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Naquele ano, tudo diferente e melhor. O Natal seria anunciado no
Tempo do Advento do Menino mais poderoso já nascido na terra.
Não, no sentido oco de poder pelo poder, mas na acepção mais
digna de um Salvador do Mundo. Esperado, ansiado por devoção
religiosa. Nunca por anúncios de mercadorias consumíveis,
vendidas na própria igreja ou pela TV escandalosa. O tom do
Advento seria de sussurro.
Os
padres e acólitos preparariam as vestes de gala, doadas pelos
fiéis de maiores posses, para O receber bonitos e sem gastos.
O
presépio, armado sem o Menino Jesus, esperaria o dia 24 de
dezembro à noite para que a imagem fosse aninhada no berço de
palha, como é de praxe. A manjedoura tosca lembraria a
humildade, fundamental ao ser humano.
Todas as coletas das missas do Advento seriam mesmo destinadas
aos mais pobres. A começar pelos mendigos da porta da igreja
matriz, uma vez que eles existem, estão lá sempre e não têm como
passar um bom Natal, seja de comida, seja de bebida, seja de
presentes.
Os
mais fiéis, freqüentadores da igreja, em primeiro lugar,
lavariam e cuidariam dos mendigos da porta do templo. Depois,
iriam à favela mais próxima levar, em pessoa, as cestas de
Natal: não haveria traficantes, nem policiais.
Cada família receberia sorridente as oferendas, junto com um
termo de posse de suas casas e a promessa escrita do governo de
lhes fornecer meios de torna-las habitáveis, salubres, sem lixo,
nem violência. Eles retribuiriam com um “muito obrigado”, vindo
do coração, com o compromisso de pintarem e ajeitarem, eles
próprios, suas moradias, em vez de só tratarem das casas dos
mais abastados. Até plantas e flores seriam plantadas.
Com
o coração acalmado, cheio da alegria do doar sem esperar
retorno, os católicos iriam, em seguida, visitar os hospitais
públicos do seu bairro, sobretudo os de crianças, levando
consolo às dores humanas. Sem esquecer de passar nos asilos de
doentes mentais, pois também eles são filhos de Deus.
Depois, seria a vez dos Lares de Idosos e de Pessoas Portadoras
de Necessidades Especiais. Sempre munidos de cestas, muito além
do que se configura hoje como “cesta básica”. Recheadas de
acepipes e carinho.
Em
todos esses locais de tristeza, improvisariam brincadeiras com
as crianças pequenas, como no belo filme de Robin Williams.
Enfatizariam o fato de ninguém ter culpa de nascer pobre: todo
ser humano nasce igual. E é a sociedade injusta que o coloca em
berços de ouro, prata ou palha.
Seria narrada a história do nascimento de Jesus Cristo, desde a
anunciação do Anjo à Maria. E, mais uma vez, se exaltaria
a humildade com que Nossa Senhora recebeu a notícia de que seria
Mãe de Deus.
A
figura de Papai Noel mereceria uma história amável, embora se
falasse da importação de costumes de outros lugares, bem mais
frios do que o nosso. O que justifica ao Bom Velhinho barba
branca postiça, roupagem de lã e trenó, em país tropical como o
nosso. Papai Noel não seria rechaçado, pois criança pequena
precisa de mitos e fantasia.
Se,
porventura, as comunidades se compusessem igualmente de
evangélicos, espíritas e macumbeiros, todos seriam convidados a
darem as mãos aos católicos e rezarem, cada qual a seu modo,
prometendo paz e harmonia entre os seres humanos.
Nas
sinagogas, o mesmo: licença para entrar, em paz e união. Haveria
oração pelos mortos do Holocausto, mas aos judeus se instaria a
colaboração com palavras, gestos e ações, para que a Guerra dos
israelenses versus palestinos e outras, fossem combatidas com
abaixo-assinados e protestos, organizados junto aos responsáveis
pelos horrores bélicos. Sem esquecer, mais uma vez, a dádiva da
humildade, do reconhecimento de nossas falhas.
Se
por acaso topássemos com fundamentalistas do mundo árabe, o que
é pouco provável na nossa cidade, viria à baila o tema do
respeito às diferenças, chamando-lhes atenção para os prejuízos
sempre sofridos pelos mais fracos, inclusive as mulheres. O fato
delas usarem roupas fechadas até à cabeça, em pleno calor,
opressão e preconceito claros para nós ocidentais, não seria
motivo de brigas ou insultos, pois fomos e ainda somos muito
preconceituosos.
Debateríamos com eles, afirmaríamos as semelhanças e diferenças
entre homens e mulheres em vários aspectos, principalmente, os
fisiológicos. No entanto, ambos os sexos, aí incluídos os
homossexuais, são iguais nos direitos e deveres.
Quanto aos mais ricos, talvez não nos quisessem ouvir, mas aos
que se dispusessem a nos ceder um pouco de seu tempo, nesse
Natal diferente, pediríamos cessão oficial de uns tantos bens,
direto para os menos aquinhoados do destino, minimizando as
diferenças sociais.
Seriam enfatizados os riscos de toda a humanidade desaparecer
pelos atentados ecológicos diários, inclusive com a proliferação
das favelas que invadem a Mata Atlântica.
E
por que tanta avidez de dinheiro, se vamos morrer todos, sem
apelação? Vide a tragédia recente dos passageiros do avião
grande, que bateu no outro bem menor, ceifando vidas.
Não
precisariam sair de nosso bairro. Depois de vários dias de
peregrinação, reflexão e conversas, aí, sim, a beleza do Natal
poderia ser efetivamente comemorada. E poderíamos desejar a todo
o mundo, com muito ardor, um FELIZ NATAL!
Maria Lindgren |