Maria Lindgren

Minguado Natal

Chega dezembro e eu tremo. Sei que não vou gostar do que me espera. Tento disfarçar, cantar, até me exibir no Coral do colégio sofisticado do Leblon umas três vezes... Não adianta. Continuo estranha, meio melancólica, como diziam os antigos do século XIX, sem saber que melancolia mata. Era bonito cara triste, sobretudo, de moça casadoira. No XX, as coisas mudaram. Cara chateada sem razão, direto ao psi: neurose certa. Hoje, nem isso. Ninguém leva melancolia a sério. Todo o mundo quer mesmo é se sentir legal, alegria no bucho, talvez com ajuda de álcool, bolinha, ou coisa mais braba.

Digo pra mim mesma: - Um mês passa rapidinho. Num instante e o ano novo começa. Vida nova, falam todos  Mas eu, não caio nessa. Não muda nadinha. A não ser o clima que está cada vez mais maluco em toda parte. Na Europa é mês de sentir frio, verdade, mas não tanto quanto os termômetros e a neve acusam Chegam a pedir que as pessoas evitem sair de casa, veja só. E como ficam as compras de Natal, nestes domínios do consumo? Quem vai pular a/na neve sem ser engolido por ela, só para ir a um shopping ou outras lojas, até mesmo supermercados, comprar alimento típicos, brinquedos, roupas, jóias e bijuterias, presentes, enfim, conforme o bolso de cada um?

Já no Brasil, no Rio de Janeiro, nada disso. É calor de caldeirão fervendo, 40 graus  e muito suor, sem as lágrimas da Semana Santa porque Cristo ainda não foi crucificado. Pelo contrário : vai nascer. Pobre, mas bendito, cercado por papai falso, mamãe verdadeira, reis, animais que passavam por lá... Aliás, foram os tais dos Reis Magos que inventaram os presentes de Natal e a gente seguiu a cartilha direitinho. Jesus-Menino não precisava de nada: era filho de Deus e Deus também. Quer mais do que isso?

Mas os nosso meninos, que de deuses não têm nada, os mais pobres, os que não têm família  não ganham presente que preste. Estes, sim: precisam de muita coisa, de quase tudo, pois só têm a roupa do corpo magro e uma prato da caridade. Presente de ouro, que sonho é este? Nem pensar..

E eu a me doer, vi sair das mãos da cozinheira bacalhau de forno, presunto idem com abacaxi e cerejas, arroz com passas, castanhas cozidas e rabanadas. Para acompanhar. Vinho tinto francês, que meu maridão tem bom gosto. Tudo digno de uma senhora ceia. Como as que fazia meu pai português, para cansaço alegre de minha mãe. No mínimo, doze pessoas na comilança e na beberagem de vinhos portugueses. Água, nunca. Natal, só com vinho de mesa e, se ainda desse, um do Porto para fechar os trabalhos.

Até padres meu pai convidava, pessoas de apetite insaciável, não sei se pela frustração de não terem direito à mulher. Além de toda a família e dos agregados que não tinham família por perto, como meu primo, chegado de Portugal para morar conosco.

Ao ataque pantagruélico, depois de curta benção do padre e de meu pai, com devidos agradecimentos. Ao final, palavras de alto catolicismo, saudando Jesus em lágrimas do mais alto fervor etílico-religioso..

Aos poucos, meu Natal foi minguando. Filhos crescidos, poucos amigos ainda solteiros ou sem filhos. Depois, apenas a família reduzida: cinco pessoas. No máximo.

Perde a graça o Natal sem criança. Aliás, já era difícil encarar as vésperas deste quase nada: trânsito entupido, homens e mulheres suarentos, aflitos para atravessar ruas, entrar em lojas, escolher... Que coisa louca a seleção dos presentes! O pé e a perna ficam destroçados, quando não são as costas e o quadril. O vai-vem da busca ensandecida é trajeto de fanáticos sem serem religiosos. Como se pisassem em brasa, sofressem de falta de ar crônica. Além da ameaça de surdez pelo barulho de vozes, motores, buzinas e mais uma musiquinha tipo Jingle Bell, em todos os ritmos e em inglês, ao fundo de todos os cantos do comércio.

Falar em música de Natal, que tal vocês acharam o funk de Natal da nossa mais importante emissora de televisão? Só deu pra me entristecer mais ainda. Onde ficaram as marchinhas do Lalau,  o nosso sambinha gostoso, nossa bossa nova ou não, de tanto sucesso? Ou mesmo as eternas valsinhas. Mas funk, gente boa? Só pode ser para agradar as massas e levar o voto dos pobres.

 Na sala, o som da televisão embala o esperar da festa. Tem gente que gosta. Eu, não senhor. Preparo-me, isso sim, para a Missa do Galo a que nunca assisti. Primeiro, porque era criança e tinha que dormir cedo. Depois, porque minhas crianças mereciam brincar com os presentes novos. Mais tarde por inúmeros motivos de uma vida bem cheia de atropelos.

Vou tentar ir neste Natal. Afinal, Jesus-Menino não sabe que meu Natal minguou. Ele é recém-nascido ainda. 

Maria Lindgren

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