Maria Lindgren

Meu Coração Bate Forte

  Não resisto. Tenho que falar de educação, minha profissão garantida pela dedicação de uma vida. Leio e vejo que os níveis federal e estadual de São Paulo estão se mexendo em prol do ensino médio e a mão sente cócegas, junto ao pensamento.

O programa novo do governo federal ainda não me veio às mãos, portanto, restrinjo-me ao que está na cara e nas folhas, isto é, na tevê, na Internet e nos jornais de papel.   Pela televisão de ontem à noite (05 de maio de 2009), parece-me que tanto o ministro, quanto o governador de São Paulo carregam bateria na reforma do ensino médio, na mudança para um " ensino interdisciplinar" e voltado para a realidade do aluno, para "explicar o cotidiano"a sua volta;  no aumento de carga horária de trabalho nas escolas; na formação dos professores novos antes do contato com o aluno - erroneamente chamada "formação", pois formados eles já o são; o que lhes falta é aprimoramento, isto é, capacitação, treinamento, nova preparação  ou sei lá que nome dar ao aprofundar dos conhecimentos; na orientação do aluno para escolher entre o que lhe é oferecido o mais adequado ao seu desejo e ao mundo atual.

É claro que a interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade é o ideal, não para suprir falta de física, geografia ou matemática, o que é frequente no ensino médio brasileiro, mas para promover o diálogo quase impossível entre os professores, sem o " cada macaco no seu galho" das disciplinas de hoje. Desde logo, aviso que não é nada fácil fazer os professores dialogarem entre si e com os alunos, numa escola de turnos. Há cursos em que o professor apenas circula brevemente pelos corredores e salas de aula, e sai correndo para pegar outra escola que lhe dê o mínimo de sobrevivência. Daí que não sentam o bumbum nem para assinar presença. Exemplo mais flagrante: os cursos noturnos de ensino médio do Rio de Janeiro.

O aumento da carga horária entra no rol dos entraves para gente de múltiplo suor em múltiplas escolas (professores e alunos-trabalhadores, sobretudo). E a evasão escolar não muda por decreto: os jovens da escola publica e, com freqüência, os muito jovens têm que correr para conseguir um provento qualquer, que ajude a família a sair do aperto financeiro. Em geral, os alunos se evadem muitas vezes bem antes do ensino médio pintar em sua vida. É só visitar as escolas para ver o quanto se reduzem as turmas do primeiro para o segundo ano, o mesmo acontecendo com o ensino de 5ª a 8ª série do ensino fundamental - a conhecida "pirâmide" ou afunilamento.

Quanto às escolhas do aluno, como bem comenta a assessora do Programa de Juventude da ONG Ação Educativa, Ana Paula Corte ( O Globo de 06/05/2009), há que haver uma orientação cautelosa para mudanças de tamanho vulto no currículo do ensino médio. De repente, nada de imposições. O aluno pode ter voz, que lindo! Mas, será que ele sabe ter voz em matéria tão duvidosa que é a escolha do que seguir? Será que sua opção está incluída na lista  oferecida por sua escola?

Tenho certeza de que tanto o Ministro da Educação, como o Secretário de São Paulo, o tal ex-ministro de Fernando Henrique, dos dificílimos Parâmetros Curriculares, que pouca gente pescou, estão bem intencionados, pois todo o mundo sabe que sem educação não se constrói a tão declamada cidadania para todos..O que, infelizmente me dói é que tudo isso foi tentado em outros carnavais escolares e a descontinuidade, a falta de avaliação e de apoio aos bons projetos sempre levam a melhor.

O tal ovo de Colombo do paulista Paulo Renato, que tanto agradou ao futuro candidato à presidência, José Serra, pode furar e se esvair antes mesmo de ser jogado no suflê dos currículos. Mais uma vez....

Maria Lindgren

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