Maria Lindgren

 Madrinha

“Visitar Madrinha! Visitar Madrinha!” Primeiras palavras obsessivas do dia seguinte ao Natal. Dessa vez, não foram os pedaçoc de melodias conhecidas que costumam aparecer no sono, intrusos, e às vezes perduram e perturbam o dia todo. Eram palavras mecânicas, ritmadas, a martelar-lhe a cabeça. Idéia fixa.

Olívia sentia-se cansada das brincadeiras e tensões, próprias da festa da natividade de Jesus Cristo, madrugada adentro: amigo oculto, brindes ao Natal, risos de crianças e adultos, esquecidos das rezas e homenagens ao personagem principal da comemoração.

 A ordem de comando interior queria, no entanto, ser obedecida, sem resmungos. Explicava-se: a noite desse Natal, com direito a júbilo e ceia exagerados, dava-lhe tremendo sentimento de culpa. Contrastava com a visão melancólica, de mulheres  a ela chegadas, silentes, macambúzias, em torno da comida, improvisada apenas para justificar o apelido de Ceia, em casa de doente incurável. Casa de Madrinha.

Viu-se impulsionada pelo desejo de levar, pelo menos, os ecos do Natal à sogra, irmã de Madrinha, sentir a doença da senhora, segurar-lhe a mão, rezar por ela, com elas.

Desde que se casara com Gustavo, a figura da madrinha do esposo a deixara curiosa. Segundo depoimento concordado pelo demais parentes, tratava-se de uma moça bem interessante de físico e de cabeça, portanto, propícia ao casamento. Entretanto, testemunhara indiferente a saída das irmãs, sem expressar sinal de desejo similar. Professora de boa fama, permanecera na cidade pequena e interiorana de seu nascimento. Sentia-se, desde muito jovem, atada em elo inquebrantável aos pais, primeiro; depois, às tias. Era como se um ímã atmosférico invisível a envolvesse e puxasse para o solo familiar. Ateve-se, por vontade própria, ao mundinho acanhado das aulas da escola básica, das conversas ao pé do ouvido, das leituras limitadas, do calor de há muito seu conhecido. Nada de novidades. 

Como uma Emily Dickinson sem o talento e a aventura magnética da poesia, deixava-se embalar pela quietude dos arredores e da paisagem, pela ventura de ser companhia às parentas que se deterioravam com a idade, embora longevas.

Saídas, apenas em casos raros de aniversário de algum sobrinho, afilhado ou não, ou visita, ainda mais  incomum à casa das irmãs. Então se vestia com elegância , apurando-se no andar e nas conversas inteligentes.

 

Convocou o marido, ainda fora do contexto luminoso da manhã de verão,  por conta da fadiga acumulada no trabalho cotidiano e do repentino não-fazer-nada do recesso cansativo de fim de ano.

- Vamos ver sua mãe e sua madrinha amanhã? Podemos sair cedo de manhã, e voltar à tarde. Tomara que não chova! Vai ser uma surpresa. Levamos os restos da comida do Natal, para não dar trabalho extra à empregada de plantão.

A resposta positiva deu-lhe um sentimento de exultação religiosa. Agora, sim, entrava-lhe pelos poros, direto ao coração, o sentido mais cristão do nascimento de Cristo: paz, caridade e esperança na renovação da vida.

À noite da véspera, sono dos “justos”, como se falava antigamente, sem distinção de quem merecia tal designação. Nem sonhos a serem relembrados. Somente um ressonar tranqüilo e tranqüilizador de ambos, marido e mulher. Os lençóis e travesseiros não se amarfanharam. Comungaram do bem-estar, amanheceram sem pregas, nem marcas de baba escorrida dos cantos da boca. A cama respirava calma.

Clima agradável, manhã enevoada sem exageros não traduziam o temporal da véspera. Céu azul pálido, sol ainda encabulado, forçando, avião indômito, as nuvens de diferentes tons de branco. Previsão de bons augúrios. Motores a postos, à casa da Madrinha, no interior do Estado!

