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Meu sonho de mar
ficou caído, tombado de vez
no passado remoto de Icaraí, Copacabana, Ipanema ... Esvaiu-se
no turbilhão das areias da superpopulação, onde o pé não pisa
pleno: passa arranhando outro, coitado; onde a perna só se
estica em pé, de um pulo ou de um jeito bem calculado, onde o
descanso deitado é ato de coragem - quem sabe um peso de cadeira
lhe fere o rosto, uma bola mal mirada lhe amassa o nariz, um
cotovelo exagerado lhe entra no olho, uma raquete de frescobol
lhe derruba o corpo de vez..
E o sol de 40 graus lhe bate
em pedaços esparsos no corpo colado ao do vizinho desconhecido,
para mais afogueamento de ambos, irritados com certeza. E o mar
frio e forte só refresca os nadadores e mergulhadores
profissionais ou os que passam três horas de pé mirando a espuma
amarelada, dando pequenos saltos, sem decidir se entram ou não
na disputa das ondas e dos dejetos.
As crianças vão menos ao mar
do que os cachorros que driblam as leis. As pás e os baldes,
para que? Tentam colocar-se entre as pernas dos que passam ou
param, e são covardemente derrubados. Choro e decepção é o que
aguarda os iniciantes praianos. Imundos de areia marron, no colo
dos pais desesperados, só lhes resta voltar outro dia, fora do
verão tórrido e chuvoso ou implorar ao pai um ida ao piscinão de
Ramos, talvez mais vazia que o nosso ex-paraiso.
Meu sonho de mar acabou na
piscina. Água doce, sem marola nem graça. Mas espaçosa e
exclusiva. E aos que nem piscina têm, só resta a chuveirada, o
que já é uma benção.
Falar de Iemanjá, é
brincadeira!!!!!!!
Maria Lindgren
[MJ1]Escrito antes dos Choques
de Ordem do novo prefeitodo Rio de Janeiro. Quem sabe?
Maria Lindgren |