Maria Lindgren

Lição De Vida 

 Era uma reunião de cardeais para decidir o novo Papa, não importa o tema tratado:  uma cirurgia simples de apêndice ou  de um famigerado câncer, a cerimônia do casamento do primo ou da prima ou o divórcio da sobrinha... Em caso de viagem coletiva de férias, valha-me Deus! Três a quatro horas de sussurros ao ouvido, troca de opiniões, gritos eventuais. Para onde ir, quem ir, quanto pagar, entre várias outras questões mais comezinhas.

A família inteira reunia-se quando se tratava de tomar uma decisão. Hábito de meio século ou mais. Afora um ou dois tios falecidos, sentavam-se os mais de quinze membros ainda restantes. È verdade que a cada vez, menor número de integrantes: doença, velhice ou morte.

 Crianças com vez e voz a partir dos sete anos, cerveja, refrigerantes, mais tira-gostos preparados a capricho por cada mulher da família, casada ou solteira.

        Gente de fora, admitiam cunhados e cunhadas fixas de alguns. Namorados de filhos e sobrinhos, nunca! Não se configuravam como parte do clã dos Almeida.

        A irmã mais palpiteira, Ambrosina, líder inconteste desde muito jovem, dominava a mesa redonda. Naquele dia, colocou em pauta o aniversário de noventa anos da irmã Dindinha, viúva há bem uns quinze anos.

        Palpites e mais palpites. As crianças inquietas queriam era brincar e não aturar horas de debate familiar. Levantavam-se em trejeitos de quem foi picado por pernilongo, para logo se sentarem, por ordem de Ambrosina.

Os ainda moços e solteiros torciam por um resultado rápido, a festa rave a esperá-los, excitante, às 10 da noite daquele sábado decisório. Os que tinham namoradas ou simplesmente “ficavam” ansiavam pela hora da trepada, com tesão próprio da idade.

Os casais ainda novos sonhavam um filme de três ou quatro estrelas, de boa qualidade, uma pizzaria de fama, com outro casal - diferente do ramerrão cotidiano.

Os mais velhos não se apressavam: aproveitavam para relembrar fatos da boa época dos aniversários bem organizados.

- Parece que agora, vocês nem se incomodam com as comemorações da família! Que ingratidão! Um dia, quando a velhice chegar, vocês vão ter o troco! – advertiu Ambrosina.

Dindinha pouco falava. Ela, que não perdia bate-papo com quem quer que fosse. Alguma coisa machucava-lhe a raiz da alma. Nunca imaginara chegar aos noventa anos: o marido fora-se aos menos de oitenta. Ah! Era isso! A falta do marido, emérito bebedor de cerveja, doía mais em momento de celebrações ou planos para tal.

Suspiro bem fundo, mão no peito e o comentário:

- Que falta me faz o Antonio! Frase repetida sem coro de lamentações a acompanhá-la, nem por solidariedade, ao menos.

- Pra quê marido, titia?! Nós não estamos aqui todos juntos? Que mania de se queixar da vida!

- Madrinha, esquece o Antonio. Já é tempo de pôr um ponto final na saudade. Aliás, ele não faz nenhuma falta. Sempre foi um chato. Ninguém dizia a verdade para não chatear a senhora.

Dindinha parecia querer contra-argumentar: acabou desistindo, contagiada pelo vírus incurável da acalorada discussão.

Quase no final, resolvidos itens fundamentais - salão em clube, salgadinhos e doces de empregada contratada, bolo tradicional, muita cerveja e coca-cola -, pairou no ar uma dúvida: baile ou não baile, música de fundo musical ou de dança. 

        Afinal, valia a palavra ainda vigorosa de Dindinha, dona da festa. Embora um tanto rouquenha, ela sentenciou:

 - Baile, ora essa!  Desde quando se faz festa minha sem baile?!

No último baile de aniversário, crescia em Dindinha a vontade de mais um, mais um. Dos quinze anos da debutante aos noventa dos dias de hoje. 

        Nem precisava ser baile comemorativo. Era a verdade difícil de acreditar, para gente de fora da família restrita. Antes e depois de casada, na sexta-feira à noite, Dindinha puxava do armário um vestido de saia rodada, tipo anos 1950, sapato confortável de salto alto – não sabia nem ir às compras de salto baixo – perfume francês, guardado para aqueles instantes mágicos, e... direto à pista de dança.

 Volteava pelos salões do clube com parentes disponíveis, dançarinos de ocasião, de vocação inata. Certamente, não o marido. Depois de um tempo, gente de menos idade que ela, é certo. Mas ela, nem aí!

De olhos fechados, meio sorriso nos lábios de batom bem vermelho, cabelo grisalho bem penteado em cabeleireiro do bairro, nos braços de Fred Astaire, de ontem, ou Carlinhos de Jesus, de hoje, admirada pela platéia invejosa. Graciosa, soltava-se do parceiro, um braço esticado, para voltar ao enlace do corpo, um tanto de suor quente a aumentar-lhe o êxtase.

        Sempre assim. Mais ainda, depois da viuvez, que lhe deixara parca pensão, nenhum luxo e muita tristeza. Dindinha gastava somente nos convites e confirmações telefônicas para acompanhá-la. O resto da família custeava as despesas de táxi, talvez de uma ou outra peça de vestuário.

Ficou acertado para os noventa anos de Dindinha: não abririam para muita gente. Nada de salão apinhado de conhecidos ligeiros; salão nobre espaçoso, trilha sonora de gravações impecáveis, sem chiado ou falhas. Nada de rock. Valsas, boleros, sambas-canção, ritmos de gravações de Frank Sinatra, orquestra Tabajara, Ray Conniff..., não importa se estrangeiros ou brasileiros, desfilariam em fita organizada com muito cuidado e acuidade experiente, pelos sobrinhos ou sobrinhos netos.

O corpo idoso de Dindinha, às vezes, bem que lhe armava arapucas típicas do cotidiano de senhora idosa. Tropeçava em buracos traiçoeiros, arfava-lhe o peito com bronquite asmática, doía-lhe a coluna lombar... Na hora do baile, milagre: a cura, sem curandeiro ou santa.

Agora, aos noventa, a família não queria poupar despesas para a festa. O clube escolhido era tão exclusivo que a promoter encarregava-se de telefonar aos convivas, confirmando presença. Ao velho estilo répondez s´il vous plait. Ninguém ousaria dizer não a evento tão pouco banal, apesar de, nos dias atuais, viver-se a Terceira Idade na rua, na dança, como jamais se pensara.

A manhã nublada, a tarde chuvosa, umas tantas notícias de inundações cariocas, não interferiam no ânimo da aniversariante. Todos a postos, anfitriã e convidados.

Às quase nove horas da noite, o telefone soou insistente. Engano, na certa. Não havia sobrado nenhum detalhe. Tudo OK: o sobrinho a levaria de carro às nove em ponto.

Inquieta com a insistência da campainha, Dindinha quase borrou o batom e o traço dos olhos ainda bem abertos e azuis, percebidos no espelho de lente de aumento, sem retoque de ninguém: visão de menina.

A empregada adentra o quarto, com jeito canhestro.

- Que foi, menina? Por que essa cara esquisita?! Hoje é dia de a-le-gri-a.

- É que...A notícia é urgente: a irmã da senhora, D. Ambrosina, acaba de morrer.

- È, minha filha, meu baile vai ter que ser adiado pra semana que vem, depois da missa.

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