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“Visitar
Madrinha! Visitar Madrinha!” Primeiras palavras obsessivas do
dia seguinte ao Natal. Dessa vez, não foram os pedaçoc de
melodias conhecidas que costumam aparecer no sono, intrusos, e
às vezes perduram e perturbam o dia todo. Eram palavras
mecânicas, ritmadas, a martelar-lhe a cabeça. Idéia fixa.
Olívia
sentia-se cansada das brincadeiras e tensões, próprias da festa
da natividade de Jesus Cristo, madrugada adentro: amigo oculto,
brindes ao Natal, risos de crianças e adultos, esquecidos das
rezas e homenagens ao personagem principal da comemoração.
A ordem de
comando interior queria, no entanto, ser obedecida, sem
resmungos. Explicava-se: a noite desse Natal, com direito a
júbilo e ceia exagerados, dava-lhe tremendo sentimento de culpa.
Contrastava com a visão melancólica, de mulheres a ela
chegadas, silentes, macambúzias, em torno da comida, improvisada
apenas para justificar o apelido de Ceia, em casa de doente
incurável. Casa de Madrinha.
Viu-se
impulsionada pelo desejo de levar, pelo menos, os ecos do Natal
à sogra, irmã de Madrinha, sentir a doença da senhora,
segurar-lhe a mão, rezar por ela, com elas.
Desde que se
casara com Gustavo, a figura da madrinha do esposo a deixara
curiosa. Segundo depoimento concordado pelo demais parentes,
tratava-se de uma moça bem interessante de físico e de cabeça,
portanto, propícia ao casamento. Entretanto, testemunhara
indiferente a saída das irmãs, sem expressar sinal de desejo
similar. Professora de boa fama, permanecera na cidade pequena e
interiorana de seu nascimento. Sentia-se, desde muito jovem,
atada em elo inquebrantável aos pais, primeiro; depois, às tias.
Era como se um ímã atmosférico invisível a envolvesse e puxasse
para o solo familiar. Ateve-se, por vontade própria, ao mundinho
acanhado das aulas da escola básica, das conversas ao pé do
ouvido, das leituras limitadas, do calor de há muito seu
conhecido. Nada de novidades.
Como uma Emily
Dickinson sem o talento e a aventura magnética da poesia,
deixava-se embalar pela quietude dos arredores e da paisagem,
pela ventura de ser companhia às parentas que se deterioravam
com a idade, embora longevas.
Saídas, apenas
em casos raros de aniversário de algum sobrinho, afilhado ou
não, ou visita, ainda mais incomum à casa das irmãs. Então se
vestia com elegância , apurando-se no andar e nas conversas
inteligentes.
Convocou o
marido, ainda fora do contexto luminoso da manhã de verão, por
conta da fadiga acumulada no trabalho cotidiano e do repentino
não-fazer-nada do recesso cansativo de fim de ano.
- Vamos ver
sua mãe e sua madrinha amanhã? Podemos sair cedo de manhã, e
voltar à tarde. Tomara que não chova! Vai ser uma surpresa.
Levamos os restos da comida do Natal, para não dar trabalho
extra à empregada de plantão.
A resposta
positiva deu-lhe um sentimento de exultação religiosa. Agora,
sim, entrava-lhe pelos poros, direto ao coração, o sentido mais
cristão do nascimento de Cristo: paz, caridade e esperança na
renovação da vida.
À noite da
véspera, sono dos “justos”, como se falava antigamente, sem
distinção de quem merecia tal designação. Nem sonhos a serem
relembrados. Somente um ressonar tranqüilo e tranqüilizador de
ambos, marido e mulher. Os lençóis e travesseiros não se
amarfanharam. Comungaram do bem-estar, amanheceram sem pregas,
nem marcas de baba escorrida dos cantos da boca. A cama
respirava calma.
Clima
agradável, manhã enevoada sem exageros não traduziam o temporal
da véspera. Céu azul pálido, sol ainda encabulado, forçando,
avião indômito, as nuvens de diferentes tons de branco. Previsão
de bons augúrios. Motores a postos, à casa da Madrinha, no
interior do Estado!
