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Não resisto. Tenho que falar de
educação, minha profissão garantida pela dedicação de uma vida.
Leio e vejo que os níveis federal e estadual de São Paulo estão
se mexendo em prol do ensino médio e a mão sente cócegas, junto
ao pensamento.
O programa
novo do governo federal ainda não me veio às mãos, portanto,
restrinjo-me ao que está na cara e nas folhas, isto é, na tevê,
na Internet e nos jornais de papel. Pela televisão de ontem à
noite (05 de maio de 2009), parece-me que tanto o ministro,
quanto o governador de São Paulo carregam bateria na reforma do
ensino médio, na mudança para um " ensino interdisciplinar" e
voltado para a realidade do aluno, para "explicar o cotidiano"a
sua volta; no aumento de carga horária de trabalho nas escolas;
na formação dos professores novos antes do contato com o aluno -
erroneamente chamada "formação", pois formados eles já o são; o
que lhes falta é aprimoramento, isto é, capacitação,
treinamento, nova preparação ou sei lá que nome dar ao
aprofundar dos conhecimentos; na orientação do aluno para
escolher entre o que lhe é oferecido o mais adequado ao seu
desejo e ao mundo atual.
É claro que a
interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade é o ideal, não
para suprir falta de física, geografia ou matemática, o que é
frequente no ensino médio brasileiro, mas para promover o
diálogo quase impossível entre os professores, sem o " cada
macaco no seu galho" das disciplinas de hoje. Desde logo, aviso
que não é nada fácil fazer os professores dialogarem entre si e
com os alunos, numa escola de turnos. Há cursos em que o
professor apenas circula brevemente pelos corredores e salas de
aula, e sai correndo para pegar outra escola que lhe dê o mínimo
de sobrevivência. Daí que não sentam o bumbum nem para assinar
presença. Exemplo mais flagrante: os cursos noturnos de ensino
médio do Rio de Janeiro.
O aumento da
carga horária entra no rol dos entraves para gente de múltiplo
suor em múltiplas escolas (professores e alunos-trabalhadores,
sobretudo). E a evasão escolar não muda por decreto: os jovens
da escola publica e, com freqüência, os muito jovens têm que
correr para conseguir um provento qualquer, que ajude a família
a sair do aperto financeiro. Em geral, os alunos se evadem
muitas vezes bem antes do ensino médio pintar em sua vida. É só
visitar as escolas para ver o quanto se reduzem as turmas do
primeiro para o segundo ano, o mesmo acontecendo com o ensino de
5ª a 8ª série do ensino fundamental - a conhecida "pirâmide" ou
afunilamento.
Quanto às
escolhas do aluno, como bem comenta a assessora do Programa de
Juventude da ONG Ação Educativa, Ana Paula Corte ( O Globo de
06/05/2009), há que haver uma orientação cautelosa para mudanças
de tamanho vulto no currículo do ensino médio. De repente, nada
de imposições. O aluno pode ter voz, que lindo! Mas, será que
ele sabe ter voz em matéria tão duvidosa que é a escolha do que
seguir? Será que sua opção está incluída na lista oferecida por
sua escola?
Tenho certeza
de que tanto o Ministro da Educação, como o Secretário de São
Paulo, o tal ex-ministro de Fernando Henrique, dos dificílimos
Parâmetros Curriculares, que pouca gente pescou, estão bem
intencionados, pois todo o mundo sabe que sem educação não se
constrói a tão declamada cidadania para todos..O que,
infelizmente me dói é que tudo isso foi tentado em outros
carnavais escolares e a descontinuidade, a falta de avaliação e
de apoio aos bons projetos sempre levam a melhor.
O tal ovo de
Colombo do paulista Paulo Renato, que tanto agradou ao futuro
candidato à presidência, José Serra, pode furar e se esvair
antes mesmo de ser jogado no suflê dos currículos. Mais uma
vez....
Maria Lindgren |