninas-moças, quase anoréxicas, de se tornarem modelos, de  Fashion Weeks banalizadas para nós, meros mortais médios, através do barateamento televisivo dos desfiles, o mundo da moda é, mais do nunca, muito atraente. Até mesmo para os mais pobres: é só fazerem um “gato” e pegarem a NET.

Acresce-se o elenco de atores e atrizes da TV, que tornam qualquer espetáculo cinematográfico ou teatral, no Rio e alhures, um sucesso de bilheteria. Basta a Luana Piovani, ainda que sem “saia justa”, no papel de Elke Maravilha, amiga de Zuzu, e a própria velha Elke, caricatura de vedete levada ao máximo do exagero, a cantar, solene, canção em grego.

 Ainda mais, a protagonista é uma mulher separada – um enorme e contínuo avanço dos anos 50  até os 70 do século XX, comum nos nossos dias, independente financeira e emocionalmente do marido, outro marcante degrau galgado. Linda, elegantérrima, com dois  filhos charmosos, a famosa estilista de modas, consegue viver meio sofisticado e vida familiar sem atritos. Até que a bomba mais inesperada neste mundo de ouro, vai acendendo para explodir, diante dos olhos da mãe-mulher exemplar. Seu filho adorado se faz militante da luta armada contra a ditadura militar, acaba no destino de muitos jovens entusiasmados com a igualdade social e influência de Che Quevara e Fidel: vira poeira, não antes de passar pelas torturas físicas e morais infligidas nas prisões.

Patrícia Pilar é ótima como estilista de belos figurinos bem brasileiros, usados por modelos genuinamente brasileiras, que não escondem a natural sensualidade da mulher carioca e não imitam as estranhas magrezas ou passadas de um pé colocado logo a frente de outro pé, dos desfiles de atuais. Estaria perfeita, não fora a obrigação de mudar dos settings dos desfiles e dos salões da alta sociedade para viver a mãe desesperada, à procura do filho, “sumido” nos meios policiais grotescos. Fica longe da atuação impecável de Jack Lemmon, no papel do pai do filho desaparecido em Missing, aflitiva e constrangedora obra de Costa-Gravas, sobre situação similar, no Chile de Pinochet. É verdade que Patrícia está praticamente sozinha, enquanto que Lemmon tem  a excelente Sissy Spacek para o acompanhar.

            De todo jeito, não é para se criticar duramente este tipo de filme, principalmente, junto às gerações mais novas. Fui a cinema badalado de Ipanema: a jovem platéia sentiu de fato o drama, acompanhou em silêncio as torturas terríveis bem apresentadas; sorriu constrangida das ironias e das mentiras dos mesquinhos militares torturadores, regozijou-se com as palavras da Zuzu-mãe destemida, e aprovou o filme sobre um horror que jamais viveram na pele.

Palmas, muitas palmas no final da sessão! 

Maria Lindgren

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