Relatos da
enchente danosa à cidade serrana foram deixados na televisão. O
caminho cheio de curvas da estrada de Petrópolis, para surpresa
de Olívia, não lhe causava enjôo, ao contrário de seu tempo de
criança. A sensação da verde natureza montanhosa conspirava
para o bem geral.
Olívia
respirou em relaxamento natural, sem esforço para dar um
chega-pra-lá em pensamentos sombrios. Sempre acontecia, quando a
moça largava da poluição para entrar no ar puro. A serra
fluminense a aguardava, com beleza esbanjada. Os ramos
exuberantes das flores prematuras da Quaresma esqueciam-se
daquilo que teriam de anunciar, meses mais tarde. A vegetação, o
céu, a brisa se fizeram dádiva divina.
Chegaram
rápido demais ao município pequenino e bem tratado. Contavam-se
umas três praças, cuidadas com afeto flagrante; ruas velhas e
novas bem recauchutadas ou de novo calçadas; casas antigas bem
conservadas, a maioria sem remendos deformadores. O trânsito
quase nulo permitia um verdejar forte, luminoso e não poluído,
às folhas das plantas, arbustos e árvores. O ar, de fato,
arejava. Na sombra, então! Em meio ao calor suportável, os “sons
do silêncio” encantando, sem perturbar.
Súbito, chuva
torrencial e relâmpagos, logo à entrada da casa de Madrinha. Foi
saltarem do carro e se encharcarem. Em vão, correram para a
varandinha - estranho hábito geral de apressar o passo ao sinal
de chuva grossa anunciada.
Pingando no
chão de ladrilhos, durante alguns segundos, nenhuma resposta ao
“ó de casa” gritado! Porta aberta, os visitantes foram
adentrando a sala, sem pudor de molhar o chão. A empregada, em
passadas vagarosas de interiorana, aproximava-se, guarda-chuva
em uma das mãos, para o nada; na outra, útil pano de secar.
A sogra de
Olívia saía do banheiro e, ao vê-los, colou satisfação enorme ao
rosto. Sorridente, caiu-lhes nos braços, elogiando presentes
natalinos, gemendo beijos e abraços de conforto amoroso.
- Mãe, como
foi sua noite de Natal?, perguntou o marido de Olívia,
pressupondo a resposta.
- Triste,
muito triste, meu filho. Sentei à mesa com a empregada da noite
e comemos o que eu pude trazer de ceia, olhando a televisão,
enquanto sua madrinha dormia no quarto.
Certinha a
visão de Olívia. Mais uma vez, ela se assegurou da boa idéia da
visita. Em seguida, outro impulso, sadio porque do coração:
pé-ante-pé dirigiu-se ao quarto da frente. Foi, então, que se
deparou com Madrinha. Ou melhor, com o pouco que restava da
senhora de antanho, elegante e vaidosa Madame Chanel do interior
fluminense.
A moça
experimentou, por um átimo de tempo, o mesmo ímpeto de fuga de
todas as vezes que, em criança, fora obrigada pelos pais a
visitar pessoa muito doente. Controlou-se, respirou fundo e
examinou minuciosamente a senhora. A começar pelas pernas
magérrimas, em seguida subindo o olhar até o rosto. Os cabelos
lisinhos e brancos haviam escapado à devastação do Alzheimer,
porque de boa qualidade; o nariz talvez ainda conservasse o
perfil correto.E do resto, nada mais.
Olívia não
chorou. O aperto na garganta era tal que os olhos igualmente se
trancaram, sem se fecharem. Saiu do quarto, com remorso de
deixar sozinha a doente totalmente indefesa.
O almoço veio
amenizar-lhe a angústia. Bela comida fresca da gente do
interior: arroz alvejado, de brilhar ao sol; feijão pretinho, em
contraste indispensável; carne enroladinha e macia, galinha
idem, legumes em salada. O bacalhau de forno, sobra da ceia do
Natal de Fartura de Olívia, ficou, coitado, para uma única
pessoa salivar por ele: a mãe de seu marido. Bacalhau de
receita para quê, se a comidinha caseira, sem régua e compasso,
tinha sabor dos céus?! As três sobremesas, então! Improvisadas
por mãos de vocação inata, empurravam para a gulodice. Como no
passado de Madrinha saudável.
