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Acordo melancólica. Uma pitada de angústia me incomoda.
Espreguiço. - Quê que é isso, meu Deus?! Desfilo indagações de
auto-análise fajuta. É a filha que saiu ontem sem me dar um
único beijo? É o filho que não me telefonou ontem à noite? É o
marido que não para de trabalhar?
Acho que não vou dá resultado esmiuçar razões logo de manhã,
ainda esforçando-me para abrir os olhos..
Voz
forte de homem chamando : - Já são oito e meia. Tá na hora.
Hora de quê, afinal? E tome de novas considerações. Hora de
iniciar o quotidiano medíocre dos aposentados: dar ordens à
empregada, ver o que falta e o que enguiçou na casa...?
Dou um bom-dia enviesado aos da sala e da cozinha, olhos
ardidos pelo sono em restos. Nó na garganta, por que?
Não
sou de acordar muito tarde, mas gosto de dormir até à hora que
bem cismo, uma vez aposentada, sem horário rígido para as
tarefas do dia.. E a hora que bem cismo não a deixam chegar. Por
que? Será que amanheço digna de se ver, bonita como os
passarinhos que ainda chilreiam em meu bairro, em destemor do
trânsito?
Nem
me passa pela cabeça a possibilidade de desejo do homem absorto
de ter minha companhia na sala. Parece longínqua a memória dos
primeiros encontros. Conseguiram tirar-me a veia de donzela
romântica. Marília, Annabel-Lee, Ofélia, Julieta e quantas mais,
enterradas por mim, sem poema
Vou
ao banheiro. Constato no espelho defeitos suspeitados: cara meio
inchada, meio murcha, olheiras escuras embaixo de olhos que, por
sua vez, esquecem-se de se amendoar, como na juventude.
–
Por que adiar mais a plástica indispensável, covarde criatura?!
O
cabelo me irrita: fino, mal educado, despenteado sem propósito
algum, pede revigoramento e tintura outra vez.
O
corpo... Bem, até que não está mal pra uma velhota da minha
estigmatizada faixa etária. Fruto invejado de ginástica a vida
toda. Iniciada desde os dezoito anos, perseguida em todas as
formas: malhação com peso, movimentos de alongamento e torções,
ginástica-dança ou o contrário, hidro...
-
Também, minha filha, com isso tudo, até eu – dizem-me as
preguiçosas.
Ainda noto indícios de cintura marcada, ombros quase retos, um
quase nada de corcunda, barriga decente porque pequena, bunda
sustentada..
Mas, e adeus com a mão?! Será que posso dá-lo à vontade, sem
carne frouxa interna a balançar nos braços? E as coxas? Sempre
grossas e celulitosas, estarão em forma para a bermuda de linho
branco que me aguçou o desejo na vitrine? Só se for bermudão
largo e comprido. De preferência, preto. Não ouso mais. Nada de
joelho imperfeito e rugoso à mostra.
Na
sala, óculos a postos, os eternos jornais. Notícias da TV de
ontem, esmiuçadas sem granes cuidados, uma ou outra matéria,
rápidos artigos tansbordantes dos mesmos comentários de sempre e
alguma crônica legal. Pronto. Estão lidos. Posso descer e
dedicar-me à piscina – única tarefa obrigatória do dia.
Com
delicadeza de massagista embusteiro, passo bloqueador solar
número 30, recém receitado por nova dermatologista.
-
Põe bastante. Sem pena de gastar. Se pouco, não faz efeito -,
diz ela.
Eu
obedeço. Fartas porções espalhadas meia-hora antes de descer.
Devia ser uma hora contada, segundo regras mais rígidas. Mas a
impaciência de sair e arejar é muita.
Na
piscina, a festa das crianças e o meu alívio. Se não fosse
projeto social da TV Globo, diria Criança-Esperança, pura
verdade. A filha da vizinha, de dois anos, cai nos meus braços
úmidos e me sorri. Aceito e babo. Vejo avós cuidando de netos
mais velhos. Taí uma ótima ocupação. Por que não tenho netos,
Senhor?
Planos de trabalho ponteiam meu banho-inspiração, entre um e
outro contar de braçadas e pernadas. Quero escrever um romance.
Escritora que se preza escreve, pelo menos, contos longos,
novelas e, quiçá, um romance. Eu, até hoje, limito-me a três
páginas. Quatro, lá por uma extravagância. São apelidadas de
Crônicas e só. Só!? Gente, e Raquel de Queiroz, e Rubem Braga, e
Antonio Maria, e Stanislaw Ponte Preta... não foram excelentes
cronistas?
Insisto no romance. Dizem que as editoras publicam mais
depressa. Logo que engulo meu almoço hipocalórico, desço para a
livraria mais a mão. De fato. Há fartura de romances. A grande
maioria, tradução do inglês. Um ou outro, de nacionalidades da
moda: árabe, africano...Best-sellers aos montes, e recomendados.
Entro e procuro o novo. Traduções, sempre traduções: o que vem
de países ricos ou esdrúxulos será melhor do que o genuíno
nosso? Fico fula. Além do mais, o preço dos livros não apraz a
meu bolso.
Tomo um cafezinho nos fundos da loja, olhos e ouvidos atentos
aos freqüentadores. Ninguém compra nada. Nem revista literária.
Batem papo ou lêem seu jornal de hábito, algum Segundo Caderno.
Alguns jovens discutem, em redor da mesa, o tema da aula da
faculdade. Parece filosofia. Quem me dera meus tempos de
universidade tivessem um café!
Volto ao lar nada doce porque, solitário, guarda uma aposentada
professora, agora escritora
Passo o dia a bolar escritos, idéias amontoadas na
cabeça. Releio os textos de dias atrás, respondo os e-mails mais
interessantes, não os pornográficos ou de auto-ajuda. Leio
textos no computador, um ou outro poema ou trecho de autor de
respeito em papel. Descubro que há gente com desprezo ao uso de
citações. Fico desanimada, pois sempre gostei delas e as
coleciono em meus cadernos de anotações. Além de usá-las em
todos os muitos cartões de aniversário, de Natal, de casamento.
O
telefone toca e me faz mal. Se não toca, fico pior. Um dia, mais
um dia, até o marido chegar.
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Maria Lindgren
11-06-007 |