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Acho piegas, mas me deu
vontade. Que posso fazer? Tenho que atender aos apelos das
idéias, mesmo que venham mais do coração do que do cérebro.
Falar de criança, em geral todos falam. E melhor do que eu. Dos
meus filhos crianças, só eu: é mais autêntico porque vivido.
Repetir é preciso: “Ai, que saudade que eu tenho...não,
da minha infância querida”, mas dos meus filhos pequenos!
Primeiro, veio a morena. Bebê bonito não seria: tinha um
cocuruto bem no alto da cabeça, de tanto bater na porta meio
fechada do mundo. Tinhosa, conseguiu sair E eu, maluca de dor,
delirava sem parar: “Meu Deus! O que será de meu país!”.Espanto
geral da família por causa da frase que me acompanha até hoje.
Depois da touca de meia, feita a carinho de Vó, o redondo da
cabecinha e toda a beleza da miscigenação: português,
brasileira-baiana-carioca-fluminense e... sueco, pasmem!.
Enxoval fatto a mano, bordado por mim - eu era
habilidosa, sabiam?
Luxo de pequena burguesa, cada dia um trajezinho completo novo.
Logo substituído por outro, e outro: crescimento de bebê é fogo!
Nada comprado pronto porque “não tinha o mesmo acabamento”. Como
não têm, até hoje, com raríssimas exceções, as roupas de
shopping de classe média.
Acarinhada, paparicada por toda a gente, a menina lá ia
crescendo, cada vez mais serelepe, como bem a chamam até
hoje, com justa razão.
Teve pneumonia aos dez meses, é verdade: desaprendeu a andar.
Mas ao se recuperar, que estrondo! Dançava, cantava, gritava,
esperneava...Sobretudo, chutava, quando lhe pusemos uma
famigerada bota ortopédica de pé chato, para terror das canelas
das demais crianças.
Nos
aniversários, festa junina na mesa, preparada a decoração meses
antes pela avó, com minha pálida ajuda. Balões, fogos, excitação
alegre, no quintal de meus pais.
No
Carnaval, já sabe: fantasia de tudo o que a avó materna cismava
e costurava: lig-lig-lig-lé, pirata, índia...Por mim, seria
baiana a la Carmem Miranda, eternamente. Rebolado, faceirice,
jeitinho de “ pequena notável”.
No
Natal, pilha de presentes para o baú pintado de vermelho e
preto, embora ninguém fosse chegado a futebol. Carinhos e mimos
dos pais, avós, tios, padrinhos...
Na
escola, amigas desde o jardim de infância. Duram até hoje, juro:
fidelidades niteroienses. Depois, escola hipermoderna, de
horário integral, estudo e farra, muita farra. Palco e canto -
vocação inata. Lembro das imitações do Carlitos impagável, do
filme Cabaré, da Lisa Minelli, com letra erotico-pornográfica de
amigo meu: mãe avançada, dá nisso. A essa altura, adolescência.
Cinco anos depois, o filho-varão. Nova cesariana, dessa vez sem
sofrer, nem delirar. Como hora marcada de genecologista pontual.
Lindo, desde o nascimento. Moreno claro, cabelos lisos e
alourados, penteado de curumim, logo que teve mais cabelo. Bebê
chorão, passeado todas as manhãs, na praia ou no prédio de
apartamento muito grande, de excelente playground. Status
maior que durou pouco: separação dos pais.
Vizinhos amigos, a “turminha do barulho”, como dizia mamãe.
Muita perna para futebol, sonho de ser jogador. Pelé, no mínimo.
Como o tio querido, “uma vez Flamengo, sempre Flamengo”.E muita
batata frita nos shows de Roberto Carlos, no Canecão.
O
sucesso do cabelo se fazia sentir no cabeleireiro: parava gente
para ver o menino no carrinho de cortar cabelo de criança.
Depois, o mesmo colégio de horário integral, agora por pouco
tempo: mudamos para o Rio.
Meu
filho e a flauta doce, incentivo do avô paterno, muito chegado à
música. Emoção de artista, carinho e choro, eis a melhor
definição do meu segundo filho. Mais dificuldades, mesmo amor:
Freud explica a paixão pela mãe então ausente, trabalhando fora,
por causa da separação. E da falta de dinheiro, claro.
Na
flauta, doce flauta, o descarregar dos problemas, das ausências
impostas pela vida.
Amigo fiel até hoje sobrou apenas um, das mudanças do menino e
dos outros. Morando em Copacabana, os amigos de Niterói se
perderam nas brumas do mar das barcas, catamarãs, da Ponte Rio
Niterói em dia de nevoeiro forte.
E
eu, sem nunca ser avó, sem saber mais costurar nem bordar, nem
mesmo dar aulas, vou lembrando, lembrando, nó no peito. Se não
fosse a idade, fabricaria bem uns quatro filhos a mais. Ficariam
todos pequenos, a meu redor, para sempre.
E
eu, mágica, a lhes fantasiar as cabeças com minhas próprias
histórias.
Maria Lindgren |