Maria Lindgren

 Meu Primeiro Amor

Inspirado pelo belo poema da escritora Priscilla de Loureiro

À tardinha, encontro com o amor afinal. Pela primeira vez, um rapazinho de 15 anos se dignara me olhar da ponte que atravessava o canal, onde se encarapitava com os colegas do colégio logo adiante.

            Viu-me e gostou da menina gordinha, morena demais, de cabelos crespos mal educados, bem castanho escuro sem luzes especiais, seios apenas despontados, tronco redondo e um tanto de barriga, terminando em duas pernocas de canela larga de lusitana ou italiana, sei lá.

 Onze anos apenas e um grande desejo.

            Dia após dia, meu olhar despontava sensual, cheio de vontade de ser retribuído pelo menino de pele clara, cabelos pretos e sorriso matreiro, desses que fecham de tal modo os olhos que transformam o rosto ocidental em oriental.

 O céu mal clareava a manhã e meu coração disparava. Por muito tempo, nada. Nem um rápido piscar em minha direção. Ida e volta das aulas, na mesma expectativa sempre frustrada. A casa confortável, o jardim florido, a folga dos deveres não me faziam mais feliz. O que importava, a forma humana adivinhada de longe, o cabelo liso a ponto de tombar em franja na testa, o sorriso de dentes clareados por Deus, o olhar destinado só para mim.

E tome de enxugar as lágrimas com discrição, para que minha irmã vigilante, a meu lado, não percebesse meu desapontamento líquido.

Na sala de aula, o estudo como distração. No recreio, não. De novo a sensação terrível do amor sem correspondência. Infelicidade sem trégua. Nem o ar puro em lugar da sala de aula fechada, nem as colegas brincalhonas, muito menos o bate-papo desanuviavam a garganta em aflição. Em meio às risadas, meu facies deprimido, sulco despontando entre as sobrancelhas.  – Por que esta ruga na testa, amiga? – Nada, não. Dor de cabeça. Acho que preciso de óculos. Vaidosa, quem diz que confessava o insucesso? Carregava-o, fardo pesado demais. Até a hora do sono atormentado por pesadelos confusos.

Na manhã seguinte, repetição. Voltava a passar corpo, alma e olhar pela ponte dos meninos, ansiando pela devolução do que mais queria: um  desvio de olho em sua direção..

Um mês de espera e eis o menino à esquina de minha rua, à tardinha. Pressenti a presença ainda no jardim, abri o portão e caminhei resoluta, doida mesmo, até o ponto escuro, adivinhado de longe – a casa ficava no fundo de uma rua e o fícus copado bem que atrapalhava a visão da esquina..

Cheguei sozinha. Coragem de quem só tem a ganhar. Olhamo-nos em minuto demorado e, sem abrir as bocas nem para sorrir, tocaram-se os trêmulos dedos mindinho e anelar de nossas mãos suadas. E caminhamos lado a lado, pela alameda comprida, passos compassados dos que se querem bem. “ We are like twin compasses”- Somos como compassos gêmeos, dizia John Donne. Atravessamos duas ruas de trânsito moderado à época, para chegar à rua por detrás da igreja, aquela ansiada pelos casais de namorados, porque discreta e vazia.

Sonho de noiva no altar, suspirei.

Maria Lindgren

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