Relatos da enchente danosa à cidade serrana foram deixados na televisão. O caminho cheio de curvas da estrada de Petrópolis, para surpresa de Olívia, não lhe causava enjôo, ao contrário de seu tempo de criança. A sensação da verde natureza montanhosa  conspirava para o bem geral.

Olívia respirou em relaxamento natural, sem esforço para dar um chega-pra-lá em pensamentos sombrios. Sempre acontecia, quando a moça largava da poluição para entrar no ar puro. A  serra fluminense a aguardava, com beleza esbanjada. Os ramos exuberantes das flores prematuras da Quaresma esqueciam-se daquilo que teriam de anunciar, meses mais tarde. A vegetação, o céu, a brisa se fizeram dádiva divina.

Chegaram rápido demais ao município pequenino e bem tratado. Contavam-se umas três praças, cuidadas com afeto flagrante; ruas velhas e novas bem recauchutadas  ou de novo calçadas; casas antigas bem conservadas, a maioria sem remendos deformadores. O trânsito quase nulo permitia um verdejar forte, luminoso e não poluído, às folhas das plantas, arbustos e árvores. O ar, de fato, arejava. Na sombra, então! Em meio ao calor suportável, os “sons do silêncio” encantando, sem perturbar.

Súbito, chuva torrencial e relâmpagos, logo à entrada da casa de Madrinha. Foi saltarem do carro e se encharcarem. Em vão, correram para a varandinha - estranho hábito geral de apressar o passo ao sinal de chuva grossa anunciada.

Pingando no chão de ladrilhos, durante alguns segundos, nenhuma resposta ao “ó de casa” gritado! Porta aberta, os visitantes foram adentrando a sala, sem pudor de molhar o chão. A empregada, em passadas vagarosas de interiorana, aproximava-se, guarda-chuva em uma das mãos, para o nada; na outra, útil pano de secar.

A sogra de Olívia saía do banheiro e, ao vê-los, colou satisfação enorme ao rosto. Sorridente, caiu-lhes nos braços, elogiando presentes natalinos, gemendo beijos e abraços de conforto amoroso.

- Mãe, como foi sua noite de Natal?, perguntou o marido de Olívia, pressupondo a resposta.

- Triste, muito triste, meu filho. Sentei à mesa com a empregada da noite e comemos o que eu pude trazer de ceia, olhando a televisão, enquanto sua madrinha dormia no quarto.   

Certinha a visão de Olívia. Mais uma vez, ela se assegurou da boa idéia da visita. Em seguida, outro impulso, sadio porque do coração: pé-ante-pé dirigiu-se ao quarto da frente. Foi, então, que se deparou com Madrinha. Ou melhor, com o pouco que restava da senhora de antanho, elegante e vaidosa Madame Chanel do interior fluminense.

A moça experimentou, por um átimo de tempo, o mesmo ímpeto de fuga de todas as vezes que, em criança, fora obrigada pelos pais a visitar pessoa muito doente. Controlou-se, respirou fundo e examinou minuciosamente a senhora. A começar pelas pernas magérrimas, em seguida subindo o olhar até o rosto. Os cabelos lisinhos e brancos haviam escapado à devastação do Alzheimer, porque de boa qualidade; o nariz talvez ainda conservasse o perfil correto.E do resto, nada mais. 

Olívia não chorou. O aperto na garganta era tal que os olhos igualmente se trancaram, sem se fecharem. Saiu do quarto, com remorso de deixar sozinha a doente totalmente indefesa.

O almoço veio amenizar-lhe a angústia. Bela comida fresca da gente do interior: arroz alvejado, de brilhar ao sol; feijão pretinho, em contraste indispensável; carne enroladinha e macia, galinha idem, legumes em salada. O bacalhau de forno, sobra da ceia do Natal de Fartura de Olívia, ficou, coitado, para uma única pessoa  salivar por ele: a mãe de seu marido. Bacalhau de receita para quê, se a comidinha caseira, sem régua e compasso, tinha sabor dos céus?! As três sobremesas, então! Improvisadas por mãos de vocação inata, empurravam para a gulodice. Como no passado de Madrinha saudável.