Depois, a
volta ao motivo essencial da visita. A enferma havia “acordado”
dos muitos cochilos de seu enigmático dia. Esforçava-se para
abrir os olhos, produzir sons assemelhados a uma fala coerente.
Resultavam frustrações de ruídos mal combinados, ininteligíveis.
A muito custo,
a acompanhante do dia conseguiu colocar a senhora inválida numa
cadeira de rodas, empurrando-a para a varandinha, na qual as
visitas haviam sentado com a sogra de Olívia. Para apreciar a
pracinha, as brincadeiras da criançada local e, mais que tudo,
conversar trivialidades meio constrangidas.
O cenário
acolhedor, o cheiro da terra recém-molhada, os passarinhos
bebericando as poças da chuva recente, o alarido das crianças e
as vozes altas das visitas nada disso entrava em Madrinha, a
ponto de traze-la da lonjura desconhecida onde se encontrava.
Quando não dormitava, insistia nos arremedos de palavras sem
nexo. Para desespero de Olívia, a muito custo disfarçado.
A visitante
não desejava contaminar os demais. Pareciam-lhe tão apaziguados,
quase naturais. Na verdade, a sogra se habituara às doenças
traumáticas, pela própria condição de senhora viúva, calejada
por perdas. E o marido de Olívia era médico: encarava doença com
interesse em resolve-la. Quando a resposta aos cuidados seria
fatalmente negativa, aceitava o destino.
Na mente
azucrinada de Olívia, pensamento obstinado: rever a figura da
mulher bonita e fina de gosto, que conhecera de fotos, relatos
e, eventualmente, de presença, em aniversários não tão antigos
assim. Em nenhum ponto, o aspecto da Madrinha de hoje casava-se
com a impressão memorizada por Olívia.
Revoltada com
a situação atual de impacto, admirava a tranqüilidade do marido,
de mão dada com a doente, dirigindo-lhe perguntas
invariavelmente sem resposta.
“Que coisa
injusta!”, pensava.
Na verdade,
não deixava de ter razão. Para quê uma vida inteira de mulher
professora competente, dedicada a cuidar de alunos e de
figuras familiares mais velhas e próximas?
Madrinha
tinha carradas de razões para ser resguardada de um futuro
cruel. Não o foi. Repetia, sem o saber, as tias longevas,
acamadas por longo tempo. A figura bastante sofisticada para seu
meio, transformara-se em personagem de textos e cenas de
flagelos. Quase o Cristo, de Mel Gibson.
Passou-se a
tarde numa espécie de indolência dolorosa, contaminadora. O
casal não tinha coragem de pronunciar ‘‘Vamos?!” Parecia que um
deixava ao outro a incumbência árdua. Há que se ter cabeça de
doido ou bêbado delirantes, nesses momentos em que a razão é
rasgada pela emoção.
Depois de um
certo tempo, foi a sogra de Olívia que, percebendo o clima de
embaraço, os salvou da indecisão covarde.
- É bom vocês
não demorarem demais. A noite na estrada pode ser perigosa. Tem
havido muito nevoeiro, chuva forte e deslizamentos.
Um último
olhar para as senhoras, um beijo jogado retribuído e outro não,
e adeus, Madrinha!
No carro,
Olívia catou o resto de otimismo possível:
- Quem sabe,
ela não melhora?
- Não
adianta!, responde o marido - Alzheimer é assim mesmo. Na melhor
das hipóteses, ela vai-se acalmar um pouco mais. Até morrer.
O sol sumindo
sem morte no entardecer da serra, a companhia apaziguadora do
marido, o sentimento do Natal verdadeiro, a música bonita no
rádio... aliviavam-na, mas não lhe respingaram a ânsia de ver
Madrinha curada.
A imagem da
enferma a perturbaria por muitos dias. E, sobretudo, noites. Nem
Olívia queria esquecer depressa o penar da madrinha do marido.
Muito, muito depois, sim, poderia olhar as fotos de família e
admirar outra vez a mulher solteira por escolha, abnegada, mas
vaidosa, professora e diretora de escola, de muito respeito.
Sempre Madrinha. |