Maria Lindgren

 Meu desejo De Natal

Naquele ano, tudo diferente e melhor. O Natal seria anunciado no Tempo do Advento do Menino mais poderoso já nascido na terra. Não, no sentido oco de poder pelo poder, mas na acepção mais digna de um Salvador do Mundo. Esperado, ansiado por devoção religiosa. Nunca por anúncios de mercadorias consumíveis, vendidas na própria igreja ou pela TV escandalosa. O tom do Advento seria de sussurro.

Os padres e acólitos preparariam as vestes de gala, doadas pelos fiéis de maiores posses, para O receber bonitos e sem gastos.

O presépio, armado sem o Menino Jesus, esperaria o dia 24 de dezembro à noite para que a imagem fosse aninhada no berço de palha, como é de praxe. A manjedoura tosca lembraria a humildade, fundamental ao ser humano.

Todas as coletas das missas do Advento seriam mesmo destinadas aos mais pobres. A começar pelos mendigos da porta da igreja matriz, uma vez que eles existem, estão lá sempre e não têm como passar um bom Natal, seja de comida, seja de bebida, seja de presentes.

Os mais fiéis, freqüentadores da igreja, em primeiro lugar, lavariam e cuidariam dos mendigos da porta do templo. Depois, iriam à favela mais próxima levar, em pessoa, as cestas de Natal: não haveria traficantes, nem policiais.

 Cada família receberia sorridente as oferendas, junto com um termo de posse de suas casas e a promessa escrita do governo de lhes fornecer meios de torna-las habitáveis, salubres, sem lixo, nem violência. Eles retribuiriam com um “muito obrigado”, vindo do coração, com o compromisso de pintarem e ajeitarem, eles próprios, suas moradias, em vez de só tratarem das casas dos mais abastados. Até plantas e flores seriam plantadas.

Com o coração acalmado, cheio da alegria do doar sem esperar retorno, os católicos iriam, em seguida, visitar os hospitais públicos do seu bairro, sobretudo os de crianças, levando consolo às dores humanas. Sem esquecer de passar nos asilos de doentes mentais, pois também eles são filhos de Deus.

Depois, seria a vez dos Lares de Idosos e de Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais. Sempre munidos de cestas, muito além do que se configura hoje como “cesta básica”. Recheadas de acepipes e carinho.

Em todos esses locais de tristeza, improvisariam brincadeiras com as crianças pequenas, como no belo filme de Robin Williams. Enfatizariam o fato de ninguém ter culpa de nascer pobre: todo ser humano nasce igual. E é a sociedade injusta que o coloca em berços de ouro, prata ou palha.

Seria narrada a história do nascimento de Jesus Cristo, desde a anunciação do Anjo à Maria. E, mais uma vez, se exaltaria a humildade com que Nossa Senhora recebeu a notícia de que seria Mãe de Deus.

A figura de Papai Noel mereceria uma história amável, embora se falasse da importação de costumes de outros lugares, bem mais frios do que o nosso. O que justifica ao Bom Velhinho barba branca postiça, roupagem de lã e trenó, em país tropical como o nosso. Papai Noel não seria rechaçado, pois criança pequena precisa de mitos e fantasia.

Se, porventura, as comunidades se compusessem igualmente de evangélicos, espíritas e macumbeiros, todos seriam convidados a darem as mãos aos católicos e rezarem, cada qual a seu modo, prometendo paz e harmonia entre os seres humanos.

Nas sinagogas, o mesmo: licença para entrar, em paz e união. Haveria oração pelos mortos do Holocausto, mas aos judeus se instaria a colaboração com palavras, gestos e ações, para que a Guerra dos  israelenses versus palestinos e outras, fossem  combatidas com abaixo-assinados e protestos, organizados junto aos responsáveis pelos horrores bélicos. Sem esquecer, mais uma vez, a dádiva da humildade, do reconhecimento de nossas falhas.

Se por acaso topássemos com fundamentalistas do mundo árabe, o que é pouco provável na nossa cidade, viria à baila o tema do respeito às diferenças, chamando-lhes atenção para os prejuízos sempre sofridos pelos mais fracos, inclusive as mulheres. O fato delas usarem roupas fechadas até à cabeça, em pleno calor, opressão e preconceito claros para nós ocidentais, não seria motivo de brigas ou insultos, pois fomos e ainda somos muito preconceituosos.

 Debateríamos com eles, afirmaríamos as semelhanças e diferenças entre homens e mulheres em vários aspectos, principalmente, os fisiológicos. No entanto, ambos os sexos, aí incluídos os homossexuais, são iguais nos direitos e deveres.

Quanto aos mais ricos, talvez não nos quisessem ouvir, mas aos que se dispusessem a nos ceder um pouco de seu tempo, nesse Natal diferente, pediríamos cessão oficial de uns tantos bens, direto para os menos aquinhoados do destino, minimizando as diferenças sociais.

 Seriam enfatizados os riscos de toda a humanidade desaparecer pelos atentados ecológicos diários, inclusive com a proliferação das favelas que invadem a Mata Atlântica.

E por que tanta avidez de dinheiro, se vamos morrer todos, sem apelação? Vide a tragédia recente dos passageiros do avião grande, que bateu no outro bem menor, ceifando vidas.

Não precisariam sair de nosso bairro. Depois de vários dias de peregrinação, reflexão e conversas, aí, sim, a beleza do Natal poderia ser efetivamente comemorada. E poderíamos desejar a todo o mundo, com muito ardor, um FELIZ NATAL!

Maria Lindgren

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