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Era
uma reunião de cardeais para decidir o novo Papa, não importa o
tema tratado: uma cirurgia simples de apêndice ou de um
famigerado câncer, a cerimônia do casamento do primo ou da prima
ou o divórcio da sobrinha... Em caso de viagem coletiva de
férias, valha-me Deus! Três a quatro horas de sussurros ao
ouvido, troca de opiniões, gritos eventuais. Para onde ir, quem
ir, quanto pagar, entre várias outras questões mais comezinhas.
A
família inteira reunia-se quando se tratava de tomar uma
decisão. Hábito de meio século ou mais. Afora um ou dois tios
falecidos, sentavam-se os mais de quinze membros ainda
restantes. È verdade que a cada vez, menor número de
integrantes: doença, velhice ou morte.
Crianças com vez e voz a partir dos sete anos, cerveja,
refrigerantes, mais tira-gostos preparados a capricho por cada
mulher da família, casada ou solteira.
Gente de fora, admitiam cunhados e cunhadas fixas de
alguns. Namorados de filhos e sobrinhos, nunca! Não se
configuravam como parte do clã dos Almeida.
A irmã mais palpiteira, Ambrosina, líder inconteste
desde muito jovem, dominava a mesa redonda. Naquele dia, colocou
em pauta o aniversário de noventa anos da irmã Dindinha, viúva
há bem uns quinze anos.
Palpites e mais palpites. As crianças inquietas queriam
era brincar e não aturar horas de debate familiar. Levantavam-se
em trejeitos de quem foi picado por pernilongo, para logo se
sentarem, por ordem de Ambrosina.
Os
ainda moços e solteiros torciam por um resultado rápido, a festa
rave a esperá-los, excitante, às 10 da noite daquele
sábado decisório. Os que tinham namoradas ou simplesmente
“ficavam” ansiavam pela hora da trepada, com tesão próprio da
idade.
Os
casais ainda novos sonhavam um filme de três ou quatro estrelas,
de boa qualidade, uma pizzaria de fama, com outro casal -
diferente do ramerrão cotidiano.
Os
mais velhos não se apressavam: aproveitavam para relembrar fatos
da boa época dos aniversários bem organizados.
-
Parece que agora, vocês nem se incomodam com as comemorações da
família! Que ingratidão! Um dia, quando a velhice chegar, vocês
vão ter o troco! – advertiu Ambrosina.
Dindinha pouco falava. Ela, que não perdia bate-papo com quem
quer que fosse. Alguma coisa machucava-lhe a raiz da alma. Nunca
imaginara chegar aos noventa anos: o marido fora-se aos menos de
oitenta. Ah! Era isso! A falta do marido, emérito bebedor de
cerveja, doía mais em momento de celebrações ou planos para tal.
Suspiro bem fundo, mão no peito e o comentário:
-
Que falta me faz o Antonio! Frase repetida sem coro de
lamentações a acompanhá-la, nem por solidariedade, ao menos.
-
Pra quê marido, titia?! Nós não estamos aqui todos juntos? Que
mania de se queixar da vida!
-
Madrinha, esquece o Antonio. Já é tempo de pôr um ponto final na
saudade. Aliás, ele não faz nenhuma falta. Sempre foi um chato.
Ninguém dizia a verdade para não chatear a senhora.
Dindinha parecia querer contra-argumentar: acabou desistindo,
contagiada pelo vírus incurável da acalorada discussão.
Quase no final, resolvidos itens fundamentais - salão em clube,
salgadinhos e doces de empregada contratada, bolo tradicional,
muita cerveja e coca-cola -, pairou no ar uma dúvida: baile ou
não baile, música de fundo musical ou de dança.
Afinal, valia a palavra ainda vigorosa de Dindinha, dona
da festa. Embora um tanto rouquenha, ela sentenciou:
-
Baile, ora essa! Desde quando se faz festa minha sem baile?!
No
último baile de aniversário, crescia em Dindinha a vontade de
mais um, mais um. Dos quinze anos da debutante aos noventa dos
dias de hoje.
Nem precisava ser baile comemorativo. Era a verdade
difícil de acreditar, para gente de fora da família restrita.
Antes e depois de casada, na sexta-feira à noite, Dindinha
puxava do armário um vestido de saia rodada, tipo anos 1950,
sapato confortável de salto alto – não sabia nem ir às compras
de salto baixo – perfume francês, guardado para aqueles
instantes mágicos, e... direto à pista de dança.
Volteava pelos salões do clube com parentes disponíveis,
dançarinos de ocasião, de vocação inata. Certamente, não o
marido. Depois de um tempo, gente de menos idade que ela, é
certo. Mas ela, nem aí!
De
olhos fechados, meio sorriso nos lábios de batom bem vermelho,
cabelo grisalho bem penteado em cabeleireiro do bairro, nos
braços de Fred Astaire, de ontem, ou Carlinhos de Jesus, de
hoje, admirada pela platéia invejosa. Graciosa, soltava-se do
parceiro, um braço esticado, para voltar ao enlace do corpo, um
tanto de suor quente a aumentar-lhe o êxtase.
Sempre assim. Mais ainda, depois da viuvez, que lhe
deixara parca pensão, nenhum luxo e muita tristeza. Dindinha
gastava somente nos convites e confirmações telefônicas para
acompanhá-la. O resto da família custeava as despesas de táxi,
talvez de uma ou outra peça de vestuário.
Ficou acertado para os noventa anos de Dindinha: não abririam
para muita gente. Nada de salão apinhado de conhecidos ligeiros;
salão nobre espaçoso, trilha sonora de gravações impecáveis, sem
chiado ou falhas. Nada de rock. Valsas, boleros, sambas-canção,
ritmos de gravações de Frank Sinatra, orquestra Tabajara, Ray
Conniff..., não importa se estrangeiros ou brasileiros,
desfilariam em fita organizada com muito cuidado e acuidade
experiente, pelos sobrinhos ou sobrinhos netos.
O
corpo idoso de Dindinha, às vezes, bem que lhe armava arapucas
típicas do cotidiano de senhora idosa. Tropeçava em buracos
traiçoeiros, arfava-lhe o peito com bronquite asmática, doía-lhe
a coluna lombar... Na hora do baile, milagre: a cura, sem
curandeiro ou santa.
Agora, aos noventa, a família não queria poupar despesas para a
festa. O clube escolhido era tão exclusivo que a promoter
encarregava-se de telefonar aos convivas, confirmando presença.
Ao velho estilo répondez s´il vous plait. Ninguém ousaria
dizer não a evento tão pouco banal, apesar de, nos dias
atuais, viver-se a Terceira Idade na rua, na dança, como jamais
se pensara.
A
manhã nublada, a tarde chuvosa, umas tantas notícias de
inundações cariocas, não interferiam no ânimo da aniversariante.
Todos a postos, anfitriã e convidados.
Às
quase nove horas da noite, o telefone soou insistente. Engano,
na certa. Não havia sobrado nenhum detalhe. Tudo OK: o sobrinho
a levaria de carro às nove em ponto.
Inquieta com a insistência da campainha, Dindinha quase borrou o
batom e o traço dos olhos ainda bem abertos e azuis, percebidos
no espelho de lente de aumento, sem retoque de ninguém: visão de
menina.
A
empregada adentra o quarto, com jeito canhestro.
-
Que foi, menina? Por que essa cara esquisita?! Hoje é dia de
a-le-gri-a.
- É
que...A notícia é urgente: a irmã da senhora, D. Ambrosina,
acaba de morrer.
-
È, minha filha, meu baile vai ter que ser adiado pra semana que
vem, depois da missa. |