Maria Lindgren

 Meus Filhos Crianças


         Acho piegas, mas me deu vontade. Que posso fazer? Tenho que atender aos apelos das idéias, mesmo que venham mais do coração do que do cérebro.

Falar de criança, em geral todos falam. E melhor do que eu. Dos meus filhos crianças, só eu: é mais autêntico porque vivido.

Repetir é preciso: “Ai, que saudade que eu tenho...não, da minha infância querida”, mas dos meus filhos pequenos!

Primeiro, veio a morena. Bebê bonito não seria: tinha um cocuruto bem no alto da cabeça, de tanto bater na porta meio fechada do mundo. Tinhosa, conseguiu sair E eu, maluca de dor, delirava sem parar: “Meu Deus! O  que será de meu país!”.Espanto geral da família por causa da frase que me acompanha até hoje.

Depois da touca de meia, feita a carinho de Vó, o redondo da cabecinha e toda a beleza da miscigenação: português, brasileira-baiana-carioca-fluminense e... sueco, pasmem!. Enxoval fatto a mano, bordado por mim - eu era habilidosa, sabiam?

 Luxo de pequena burguesa, cada dia um trajezinho completo novo. Logo substituído por outro, e outro: crescimento de bebê é fogo! Nada comprado pronto porque “não tinha o mesmo acabamento”. Como não têm, até hoje, com raríssimas exceções, as roupas de shopping de classe média.

Acarinhada, paparicada por toda a gente, a menina lá ia crescendo, cada vez mais serelepe, como bem a chamam até hoje, com justa razão.

Teve pneumonia aos dez meses, é verdade: desaprendeu a andar. Mas ao se recuperar, que estrondo! Dançava, cantava, gritava, esperneava...Sobretudo, chutava, quando lhe pusemos uma famigerada bota ortopédica de pé chato, para terror das canelas das demais crianças.

Nos aniversários, festa junina na mesa, preparada a decoração meses antes pela avó, com minha pálida ajuda. Balões, fogos, excitação alegre, no quintal de meus pais.

No Carnaval, já sabe: fantasia de tudo o que a avó materna cismava e costurava: lig-lig-lig-lé, pirata, índia...Por mim, seria baiana a la Carmem Miranda, eternamente. Rebolado, faceirice, jeitinho de “ pequena notável”.

No Natal, pilha de presentes para o baú pintado de vermelho e preto, embora ninguém fosse chegado a futebol. Carinhos e mimos dos pais, avós, tios, padrinhos...

Na escola, amigas desde o jardim de infância. Duram até hoje, juro: fidelidades niteroienses. Depois, escola hipermoderna, de horário integral, estudo e farra, muita farra. Palco e canto - vocação inata. Lembro das imitações do Carlitos impagável, do filme Cabaré, da Lisa Minelli, com letra erotico-pornográfica de amigo meu: mãe avançada, dá nisso.  A essa altura, adolescência.

Cinco anos depois, o filho-varão. Nova cesariana, dessa vez sem sofrer, nem delirar. Como hora marcada de genecologista pontual. Lindo, desde o nascimento. Moreno claro, cabelos lisos e alourados, penteado de curumim, logo que teve mais cabelo. Bebê chorão, passeado todas as manhãs, na praia ou no prédio de apartamento muito grande, de excelente playground. Status maior que durou pouco: separação dos pais.

Vizinhos amigos, a “turminha do barulho”, como dizia mamãe. Muita perna para futebol, sonho de ser jogador. Pelé, no mínimo. Como o tio querido, “uma vez Flamengo, sempre Flamengo”.E muita batata frita nos shows de Roberto Carlos, no Canecão.

O sucesso do cabelo se fazia sentir no cabeleireiro: parava gente para ver o menino no carrinho de cortar cabelo de criança.

Depois, o mesmo colégio de horário integral, agora por pouco tempo: mudamos para o Rio.

Meu filho e a flauta doce, incentivo do avô paterno, muito chegado à música. Emoção de artista, carinho e choro, eis a melhor definição do meu segundo filho. Mais dificuldades, mesmo amor: Freud explica a paixão pela mãe então ausente, trabalhando fora, por causa da separação. E da falta de dinheiro, claro.

Na flauta, doce flauta, o descarregar dos problemas, das ausências impostas pela vida.

Amigo fiel até hoje sobrou apenas um, das mudanças do menino e dos outros. Morando em Copacabana, os amigos de Niterói se perderam nas brumas do mar das barcas, catamarãs, da Ponte Rio Niterói em dia de nevoeiro forte.

E eu, sem nunca ser avó, sem saber mais costurar nem bordar, nem mesmo dar aulas, vou lembrando, lembrando, nó no peito. Se não fosse a idade, fabricaria bem uns quatro filhos a mais. Ficariam todos pequenos, a meu redor, para sempre.

 E eu, mágica, a lhes fantasiar as cabeças com minhas próprias histórias.

Maria Lindgren

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