Chega dezembro e eu tremo. Sei que não vou gostar do que me
espera. Tento disfarçar, cantar, até me exibir no Coral do
colégio sofisticado do Leblon umas três vezes... Não adianta.
Continuo estranha, meio melancólica, como diziam os antigos do
século XIX, sem saber que melancolia mata. Era bonito cara
triste, sobretudo, de moça casadoira. No XX, as coisas
mudaram. Cara chateada sem razão, direto ao psi: neurose
certa. Hoje, nem isso. Ninguém leva melancolia a sério. Todo o
mundo quer mesmo é se sentir legal, alegria no bucho, talvez
com ajuda de álcool, bolinha, ou coisa mais braba.
Digo pra mim mesma: - Um mês passa rapidinho. Num instante e o
ano novo começa. Vida nova, falam todos Mas eu, não caio
nessa. Não muda nadinha. A não ser o clima que está cada vez
mais maluco em toda parte. Na Europa é mês de sentir frio,
verdade, mas não tanto quanto os termômetros e a neve acusam
Chegam a pedir que as pessoas evitem sair de casa, veja só. E
como ficam as compras de Natal, nestes domínios do consumo?
Quem vai pular a/na neve sem ser engolido por ela, só para ir
a um shopping ou outras lojas, até mesmo supermercados,
comprar alimento típicos, brinquedos, roupas, jóias e
bijuterias, presentes, enfim, conforme o bolso de cada um?
Já no Brasil, no Rio de Janeiro, nada disso. É calor de
caldeirão fervendo, 40 graus e muito suor, sem as lágrimas da
Semana Santa porque Cristo ainda não foi crucificado. Pelo
contrário : vai nascer. Pobre, mas bendito, cercado por papai
falso, mamãe verdadeira, reis, animais que passavam por lá...
Aliás, foram os tais dos Reis Magos que inventaram os
presentes de Natal e a gente seguiu a cartilha direitinho.
Jesus-Menino não precisava de nada: era filho de Deus e Deus
também. Quer mais do que isso?
Mas os nosso meninos, que de deuses não têm nada, os mais
pobres, os que não têm família não ganham presente que
preste. Estes, sim: precisam de muita coisa, de quase tudo,
pois só têm a roupa do corpo magro e uma prato da caridade.
Presente de ouro, que sonho é este? Nem pensar..
E eu a me doer, vi sair das mãos da cozinheira bacalhau de
forno, presunto idem com abacaxi e cerejas, arroz com passas,
castanhas cozidas e rabanadas. Para acompanhar. Vinho tinto
francês, que meu maridão tem bom gosto. Tudo digno de uma
senhora ceia. Como as que fazia meu pai português, para
cansaço alegre de minha mãe. No mínimo, doze pessoas na
comilança e na beberagem de vinhos portugueses. Água, nunca.
Natal, só com vinho de mesa e, se ainda desse, um do Porto
para fechar os trabalhos.
Até padres meu pai convidava, pessoas de apetite insaciável,
não sei se pela frustração de não terem direito à mulher. Além
de toda a família e dos agregados que não tinham família por
perto, como meu primo, chegado de Portugal para morar conosco.
Ao ataque pantagruélico, depois de curta benção do padre e de
meu pai, com devidos agradecimentos. Ao final, palavras de
alto catolicismo, saudando Jesus em lágrimas do mais alto
fervor etílico-religioso..
Aos poucos, meu Natal foi minguando. Filhos crescidos, poucos
amigos ainda solteiros ou sem filhos. Depois, apenas a família
reduzida: cinco pessoas. No máximo.
Perde a graça o Natal sem criança. Aliás, já era difícil
encarar as vésperas deste quase nada: trânsito entupido,
homens e mulheres suarentos, aflitos para atravessar ruas,
entrar em lojas, escolher... Que coisa louca a seleção dos
presentes! O pé e a perna ficam destroçados, quando não são as
costas e o quadril. O vai-vem da busca ensandecida é trajeto
de fanáticos sem serem religiosos. Como se pisassem em brasa,
sofressem de falta de ar crônica. Além da ameaça de surdez
pelo barulho de vozes, motores, buzinas e mais uma musiquinha
tipo Jingle Bell, em todos os ritmos e em inglês, ao fundo de
todos os cantos do comércio.
Falar em música de Natal, que tal vocês acharam o funk de
Natal da nossa mais importante emissora de televisão? Só deu
pra me entristecer mais ainda. Onde ficaram as marchinhas do
Lalau, o nosso sambinha gostoso, nossa bossa nova ou não, de
tanto sucesso? Ou mesmo as eternas valsinhas. Mas funk, gente
boa? Só pode ser para agradar as massas e levar o voto dos
pobres.
Na sala, o som da televisão embala o esperar da festa. Tem
gente que gosta. Eu, não senhor. Preparo-me, isso sim, para a
Missa do Galo a que nunca assisti. Primeiro, porque era
criança e tinha que dormir cedo. Depois, porque minhas
crianças mereciam brincar com os presentes novos. Mais tarde
por inúmeros motivos de uma vida bem cheia de atropelos.
Vou tentar ir neste Natal. Afinal, Jesus-Menino não sabe que
meu Natal minguou. Ele é recém-nascido ainda.
Maria
Lindgren