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Maria Lindgren
Matando Saudades
da Educação
Desde pequena sonho com um
Brasil lindo, grande, forte. Talvez másculo, pois, em criança,
o último adjetivo se adequava a meu pai muito mais que à minha
mãe. Não entendia o sentido de outra fortaleza que não fosse a
física. Por mais que as pessoas me dissessem que minha tia
Eulina era forte porque criara os filhos praticamente sozinha,
eu a considerava uma maluca por não casar de novo, isso sim.
Viúva cedo tinha que arrumar marido rápido, para aguentar o
rojão.
Não era à toa que as figuras de Deus e seu Filho eram do sexo
masculino. Não se precisava dizer mais nada. E os santos,
ainda que vestissem vestes compridas como as mulheres, vinham
às vezes, de guerreiros, como São Jorge, montados em cavalo
bravo, lanças prontas para o combate aos dragões e outros
bichos.
Lindo, certamente que o meu país é, ainda que meu bairro na
infância não se apresentasse com beleza decantada. Estão de
prova as eternas canções populares que exaltam o Brasil. ”
Terra de nosso Senhor...” só pode ser beleza pura.
Grande, aprendi na escola, nos mapas que me mostravam um país
enorme, em comparação com, por exemplo, os países da Europa,
umas porcarias minúsculas que nem nos chegavam aos pés, vejam
só!
Forte fui perceber mesmo quando derrubamos a ditadura brutal.
País forte era o que enfrentava guerras, pobre menina iludida,
e eu não via nenhuma por aqui.
Cresci com tamanho patriotismo que, ao me fazer moçoila,
imediatamente pendi para a esquerda. Amigos, filhos de pais
fanzocos da Uião Soviética, juravam que o comunismo/socialismo
era o regime ideal para todo o mundo. Acreditei e passei a
torcer pela igualdade social, tanto quanto brasileiro se acaba
por seu time.
Continuei assim antes, durante e depois dos famigerados Anos
de Chumbo. Usava contra a gente no poder minha arma predileta,
a palavra. Sobretudo, a oral, em discussão camuflada com
amigos meio reacionários. Não mais enxergava militar com
garbosas fardas, como em tempos de adolescente. Presenciava a
perseguição, a tortura, o desaparecimento de pessoas muito
mais corajosas que eu. Todas socialistas, sonhavam um país
para todos, uma liberdade que, infelizmente, nunca houve, uma
democracia plena, repleta de reformas sociais. Uma Nação.
Cantei aos berros com nossos compositores esquerdistas, em
lágrimas absolutamente sinceras. Lembro-me de Chico Buarque e
uma de suas versões do Que será..., do Paulinho da Viola
com...Olá, como vai, do Geraldo Vandré com seu quase hino
...Caminhando e cantando, dos cantores e cantoras
latino-americanos de igual sofrimento...dos poetas Thiago de
Melo e Brecht em voga naquela época.
Depois, enfim, a democracia. Fui para a praça pedir
Diretas-já, com muito orgulho, bem acompanhada de gente fina.
Acabado o entusiasmo, os anos 80 não foram o esperado. Até
porque o nosso presidente de fé morreu antes da posse e entrou
um substituto muito aquém dos nossos devaneios.
Desde 1970 e poucos, eu trabalhava na educação, primeiro na
escola, depois, em Secretarias, em cargo de certo mando. Na
certeza de que povo educado exige seus direitos, porque sabe
refletir sobre sua falta. Ledo engano. Fiz umas tantas greves
junto com os professores em franca decadência financeira, numa
cidade que, de há muito, perdera status de capital da
República. Nada conseguimos, a não ser escolas de má qualidade
e salário ridículo, repletas de alunos necessitados de
educação legítima.
Depois, apareceu Lula, simbolo do país dos operários de
fábrica, Brizola, dos trabalhadores em geral. Fiquei com o
último, com esperança de grandes mudanças no regime
instaurado. Afinal, as escolas de horário integral salvariam o
povo fluminense e prepararíam cidadãos capacitados para a luta
social. Mais desilusão. Acabaram democraticamente com os CIEP,
tão logo o Governo brizola perdeu as eleições.
Entramos numa democracia burocrática e fajuta. Elegíamos, sim,
mas os aquinhoados com o voto esqueciam vapt vupt as
promessas. Inflação e atraso na ordem do dia, até Lula assumir
finalmente o poder, com meu voto. Não fiz mais grandes
campanhas, mas compareci sempre às votações, sem titubear nas
escolhas dos raros honestos de meu país.
Escândalos de corrupção vieram à tona com mais facilidade na
democracia brasileira, pois claro, em tempos de ditadura, já
se sabe, faz-se tudo por baixo dos panos. Assim como outros
políticos apareciam no resto do mundo dito democrático metidos
em confusões sexuais, os nossos, pior ainda, atacavam a grana
da gente brasileira.
E a educação? Com Lula e sem Lula continuou com os mesmos
problemas: grande número de reprovados, repetências múltiplas,
defasão idade-série, evasão...qualidade precária, enfim.
Tentaram-se metodologias novas, capacitações de professores,
maior entendimento dos alunos pobres – o Rio estava cercado de
favelas por todos os lados e a violência imperava na cidade
por conta do eterno problema do tráfico de drogas.
Culpou-se primeiro a miséria, depois, a violência, depois os
professores incapazes, as metodologias errôneas e obsoletas...
Tentou-se de um tudo, até passar o aluno direto, na tal
aprovação automática mal absorvida das idéias de ciclos dos
grandes educadores.
Cadê o progresso? Ainda no Governo Lula, Brasil ficou em 53º
lugar no exame do PISA, exame internacional. Uma vergonha para
um país que passou um montão de cidadãos para a chamada Classe
C, sem dúvida, uma melhoria expressiva de situação social e
financeira, que se configurou mais consumista que outra coisa.
E quem brilha no exame do PISA é a China, com sua população
gigantesca e recém-saída de um duro socialismo. Sem
comentários.
Será que a educação com Dilma vai além de livrecos mal bolados
sobre a aceitação do português mal falado ou sobre a
condenação à homofobia? Rezemos!
Maria
Lindgren
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