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À tardinha, encontro com o amor
afinal. Pela primeira vez, um rapazinho de 15 anos se dignara me
olhar da ponte que atravessava o canal, onde se encarapitava com
os colegas do colégio logo adiante.
Viu-me e gostou da
menina gordinha, morena demais, de cabelos crespos mal educados,
bem castanho escuro sem luzes especiais, seios apenas
despontados, tronco redondo e um tanto de barriga, terminando em
duas pernocas de canela larga de lusitana ou italiana, sei lá.
Onze anos apenas e um grande
desejo.
Dia após dia, meu olhar
despontava sensual, cheio de vontade de ser retribuído pelo
menino de pele clara, cabelos pretos e sorriso matreiro, desses
que fecham de tal modo os olhos que transformam o rosto
ocidental em oriental.
O céu mal clareava a manhã e
meu coração disparava. Por muito tempo, nada. Nem um rápido
piscar em minha direção. Ida e volta das aulas, na mesma
expectativa sempre frustrada. A casa confortável, o jardim
florido, a folga dos deveres não me faziam mais feliz. O que
importava, a forma humana adivinhada de longe, o cabelo liso a
ponto de tombar em franja na testa, o sorriso de dentes
clareados por Deus, o olhar destinado só para mim.
E tome de enxugar as lágrimas
com discrição, para que minha irmã vigilante, a meu lado, não
percebesse meu desapontamento líquido.
Na sala de aula, o estudo como
distração. No recreio, não. De novo a sensação terrível do amor
sem correspondência. Infelicidade sem trégua. Nem o ar puro em
lugar da sala de aula fechada, nem as colegas brincalhonas,
muito menos o bate-papo desanuviavam a garganta em aflição. Em
meio às risadas, meu facies deprimido, sulco despontando entre
as sobrancelhas. – Por que esta ruga na testa, amiga? – Nada,
não. Dor de cabeça. Acho que preciso de óculos. Vaidosa, quem
diz que confessava o insucesso? Carregava-o, fardo pesado
demais. Até a hora do sono atormentado por pesadelos confusos.
Na manhã seguinte, repetição.
Voltava a passar corpo, alma e olhar pela ponte dos meninos,
ansiando pela devolução do que mais queria: um desvio de olho
em sua direção..
Um mês de espera e eis o menino
à esquina de minha rua, à tardinha. Pressenti a presença ainda
no jardim, abri o portão e caminhei resoluta, doida mesmo, até o
ponto escuro, adivinhado de longe – a casa ficava no fundo de
uma rua e o fícus copado bem que atrapalhava a visão da
esquina..
Cheguei sozinha. Coragem de quem
só tem a ganhar. Olhamo-nos em minuto demorado e, sem abrir as
bocas nem para sorrir, tocaram-se os trêmulos dedos mindinho e
anelar de nossas mãos suadas. E caminhamos lado a lado, pela
alameda comprida, passos compassados dos que se querem bem.
“ We are like twin compasses”- Somos como
compassos gêmeos, dizia John Donne.
Atravessamos duas ruas de trânsito moderado à época,
para chegar à rua por detrás da igreja, aquela ansiada pelos
casais de namorados, porque discreta e vazia.
Sonho de noiva no altar,
suspirei.
Maria Lindgren
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