Depois, a volta ao motivo essencial da visita. A enferma havia “acordado” dos muitos cochilos de seu enigmático dia. Esforçava-se para abrir os olhos, produzir sons assemelhados a uma fala coerente. Resultavam frustrações de ruídos mal combinados, ininteligíveis.

A muito custo, a acompanhante do dia conseguiu colocar a senhora inválida numa cadeira de rodas, empurrando-a para a varandinha, na qual as visitas haviam sentado com a sogra de Olívia. Para apreciar a pracinha, as brincadeiras da criançada local e, mais que tudo, conversar trivialidades meio constrangidas.

O cenário acolhedor, o cheiro da terra recém-molhada, os passarinhos bebericando as poças da chuva recente, o alarido das crianças e as vozes altas das visitas nada disso entrava em Madrinha, a ponto de traze-la da lonjura desconhecida onde se encontrava. Quando não dormitava, insistia nos arremedos de palavras sem nexo. Para desespero de Olívia, a muito custo disfarçado.

A visitante não desejava contaminar os demais. Pareciam-lhe tão apaziguados, quase naturais. Na verdade, a sogra se habituara às doenças traumáticas, pela própria condição de senhora viúva, calejada por perdas. E o marido de Olívia era médico: encarava doença com interesse em resolve-la. Quando a resposta aos cuidados seria fatalmente negativa, aceitava o destino.

Na mente azucrinada de Olívia, pensamento obstinado: rever a figura da mulher bonita e fina de gosto, que conhecera de fotos, relatos e, eventualmente, de presença, em aniversários não tão antigos assim. Em nenhum ponto, o aspecto da Madrinha de hoje casava-se com a impressão memorizada por Olívia.

Revoltada com a situação atual de impacto, admirava a tranqüilidade do marido, de mão dada com a doente, dirigindo-lhe perguntas invariavelmente sem resposta.

 “Que coisa injusta!”, pensava.

Na verdade, não deixava de ter razão. Para quê uma vida inteira de mulher professora competente, dedicada a  cuidar de alunos e  de figuras familiares mais velhas e próximas?

 Madrinha tinha carradas de razões para ser resguardada de um futuro cruel. Não o foi. Repetia, sem o saber, as tias longevas, acamadas por longo tempo. A figura bastante sofisticada para seu meio, transformara-se em personagem de textos e cenas de flagelos. Quase o Cristo, de Mel Gibson.

Passou-se a tarde numa espécie de indolência dolorosa, contaminadora. O casal não tinha coragem de pronunciar ‘‘Vamos?!” Parecia que um deixava ao outro a incumbência árdua. Há que se ter cabeça de doido ou bêbado delirantes, nesses momentos em que a razão é rasgada pela emoção.  

Depois de um certo tempo, foi a sogra de Olívia que, percebendo o clima de embaraço, os salvou da indecisão covarde.

- É bom vocês não demorarem demais. A noite na estrada pode ser perigosa. Tem havido muito nevoeiro, chuva forte e deslizamentos.

Um último olhar para as senhoras, um beijo jogado retribuído e outro não, e adeus, Madrinha!

No carro,  Olívia catou o resto de otimismo possível:

- Quem sabe, ela não melhora?

- Não adianta!, responde o marido - Alzheimer é assim mesmo. Na melhor das hipóteses, ela vai-se acalmar um pouco mais. Até morrer.

O sol sumindo sem morte no entardecer da serra, a companhia apaziguadora do marido, o sentimento do Natal verdadeiro, a música bonita no rádio... aliviavam-na, mas não lhe respingaram a ânsia de ver Madrinha curada.

 A imagem da enferma a perturbaria por muitos dias. E, sobretudo, noites. Nem Olívia queria esquecer depressa o penar da madrinha do marido.

Muito, muito depois, sim, poderia olhar as fotos de família e admirar outra vez a mulher solteira por escolha, abnegada, mas vaidosa, professora e diretora de escola, de muito respeito. Sempre Madrinha.

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